cultura brasileira – A Voz do Cidadão https://www.avozdocidadao.com.br Instituto de Cultura de Cidadania Sat, 24 Apr 2021 22:36:31 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.2.11 Do DCSP: “O país visto das redes”, por Jorge Maranhão https://www.avozdocidadao.com.br/do-dcsp-o-pais-visto-das-redes-por-jorge-maranhao/ https://www.avozdocidadao.com.br/do-dcsp-o-pais-visto-das-redes-por-jorge-maranhao/#respond Sat, 24 Apr 2021 22:36:27 +0000 https://www.avozdocidadao.com.br/?p=39929 O país visto das redes

Aos amigos das redes sociais, que insistem na insana busca de uma terceira via, tento explicar no privado que, lamentavelmente, não existe esta opção 


  Por Jorge Maranhão23 de Abril de 2021 às 15:07

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão e autor de “Destorcer o Brasil. De sua cultura de torções, contorções e distorções barroquistas”. Email: [email protected]


A terceira via

Diante da crescente campanha de uma “terceira via”, depois que nossos supremos torceram e contorceram as leis para transformar um presidiário em presidenciável, se avizinha a maior farsa de nossa pestilenta política esquerdista: regressar à cultura barroquista de todo poder ao establishment das bancadas de corruptos políticos fisiológicos, aliados às privilegiaturas da alta burocracia e da burritziaesquerdopata de artistas, jornalistas e acadêmicos parasitas do Estado.

Será que acham que é mesmo viável tertius do naipe de humoristas, animadores de auditório, governadores investigados e operadores de retroescavadeiras? Acham mesmo que somos imbecis?

O pior é a enorme massa de manobra, que acredita piamente nos aparelhos ideológicos do barroquismo esquerdista nacional contra a chamada “extrema direita”. Pois simplesmente está equivocada quando acha que existe a tal da terceira via, que não existe só dois lados, mas algo além da verdade e da falsidade. Chama-se a isto “relativismo moral”, arma canalha do gramscismo torcendo e distorcendo a tradição barroca da farsa.

Aos amigos das redes sociais, que insistem na insana busca de uma terceira via, tento explicar no privado que lamentavelmente não existe esta opção na verdade, mas apenas na enganação da estratégia das tesouras da hegemonia de esquerdas, ditas carnívoras e veganas, se alternando no poder para tentar impedir a direita de chegar ao governo. E, se chegar, usar de todos os meios para impedi-la de governar.

Pois a cultura política dominante no país e a da obstrução de pauta!

Exatamente a intolerância das esquerdas em seus vários matizes tenta se passar por tolerante, ao falsear o debate dito democrático, desde que excluída a direita – a que chamam sempre de extrema e reacionária.

Toda a tradição dos valores morais judaico-cristãos, veio da crença, da fé, e não da razão cientificista. As fake news que tanto denunciam nada mais são do que uma retórica eufemística do velho boato, ou rumor da tradição política ocidental. Pois o problema não é o rumor, o boato ou a farsa, mas o uso político que se faz dos mesmos.

O problema é que a retórica barroquista, que pode ser de sentido extremamente moral no campo das letras (a moral da história das fábulas, contos de fadas, das farsas e burlas do teatro), não pode ser transposta para o campo da política e da justiça, sob pena de virar simplesmente engodo e trapaça.

A maior parte do que os profetas afirmaram desde o Velho Testamento jamais foi provada pelo cientificismo. No entanto, têm um sentido paradigmático para o legado moral do Ocidente. Se as esquerdas querem se travestir de modernas e progressistas e não reconhecem isto, é porque na verdade não têm consciência da maior virulência que se abateu na modernidade, que é legado barroco do esquerdismo.

A música barroca, por exemplo, não deixa de ser a catedral estética da beleza musical pelo fato de servir à reforma protestante. Pois pode servir também à contrarreforma católica! Se não tem este discernimento, é por que os ditos ponderados da esquerda light são na verdade os piores esquerdistas, que juram que não são, apenas porque não apresentam os sintomas explícitos.

