Em nosso comentário de terça-feira passada, falamos sobre o massacre recente numa universidade dos Estados Unidos e a violência massificada que recebemos pelos meios de comunicação no nosso dia-a-dia. O alerta da especialista americana Ellen Wartella, da Universidade da Califórnia, sobre como essa violência pela TV pode afetar crianças e jovens que ainda não têm maturidade para entender e “digerir” corretamente esse tipo de informação repercutiu por aqui e tem agora o seu contraponto para a realidade da cidadania brasileira.

Hoje vamos comentar uma mensagem que recebemos do Des. Siro Darlan, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde ele nos brinda com um artigo de título pra lá de sugestivo:”Como fazer um bandido”.

Trata-se de uma crítica irônica aos fatores que contribuem decisivamente, aqui no Brasil, para a (de)formação moral e social de toda uma legião de jovens. Embora falando de uma experiência no estado do Rio de Janeiro, o conteúdo desse artigo retrata situações vividas em todos os cantos do país.

Em cinco pontos principais, uma legião de bandidos está sendo “formada” no Brasil. Primeiro, fazemos nossos jovens nascerem em famílias numerosas e com pais omissos na sua responsabilidade paterna, possivelmente sem nunca registrar os próprios filhos. E sem nunca oferecer demonstrações de afeto e de que a presença dessas crianças na família é bem-vinda, e não um peso num grupo que conta com recursos já tão escassos. O jovem deve também residir numa comunidade onde o poder público só comparece para trocar tiros e deixar vítimas. Nada de escola, nem posto de saúde. Só o caveirão.

Em segundo lugar, fazemos esses jovens freqüentarem escolas públicas sucateadas e onde eles são discriminados e desestimulados para os estudos. A ociosidade também é excelente matéria-prima e, quando não é essa a opção, o trabalho infantil abre caminho para a exploração sexual e o tráfico de drogas.

A seguir, temos a polêmica questão da maioridade penal. Segundo o Desembargador Siro, o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro constatou que os jovens carentes são agentes de violência num percentual de apenas 9,8% contra 91,2% onde eles são na verdade as vítimas.

Em quarto lugar, o autor alerta a mídia para que evite o papel de algoz desse jovem, retratando crimes praticados por eles numa escala desproporcional em relação a outros delitos. E sugere a adoção de algumas alternativas, como a iniciativa da “família substituta”, dependendo da situação de cada um.

Por fim, permitimos que os filhos de nossas elites se envolvam livre e publicamente com drogas e álcool em boates. E deixamos que essas crianças carentes percebam que existe essa diferença no tratamento a cidadãos que vivem sob a mesma lei. Isso servirá para aumentar as diferenças sociais, o ódio e a frustração de não poderem ser tratadas como as outras. A frase final é praticamente o epitáfio para uma grande legião de brasileiros: “Pronto, você conseguiu, finalmente, criar o seu monstro. Agora conviva com ele.”

Pois não deixem de ler a íntegra o artigo “Como fazer um bandido”, do Des. Siro Darlan, já disponível na nossa Agenda, aqui na Voz do Cidadão. Além deste, também temos uma dezena de outros artigos e reflexões sobre a cidadania no Brasil e no mundo, escritos por alguns dos nossos colaboradores.

Acessem, conheçam e participem deste debate!

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