O ministro da defesa correu para negar a necessidade de convocação da Força Nacional solicitada pelo prefeito de Porto Alegre para o julgamento de Lula lá. O julgamento do dia 24 de janeiro próximo será um divisor de águas na cultura política brasileira. Onde vamos colocar o Lula? Na cadeia como outros políticos já condenados ou no trono dos acima da lei que tudo podem? Ou refundamos a República e Lula é um cidadão como outro qualquer, ou dividiremos o país de vez entre a escumalha geral dos cidadãos de segunda classe e os cidadãos especiais, como ele próprio se referiu a Sarney.

Eis a questão para nossos doutos operadores da justiça, das altas togas aos do Parquet: pode um condenado concitar o povo a fazer manifestações contra um julgamento da Justiça Federal? Pode injuriar as instituições judiciais? Participar do debate político, quem foi julgado e condenado por crime de corrupção da própria gestão pública? Então por que fazem ouvidos moucos para a convocatória do criminoso José Dirceu nas redes sociais? Basta visitar o site Nocaute do jornalista Fernando Morais e apreciar o último vídeo postado na semana passada. Ou o site BdF onde o líder do MST convoca os militantes para acampar em frente do prédio da Justiça Federal.

Vejam que bela retorção e distorção barroquista do jornalista do Nocaute que se diz independente com bustos de Simon Bolivar, Fidel Castro e Hugo Chavez colocados em cena, num verdadeiro merchandising esquerdista. E segue o vídeo do companheiro Zé Dirceu convocando “o povo para o combate no próximo dia 24 de janeiro contra “juízes que querem impedir Lula de ser candidato”, “juízes golpistas, inclusive do Supremo, que querem afastar o povo da decisão de eleger seu candidato”, “juízes que querem usurpar o poder do Legislativo e do Executivo”, exortando os militantes “a derrubar a ditadura da toga”.

Tenho defendido que, no campo das artes, não resta dúvida que a alma barroca brasileira é esplendorosa, e disso deve saber bem a ministra Carmen Lucia, mineira de quatro costados. Mas no campo da justiça, da moral, da cívica e da política é um desastre a prevalência desses resquícios de paixão, ambiguidade, desmesura e imprudência ainda presentes na alma brasileira e típicos do esquerdismo dominante. O Brasil sob a retórica do pão de queijo – deliciosa retórica, por sinal, de tudo junto e misturado, onde não se sabe onde começa o pão e acaba o queijo – contra a aritmética e fria razão do pão-pão queijo-queijo. Sob o império do paradoxo, da metáfora, do eufemismo, da ironia, da hipérbole e outras dezenas de figuras retóricas, vamos trocando valores por atributos pela vida afora. O que era para ser expressão de um estilo de arte virou expressão de vida. O burlesco teatral virou a burla política imoral. O que era adorno virou motivo. O gosto pelo adjetivo parasita de um substantivo descarnado e anêmico. Do meio tom, mais para o claro ou mais para o escuro, dependendo do olhar e da encomenda do freguês. Do meio copo quase cheio ou quase vazio dependendo do gosto e da sede do bebedor. O Brasil que mistura prerrogativa com privilégio. O Brasil do disfarce, da vã retórica, do jeitinho e da tramoia, sempre tramando contra a sensatez e o bom senso.

Com a palavra, doutos promotores e magistrados!

 

Jorge Maranhão é diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão

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