O professor Felipe Schadt causou um reboliço nas redes sociais quanto afirmou que o nazismo era de direita. E apresentou uma pilha de livros sobre a história do nazismo que havia lido (inclusive o Mein Kampf, de Hitler) para sua tese acadêmica de especialização em História na USP. Seus argumentos partem do principio de que o próprio Hitler teria negado ser marxista em seus textos assim como vários historiadores “isentos” da Europa e do Brasil alinham o nazismo como uma doutrina de direita dado o seu “ultra-conservadorismo” nos costumes, sua militarização da política e o objetivo maior da superioridade de uma raça sobre as demais. Acrescenta ainda que a própria página oficial do governo alemão classifica o partido nazista como de extrema direita.

Como o professor convida seus opositores ao debate com a apresentação de argumentos, vamos lá:

1. Não é nenhum historiador que vai chamar o Nazismo de esquerdista. São seus próprios fundadores quando o alcunham de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. São duas menções, vamos aqui convir, mais a esquerda do que a direita, a saber: “socialista” e “dos trabalhadores alemães”. Ou os nominativos não explicitam mais significados para os relativistas contorcionistas da linguagem como os esquerdistas gramscianos?

2. O fato de a direita se afirmar como doutrina conservadora (prefiro conservantista) nos costumes, nas crenças, na política e na economia, não significa que ela seja “ultra-conservadora” ou de “extrema-direita” como a esquerda socialista, social-democrata e mesmo democrática gosta de se referir para confundir o debate franco. Não seria mais honesto, intelectualmente falando, enfrentar a simples designação de direita?

3. Trata-se aqui, mais uma vez, de não ler Bobbio corretamente, quando o professor não reconhece viés social-liberal do pensador italiano, ao afirmar a característica maior da direita como o individualismo, e a da esquerda o coletivismo. Daí, afirmar que o nazismo, com seu objetivo maior da supremacia racial, repudiar o coletivismo, ou o igualitarismo racial, é uma longa distância. Quando pode-se perfeitamente afirmar o individualismo da ação humana como a liberdade de escolha, por exemplo. Ou o igualitarismo social como igualdade de oportunidades, por exemplo. O que não significa necessariamente a supremacia racista.

4. Na verdade, o professor não apresenta como distinção doutrinária fundamental em termos históricos as categorias da revolução francesa de girondinos e jacobinos de onde surgiu a caracterização de direita e esquerda. O que é lamentável sendo ele um estudioso da história. Ou como se traduziria hoje, conservadores e progressistas. Os que queriam as mudanças sociais sem ser às custas da guilhotina dos de sangue azul contra os que propugnavam pela revolução do terror, o que acabou por sinal por guilhotinar os seus próprios asseclas. Quando esta distinção é fundamental para se manter o debate dentro de um mínimo de racionalidade e honestidade intelectual. Conservadores são os que desconfiam do progresso social às custas do relativismo moral dos valores da tradição humanista judaico-grega-cristã. Progressistas cerram fila no progresso social e na liberdade incondicional do indivíduo independente das consequências morais e sociais.

5. O professor não enfrenta a questão filosófica fundamental, portanto, dos limites morais dos valores da liberdade e da igualdade. Até que ponto poderia a liberdade individual se afirmar às custas de iguais liberdades dos outros. Assim como até que ponto a igualdade deve significar o igualitarismo coletivista que desfavorece o mérito individual.

6. É perfeitamente possível ser crítico de uma facção da esquerda marxista sem, por isto, assumir posições de direita. Afinal, nada mais facciosista do que a esquerda: marxista, leninista, stalinista, trotskista, maoísta, gramscista, castrista etc etc. Quando é pacífico que cada uma delas sempre lutou sobretudo contra elas próprias e podem ser resumidas hoje em dia como socialistas tão simplesmente, com sua origem histórica em Rousseau, Proudhom e Saint-Simon. Quando o conservantismo, que seria uma mais justa tradução de “conservatism”, não seria apenas uma atitude conservadora de seu praticante de se opor a princípio a qualquer ideia progressista, mas a de admiti-la na condição de preservação (ou conservação) dos valores morais da tradição, livres do relativismo da revolução cultural e da corrupção dos valores morais esquerdistas.

7. Concluindo, o Nazismo é de esquerda por que propugna pela mudança da sociedade à revelia de quaisquer valores morais da tradição judaico-cristã, como a igualdade de oportunidade, e não a igualdade coletivista; a liberdade de alteridade, e não a liberdade de identidade (racial, por exemplo); a vida como dom divino, e não a vida como decisão humana; e a propriedade, enfim, como fruto do trabalho individual, e não como fator de poder estatal. Se foi aliado dos comunistas no início da 2ª Grande Guerra, herdando todos os seus métodos de hegemonia político-militar, como o genocídio em campos de concentração, e acabou como inimigo deles, não significa absolutamente que o nazismo seja de direita.  É absolutamente desonesta a argumentação relativista da esquerda de taxar o nazismo como direita, como estratégia de ofuscar os crimes contra a humanidade perpetrados, estes sim, pelas várias facções esquerdistas na história recente do mundo.

8. Como sempre digo: os conservantistas leem seriamente os esquerdistas progressistas para os criticar. Mas não conheço esquerdista progressista que tenha lido e criticado a sério os conservantistas como Russel Kirk ou Roger Scruton, dois dos maiores intelectuais da humanidade nos dias de hoje. Lamentável desonestidade intelectual e moral.

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