<p>Cultura brasileira – Do Diário de Petrópolis: “São Sebastião e a cachaça”, por Reinaldo Paes Barreto<p>

São Sebastião e a Cachaça, por Reinaldo Paes Barreto

Do Diário de Petrópolis https://www.diariodepetropolis.com.br/integra/reinaldo-paes-barreto-sao-sebastiao-e-a-cachaca-161018?fbclid=IwAR3nG1Lc2vcix0qewBRlDqHUfYYDOhVSS-EluJYEj0NkC9slNhH3itYBHGQ

Rio, 20 de janeiro de 2019.

Não, não consta que São Sebastião bebesse cachaça. Já os portugueses… Bem, a estória é a seguinte: há 452 anos, em 20 de janeiro de 1567, os portugueses Mem de Sá, (nascido em Coimbra) e seu sobrinho, Estácio de Sá,  com seu exército, expulsam os franceses e seus aliados, índios e mamelucos, da Baía de Guanabara — com o apoio, segundo a lenda, da “presença”de São Sebastião, francês de nascimento. Finda a batalha, o santo mártir voltou pro céu!, mas os Sá e seus homens,  beberam cachaça para comemorar a vitória.

Ela, “a branquinha”(e mais mil sinônimos), iniciava, assim, a sua saga de companheira do braço que trabalha — contra o bolso explorador.

 

 

Ganhou fama, mas não prestígio.  Depois, durante todos os ciclo econômicos da Colônia e do Império (o do pau-brasil havia se exaurido):  o da cana, do ouro e do café, ela foi a bebida do escravo, do negro, do pobre, do pinguço. (Depois veio o ciclo da borracha, mas a cachaça andava longe).  Mas durante esses mais de trezentos anos, como bem observou Câmara Cascudo, “ela assegurou a sua sobrevivência ficando com o povo”. Tanto que era produzida em larga escala nos engenhos de Pernambuco, Bahia, nas Minas Gerais e no sul do Rio de Janeiro: Paraty chegou a engarrafar 800 mil litros por ano, no final do século XVII.

E assim foi até a abolição da escravatura, quando a produção entrou em franco declínio por óbvios motivos.

 

( Ilustração da assinatura pela Princesa Isabel, do site Historiazine)

De uns 90 e poucos anos para cá, contudo, a cachaça “sofreu”um up-grade. De cara, pelo seu simbolismo verde-amarelo de raiz, o que a fez ser a musa dos movimentos de transgressão ao establishment.  No ímpeto verde-e-amarelo da Revolução de Arte Moderna, por exemplo, em 1922 ela era a bebida dos “contraventores da arte” (Oswald de Andrade, Pagu, Tarsila do Amaral, Anita Malftti) que bebiam cachaça em taças de champagne (habituadas a Dom Pérignon) nos salões chiques da Av. Paulista.

Além disso e, na sequência, ela marchou com a Coluna Prestes (1924-26) 25 mil km, do Rio Grande do Sul à Bolívia!

 

 Foto da Wikipédia

Nesse embalo e, ainda em São Paulo, nos anos 30, porque deu filhote: era misturada com limão e mel (batida) para aquecer a garganta dos boêmios e seresteiros nas madrugada úmidas da garoa, fundando a dinastia da caipirinha — hoje uma marca do Brasil mais importante do que o futebol.

Aliás e por falar em São Paulo, graças a quatro presidentes da República (sendo que um, power, gringo, o presidente dos Estados Unidos) mas, sobretudo, a três brasileiros que fizeram suas carreiras naquele estado, ela começou  a ser bebida “com a faixa presidencial no peito.”

O primeiro, Jânio Quadros, que antes dos comícios entrava nas biroscas  pra tomar uma pinguinha no pingado (cachacinha em cima do café com leite) que aparece na foto trocando as pernas (Prêmio Esso).

 

  

O segundo, Fernando Henrique, deu um gole definitivo ao assinar o decreto Decreto n° 4.072/2002 que regulamentou a Lei n° 8.918/1994. No texto, se protege a propriedade da denominação da cachaça como aguardente de cana típica e exclusivamente produzida no Brasil.

Resultado: a cachaça passou a ser consumida e apreciada no exterior e pelos gringos que nos visitam. E além de ser servida “in natura”, ela transferiu o seu DNA para um dos drinques mais consumidos aqui e lá fora: a caipirinha, também declarada brasileiríssima por decreto.

 

  

E o terceiro, o Lula, (honra seja feita) sempre assumiu publicamente que operário alivia as mágoas com talagadas de branquinha.

 

                                       ..

Mas o agrément de embaixatriz foi-lhe passado, mesmo, em abril de 2012, quando a presidente Dilma foi à Washington para assinar um acordo com o governo dos EUA, pelo qual ambos os signatários reconheciam – de uma lado, que a nossa cachaça é um produto genuinamente brasileiro  — e, do outro, que o Tenessee Bourbon (uísque de milho) também é uma bebida  genuianamente (norte)americana.

Bingo!  E, para comemorar, ambos brindaram com cachaça: a glória!

 

 Dilma tilintando taça com Obama (foto O Globo). Pelo menos isso, presidenta! 

Mas além desses “picos de prestígio”, a cachaça vem ganhando novos espaços, Na área cultural e do turismo, principalmente no Estado do Rio, a ex-Primeira-Dama Maria Lúcia Horta Jardim, esteve pessoalmente empenhada na criação do Museu da Cachaça, no Rio (que está parado) mas, graças a ela e a outros “devotos”, inclusive o então secretário de Turismo-RJ, Nilo Sergio, foi criado o Polo da Cachaça do Vale do Café, que envolve 14 municípios da região e 15 alambiques. No âmbito do comportamento e consumo (da caipirinha já falamos) ela ganhou a preferência dos estrangeiros também: já troquei “no pau”com um francês uma garrafa de Armagnac por uma cachaça Matusalém, da Fazenda da Mata, da família de D. Risoleta Neves, mulher do Tancredo).

E por falar em estrangeiros, a minha colega na diretoria da Câmara Portuguesa do Rio, a infatigável Marly Galvão, empresária no setor importação/exportação de vinhos Chico Carreiro, sobretudo da marca Dona Berta, passará a exportar também as cachaças Bem-Me-Quer (mineiras) e a orgânica Cambéba, produzida em Goiás. A previsão é colocar as duas nas prateleiras “das casas do ramo”em Lisboa e, futuramente, em Madri.

 

 

Obs: em 2017, o IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) informou que a Cachaça é o segundo destilado mais consumido no país. E o terceiro no mundo. A capacidade produtiva instalada hoje, em fronteiras nacionais, é de 1,2 bilhão de litros por ano. São cerca de 4 mil marcas registradas e mais de 600 mil empregos gerados, direta e indiretamente. Passou de capote o Rum, a Tequila, as bagaceiras, grapas, eau-de-vies e congêneres.

Eu prefiro degustá-la geladíssima (não congela), como um “poire”, depois de um almoço ou jantar pantagruélicos.

Saravá, minha gente!

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