Isentolândia

Nestes tempos de troca de generais isentões e de culhões, vale refrescar os que questionam o “golpe” de 64 que fez aniversário neste mês. Estão fartamente documentadas em fotos e filmes “as marchas da família por Deus e pela liberdade”. Negar isto ou questionar sobre percentuais de aprovação da população ao movimento militar não é absolutamente um debate honesto.

Por favor! Sobretudo aqueles que foram lobotomizados pela propaganda socialista da imprensa, universidades e artistas ativistas a partir da nefasta barganha da “lei da anistia” de 79, e a entrega do aparelho ideológico da sociedade à esquerda contra a desmobilização das guerrilhas revolucionárias. Vejam vídeo insuspeito da própria USP, que até hoje é um antro de esquerdistas.

Sobre o quadro do processo de subversão socialista: o que não avisaram aos russos foi a retorção barroquista da Justiça brasileira. O Brasil estava no auge da fase de implantação socialista do início da década de 2010, com a hegemonia petista aliada ao centrão, quando começaram as sucessivas megamanifestações contra o mensalão. O que resultou na operação Lava-Jato, e no desmonte da corrupção esquerdista com o petrolão.

O que falta neste quadro é exatamente o papel da justiça, de um novo judiciário, e a mudança de posição da quadrilha do Supremo diante da ameaça da Lava-toga. Este é o ponto de inflexão que acabou por extinguir a Lava-jato: a trincheira decisiva da quebra da hegemonia esquerdista e da consolidação, ou não, da união da centro-direita que ascendeu com Bolsonaro – o que eu chamo da retorção de nossa tradição cultural barroquista, de quatro séculos de corrupção dos valores morais.

Para os que insistem em chamar de golpe militar e ditadura o movimento de 64, fica a questão: ditadura como, se houve eleições indiretas e sucessivas para 5 presidentes militares? Ditadura teria havido se fosse apenas um ditador por período superior a um mandato presidencial, e sem congresso aberto que validasse – como no caso de Pinochet, Videla etc.

Democracia é um conceito discutidíssimo na história das ideias políticas desde Platão. Uma vez que, não raramente, descamba para demagogia e oclocracia. Liberdade dos grupos esquerdistas que tramavam revoluções, guerrilhas, atos e atentados terroristas realmente não houve, mas a repressão/distensão foi equivocadamente “negociada” em troca do aparelhamento esquerdista dos meios de reprodução ideológicos, como academia, imprensa e justiça.

Gerações inteiras a partir das décadas de 60 até 90 sofreram lavagem cerebral. Não reconhecer isto é falsear o debate desonestamente, e permanecer no obscuro e tortuoso túnel barroquista sem vislumbrar a razão iluminista que estávamos a perseguir desde o golpe da república.

República do blefe

Senadores blefam contra ministros do supremo de frango quanto à eventualidade de botar para tramitar os vários pedidos de impeachment protocolados na casa. Por sua vez, os sinistros do supremo tirano federal blefam contra suas excrescências quanto à pauta de julgamento de crimes senatoriais de corrupção e lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e outros mimosos tipos penais.

E se desenha o Oroboro barroquista da serpente abocanhando o próprio rabo, instituições que cuidam apenas de promover ações umas contra as outras e não cumprem mais sua missão constitucional em prol dos cidadãos que lhe pagam as mordomias. Como já se levantou e denunciou: mais de 2/3 da ação estatal cuida da própria ação estatal, e não dos interesses dos cidadãos. A república do blefe de se fazer passar exatamente pelo que se não é, ou do que se não é pelo que de fato é!

