A campanha da Rede Globo “Que Brasil você quer para o futuro?”

Estava eu a fechar as últimas páginas de meu novo livro quando me vejo surpreendido com a mega-campanha da TV Globo lançando no Fantástico a pergunta “Que Brasil você quer para o futuro?”. É bom que se lembre que o Fantástico, produto híbrido dos departamentos de jornalismo e de entretenimento, foi lançado como “o show da vida”, onde a notícia pode ser trabalhada como espetáculo, questão controversa já discutida aqui nessas páginas. Mas a iniciativa, enfim, pode inaugurar o jornalismo cívico que tenho reclamado aqui como principal responsabilidade ética da emissora nesses tempos de turning point entre a supremacia de uma cultura de impunidade sobre uma cultura de plena cidadania no país. Como a própria campanha afirma que pretende convocar os cidadãos brasileiros de todos os 5570 municípios a gravar um selfie respondendo à pergunta “Que Brasil você quer para o futuro”, informando que o local da gravação deverá ser obrigatoriamente o ponto mais característico – turístico? – de sua cidade, me assaltou a pergunta que não quer calar. Quer dizer que se o cidadão quiser gravar diante de um local que mostre e denuncie uma mazela social de seu município, o descaso dos governantes, a degradação do espaço público, não pode? É desclassificado? Vejam a propósito vídeo postado por Nelma de Goiânia já postado nas redes sociais, início de uma avalanche de outros vídeos que acredito possa ter um efeito de potencialização da campanha. Quando a própria emissora se refere ao ano eleitoral onde 144 milhões de eleitores, portadores de 139 milhões de aparelhos celulares, vão às urnas para escolher seus representantes, a emissora receia que os cidadãos brasileiros possam tomar uma posição política, contra ou a favor deste ou daquele governante ou partido? Qual o problema se ela mesma é que vai julgar os vídeos que exibirá? Bastaria explicitar o vocativo do chamamento geral de – cidadãos e cidadãs brasileiros! Como prego há 15 anos! Chegou a hora de você cidadão participar, de você cidadão construir o país do futuro. E explicar mais o conteúdo de cidadania do que a forma, o local para a gravação, a posição horizontal do celular, a distância e outros formalismos. Há 15 anos tento passar esta ideia de ululante obviedade: o cidadão só precisa ser reconhecido como cidadão para que mudemos integralmente a supremacia de uma cultura de impunidade por uma cultura de plena cidadania. Há 15 anos tento passar este acervo de cultura de cidadania que amealhei toda a minha vida, mas os jornalistas da emissora acham que são auto-suficientes e já sabem de tudo, não precisam de qualquer colaboração “de fora da casa”. Resultado: mais uma valiosa oportunidade perdida por mera egotrip. Bastava chamar os brasileiros, para além de você ou morador do município tal, pelo o que eles são verdadeiramente: cidadãos! Mas ainda temos a chance de sensibilizar os cidadãos de uma elite que sabe ler, escrever e propor iniciativas de políticas públicas que podem varrer a velha política para o lixo da história e inaugurar um novo imaginário que todos acreditemos de fato. Basta adotar o programa de Agentes de Cidadania que desenvolvemos nos últimos anos. Mas, como também já disse aqui, precisaríamos encontrar jornalistas de nobre espírito cívico.

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