Um poeta do amor e da sensualidade dentro da tradição do lirismo português que marcou nossa cultura desde o barroco até o modernismo. Um poeta que é capaz de seguir a forma clássica do soneto, sem uma sequer rima toante ou soante ao cabo dos catorze versos, mas sempre com a mesma palavra, dentro de um jogo de oposições e de farsa seguida, nos encantar com tamanha virtuosidade dentro de uma só aparente simplicidade. Veja em Matura Idade, dois exemplos mas ouça também o fundo musical de Nat King Cole interpretando Stardust e Unforgettable:

https://www.youtube.com/watch?v=KUMoiU3h750
Os dedos
O dedo mais que dedo dos meus dedos
este undécimo dedo dos meus dedos
clarividente cego entre os meus dedos
conhece-te melhor do que os meus dedos
Percorre-te por dentro   Encontra dedos
os dedos que por dentro de ti dedos
mais dentes são gengivas do que dedos
mais palatos em fogo do que dedos
E súbito pergunto  Que é dos dedos
ó mais unhas por fora do que dedos
ó mais luva por dentro do que dedos
Mas eis de novo dedos dedos dedos
apertando em seus dedos ah tão dedos
o dedo mais que dedo dos meus dedos
As bocas
Apenas uma boca A tua boca
Apenas outra A outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
de ser Agosto já na outra boca
Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
inda há pouco na popa em minha boca
é já na proa a polpa de outra boca
Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas que sabe entretanto a minha boca
Que apenas vai sentindo em sua boca
mais rouca do que boca a minha boca
mais louca do que boca a tua boca

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.