Jogos nas redes

Por que será que as pessoas postam tantas fotos de si nas redes sociais? Ou citações de outros, para disfarçar que não são de “auto-ajuda”? E continuam sozinhas na vã expectativa de um mísero like? Pois, nas redes, não se encontram amigos de fato. Apenas a farsa de amigos, a ironia, o paradoxo, os eufemismos e hipérboles: o barroquismo do jeu de mots, jeux d’images, jeux d’idées das artes e letras.

Das artimanhas da pobreza de espírito humana de transformar palavras em trocadilhos que, por sua vez, remetem à jogos de imagens ilusórias. Mas que, quando no campo do pensamento, se tornam ideias enganosas da realidade.

Como diria o grande T. S. Eliot, estamos diante de homens ocos, a enganarem-se uns aos outros nesta Terra desolada de ideias, valores e princípios. Uma modernidade que, na ânsia do novo pelo novo, inspira na verdade o Barroco que, em priscas eras, já foi rico quando se curvava ante divinas imagens. E hoje nada mais é do que o barroquismo da soberba esquerdista que quer que os homens se curvem diante de outros homens.

Educação da ‘psico-política’

A fábrica de antifas em massa da educação pública brasileira, depois de mais de 20 anos de governos esquerdistas, consiste na introdução na base curricular dos temas transversos da ideologia de gênero, do ambientalismo, do globalismo, do abortismo, do relativismo moral, do novo paganismo contra as religiões tradicionais, do imanentismo, da anti-arte, da transgressão da norma gramatical, do ativismo judicial, desarmamentismo, liberação das drogas etc. Em suma, pura militância cultural gramsciana!

Persisto na tese de que o esquerdismo é a última expressão da resiliência barroquista desde que Cervantes prenunciou Gramsci, quando denunciou a intoxicação de Don Quixote pelos romances de cavalaria – da mesma forma como fazem hoje nas escolas públicas os militantes esquerdistas, antifas travestidos de professores, com os temas transversos e tóxicos acima descritos.

Rock ’n’ roll

Um amigo me envia vídeos nostálgicos dos primórdios do rock’n’roll dos anos 50, antes da escalada das revoluções de costumes a partir dos anos 60, entre os quais o famoso “Rock around the world” com Elvis Presley, numa sugestiva coreografia de um bando de jovens revoltados numa prisão.

Lembro a ele que já nos anos 70/80, reagíamos contra os “anos rebeldes” com a onda de canções líricas de B. J. Thomas e até mesmo os maiores sucessos dos Beatles, como “Yesterday”, “Hey Jude”, “Imagine” e outros.

Participávamos da desconstrução dos valores da tradição ocidental judaico-cristã, sem nos darmos conta do tamanho do estrago da “contracultura”. Em “Rock’n’roll lullaby”, B.J. Thomas nos dá um comovente exemplo de como ainda “somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, no incondicionado amor de uma mãe pelo seu filho. Reveja o clipe na internet e me contem depois.

Culture de merde

A que nível chegou a torção barroquista de nossa baixa cultura com a decisão esdrúxula do militante Faquinha, acompanhada depois pelo pleno de equívocos… Que decepção esta Carmem Lúcifer, lamentam os incontáveis memes! Viva o resiliente barroquismo da cultura brasileira!

Trocar o mérito de uma sentença pelo detalhe do processo, e conspurcá-lo com falsas provas. Trocar a pintura pela moldura. Trocar a essência pelo efeito. A substância pelo adereço. O mote pela glosa. O efêmero pelo duradouro. O fato pela versão. Torção, retorção, contorção, distorção. Trocar a realidade pela ficção! Culture de merde, comme on diraient les français, resistente a qualquer tentativa de Iluminismo, e já se vão mais de dois séculos atrasados no Brasil!

A ironia

A ironia é um dos mais frequentes recursos para miríades de memes satíricas que viralizam nas redes sociais. No entanto, seus autores talvez desconheçam de que se trata de uma das mais antigas e perversas figuras retóricas barroquistas, pois tomam o que é pelo que não é, e vice-versa, abandonando a alma humana à sua total perdição!

