<p>Artigo – Do Globo: “Barroca irresponsabilidade”, por Jorge Maranhão<p>

O Globo traz em sua edição de 11/02 um panorama devastador das dez maiores tragédias do país. O que atribui a negligência e impunidade generalizadas, mas sobretudo ao ineficiente sistema judiciário, um dos mais caros do mundo!

Mas penso que uma raiz cultural elucida melhor este gargalo civilizatório. A resiliência de nossa cultura barroquista de irresponsabilidade. Como diz a etimologia, irresponsabilidade é não responder pelos seus atos perante um dever moral ou lei existente. É querer se enganar de que atos não tem consequências, sobretudo atos de omissão!

E assim prosseguimos na cultura da farsa. Pois o que está em jogo hoje no Brasil, não é apenas a sucessão de catástrofes naturais, mas a resistência da cultura barroquista que rechaça qualquer iniciativa de precaução e prudência, predicados iluministas.

O que nos domina é a mentalidade barroquista, a cultura que consagra o paradoxo de que elaboramos tantas leis, normas e regulamentações quanto compulsivamente não as cumprimos. Que tudo é meio e processo infindos para não se chegar a nenhum fim. Como nas volutas, espirais, labirintos, trompe l’oeil e demais jogos de ideias, artimanhas da cultura barroquista.

É a certeza da impunidade como paradigma de conduta social, a compulsão de não encarar os problemas de frente e jogar para escanteio. Generalizar culpas, diluir responsabilidades, achar que podemos enganar a todos durante todo o tempo! Sofismar de que forças maiores da natureza nos justifica a inércia e nos isenta de iniciativas. A cultura da farsa barroquista entranhada na nossa alma!

Pois foi a impunidade da Vale em Mariana que a fez rescindir em Brumadinho! E insistir no rolo, no enrolar sem fim!

Todavia, uma boa notícia: o Brasil tem demonstrado nas ruas desde 2013 que está farto de torções e distorções barroquistas! E atingido agora na sua paixão nacional, o futebol, talvez tudo fique mais claro: a mudança política que queremos começa com a mudança de costumes dos cidadãos. Neste barroco país tropical, o maior time de futebol brasileiro pode nos proporcionar um oportuno aprendizado, algo mais para Zico do que para Romário!

Jorge Maranhão é escritor e autor de Destorcer o Brasil

Deixe uma resposta