Censura a Monteiro Lobato tem audiência pública no Supremo

Demorou dois anos mas finalmente caberá ao Supremo Tribunal Federal julgar mais uma triste distorção de valores e conceitos no país. Mensalão? Não. Cachoeira? Também não. O vilão deste processo descabido é ninguém menos que Monteiro Lobato, o maior escritor infanto-juvenil de nossa história, criador de personagens célebres e importantes como Narizinho, Pedrinho, Dona Benta e a empregada Tia Nastácia.

Aliás, é por esta última que Monteiro Lobato acabou indo parar no Supremo. Hoje, a partir das sete e meia da noite será realizada uma audiência pública por convocação do ministro Luiz Fux. O ministro quer mais detalhes sobre um mandato de segurança de autoria da ong Instituto de Advocacia Racial.

Segundo a ong, a obra “Caçadas de Pedrinho” de Monteiro Lobato faz “referências ao negro com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas” e assim não deveria ser adotada por escolas, a não ser acompanhada de notas explicativas sobre estudos “que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”.

Para o grupo, várias passagens do livro conteriam indicações de racismo, como o seguinte trecho: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore, que nem uma macaca de carvão”. Ou este: “Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta.” E por aí vai.

Pois é. Para um estado que se dedica a ser cada vez mais autoritário e a querer determinar o que é bom ou ruim para os cidadãos, não é de se estranhar que um processo bizarro como este tenha conseguido prosperar a ponto de chegar na mais alta corte judiciária do país. Daqui a pouco implicam com a pedra no caminho de Drummond ou com o papagaio que virou refeição em Graciliano Ramos.

Não podemos nos esquecer que Monteiro Lobato dedicou a vida a divulgar o folclore nacional e a tentar incutir uma auto-estima nacional que não tínhamos até então. Além de ter sido um dos primeiros a sonhar com uma próspera indústria nacional de petróleo e uma verdadeira independência econômica e cultural.

Negar Monteiro Lobato, sob qualquer desculpa esfarrapada, é negar o Brasil que já fomos, princípio fundamental para chegarmos ao Brasil que sonhamos. Como o próprio mestre já afirmava: “Escrevo para as crianças porque depois de amanhã elas construirão o Brasil com que sonhamos”.

Esperamos que os oito convidados do ministro para a audiência pública estejam atentos para a grave patrulha cultural e educacional que uma decisão dessas pode inaugurar no Brasil.

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