Uma das mais árduas e ingratas tarefas é tentar separar a ficção da realidade

Estatizaram até a pajelança!

Por Mario Guerreiro

Uma das mais árduas e ingratas tarefas a que um pesquisador sério poderia se dedicar em Terra Brasilis consiste em tentar separar a ficção da realidade, a superstição da ciência, a lógica do absurdo, a eloqüência da baba de quiabo, a medicina do curandeirismo, etc.

E isto diz respeito a todas as camadas sociais em que os mais doutos e sábios não diferem dos mais apedeutas e obturados quando está em jogo a aceitação das crendices mais acachapantes, das charlatanices menos sofisticadas e das asneiras ditas com ou sem empáfia.

Os conhecedores do nosso folclore futebolístico, mais difundido nesta terra do que o folclore do Curupira, da Mãe d’Água e do M’boi Tatá, etc. devem estar lembrados que o Botafogo Futebol Clube, nos velhos tempos do saudoso Carlito Rocha, contratou um macumbeiro para fazer o time não perder nenhum jogo. No Rio, costuma-se dizer que se macumba funcionasse, o campeonato baiano acabava sempre em empate.

Nos governos municipal, estadual e federal, em diferentes épocas, já tivemos como assessores especiais astrólogos, gurus, macumbeiros, médiuns, etc. Ministro de Minas e Energia no governo do general João Figueiredo, o engenheiro César Cals não acreditava em pesquisas geológicas, e, por isso mesmo, recorria às visões de uma médium para tentar localizar jazidas de minérios no subsolo brasileiro – e não fazia nenhum segredo disso.

O chefe da Casa Militar do governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, general Alberto Mendes Cardoso, era médium e incorporava o espírito do “Dr. Amaro”, através de quem diz ter curado muita gente. Só não curou o próprio FHC de sua arrogância uspiana, porque se tratava e se trata de moléstia incurável.

Como se sabe, há alguns anos o Papa Paulo VI, assaz preocupado com assuntos relativos à história eclesiástica e interessado em separar fatos de lendas, reabriu os processos canônicos de vários santos. Isto resultou na cassação dos mandatos de alguns santos que não passavam de personagens lendárias, entre outros: São Cristóvão – padroeiro dos caminhoneiros e nome do conhecido “bairro imperial” carioca – São Jorge, o santo guerreiro contra o Dragão da Maldade e São Sebastião, padroeiro da muy corajosa e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Sabedor disso, o prefeito da Cidade Maravilhosa na época decidiu acabar com o feriado municipal de 21 de janeiro. Por mera coincidência, segundo alguns incrédulos ou por vingança do padroeiro, segundo alguns supersticiosos, o Rio foi assolado por uma das mais terríveis enchentes da sua gloriosa história. É escusado dizer que o feriado foi prontamente reinstaurado.

O fato é que governantes podem não dar a mínima importância para santos reais ou fictícios, mas enchentes produtoras de transtornos urbanos, destruições de patrimônios e mortes não pegam bem: podem resultar em perdas de eleições, e, como se sabe, mal político maior não há nem nunca haverá. Foi pensando assim que os atuais prefeitos do Rio e de São Paulo – conhecidas vítimas de freqüentes dilúvios – resolveram dispensar os préstimos do Serviço de Meteorologia – esta ciência perturbada por incontáveis variáveis fora de controle, que a fazem errar muito mais do que acertar previsões – e contratar os serviços do cacique Cobra Coral. Não estou inventando: Vi na Veja, ano 42, n.o 30, com estes olhos que os vermes da terra hão de comer!

Como o cacique é uma entidade do além e, por isto mesmo, se encontra impossibilitado de assinar contratos, quem assinou os mesmos com ambas as mencionadas prefeituras foi a médium Adelaide Scritori, 54 anos, presidente da Fundação Cacique Cobra Coral.

Segundo consta, a referida entidade do além goza de poderes não só de prever o tempo do aquém com invejável precisão, como também de interferir nos fenômenos climáticos afastando nuvens tempestuosas produtoras de indesejáveis tormentas e tormentos, bem como trazendo chuvas amenas para acabar com prolongadas secas.

Como se pode notar, o poder público é sempre mais ágil e competente do que a iniciativa privada! E a maior prova disto foi a contratação desses excelentes serviços de previsão e modificação do tempo, coisa que poderia ser extremamente útil para fazendeiros, caso eles não fossem preconceituosos em relação à eficácia de serviços prestados por entidades do além.

Quanto ao meteorologista sobrenatural, o cacique Cobra Coral, é de fato um espírito privilegiado, como diz Veja: “Antes de se embrenhar na selva brasileira, ele teria sido ninguém menos do que o italiano Galileu Galilei, o físico e matemático que criou a ciência moderna no século XVI. Fosse isso pouco, segundo Adelaide, o cacique mais tarde encarnou-se em Abraham Lincoln, o 16o. presidente dos Estados Unidos, que aboliu a escravidão e manteve o país unido ao cabo de uma guerra civil em que morreram 620.000 pessoas.

“Difícil precisar que lustros os dotes de um cacique poderiam acrescentar à formidável soma das biografias de Galileu e Lincoln”. E diante de tudo isso, tinha toda a razão o indefectível general De Gaulle quando da “guerra da lagosta”: “Le Brésil n’est pas un pays sérieux”.


* Mario Guerreiro é doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos]. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica.

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