Se nas fábulas e contos de fadas infantis, como bem observou o grande crítico inglês Chesterton, ensejam a educação moral dos jovens, no aprendizado do discernimento e do juízo, nas relações jurídico-políticas da sociedade, são a expressão da própria desordem moral.

Enquanto não entendermos isto, sobretudo os formadores de opinião como os produtores de conteúdo das redes sociais, estaremos retardando nossa entrada na cultura iluminista do bom senso e da plena razoabilidade. 

Basílica de Santa Maria della Salute

Nestes tempos de pandemônio, estamos todos saudosos de nossas viagens de férias. Angustiados mesmo se e quando poderemos retomá-las, sobretudo para os países do primeiro mundo e de alta cultura. E eis que alguém me envia fotos de suas férias passadas em Veneza.

Por trás da pose sorridente de turista feliz, está a Basilica de Santa Maria della Salute, que tem as maiores volutas barrocas entre todas as igrejas e catedrais da Renascença. Estas volutas, e não o alegado chiaroscuro, é que demonstram a maior característica do Barroco e marco da “grande confusão”, como diria Eric Voegelin, que se seguiu à modernidade.

Comecei a estudar este símbolo maior da retórica barroca e seu transbordamento por todas as áreas da expressão cultural ocidental no meu livro “Destorcer o Brasil”. Mas será que a face-amiga quer mesmo saber o que foi fazer em Veneza, para além de passear nas gôndolas?

Creia, amiga, que nunca achei nenhuma reflexão consistente, mesmo entre os conservadores da mais alta estirpe sobre a influência da cultura barroca no pensamento progressista. Por isso, escrevi este livro e estudo o fenômeno da resiliência barroquista em nosso imaginário ocidental. O que cheguei a pensar que se tratasse de fenômeno exclusivo da cultura latina, mas hoje vejo que penetrou também na modelar cultura da anglosfera.

CNM e o tratamento preventivo da covid

Diante da sensatez das declarações positivas do presidente do Conselho Federal de Medicina, temos de dar nomes aos bois e não generalizar a responsabilidade para toda a sociedade. Trata-se de típica artimanha retórica barroquista, herdada pelos esquerdopatas fratricidas da extrema imprensa que perderam gordas verbas de publicidade estatal, acadêmicos ociosos parasitas de universidades públicas, magistrados ativistas judiciais, alta burocracia da privilegiatura nacional, partidecos esquerdistas sem eleitores.

Buscam culpados no governo para se isentarem de qualquer responsabilidade cívica, culpam os outros antes de que possam vir a ser culpados. O fenômeno é antigo, vem da inquisição. Diante da inescapável condenação à fogueira, generalize a culpa, dilua a responsabilidade de suas escolhas para a comunidade, renegue valores da tradição, promova a farsa, finja arrependimento, mude de confissão. Resiliente barroquismo que nos retarda há dois séculos aceder ao Iluminismo!

Nelson Freitas

Respondendo ao vídeo viralizado nas redes do ator Nelson Freitas: – Nosso problema não é o povo nem as riquezas naturais que são abundantes! Mas, exatamente por este transbordamento natural, o desleixo para com os valores da tradição ocidental que nos legou uma orfandade cívica de verdadeiras elites.

Pois não existem elites desprovidas de alta cultura, sem ideal de nação, sequer de pátria; apenas saqueadoras de riquezas desde sempre. Incapazes de enxergar a luz do Iluminismo no fim do obscuro e retorcido túnel do barroquismo, onde empacamos desde o golpe da República.

Faz parte substancial e frequente da retórica barroquista a ironia que, se nas letras é notável, no debate público é imoral! O esquerdismo não tem apreço pelos valores morais da tradição, sobretudo pela vida. Basta ver o genocídio comunista russo, chinês e cubano.

E ainda têm a desfaçatez de chamar de genocida o atual presidente, numa descabida figura de hipérbole que só evidencia a falta de razoabilidade e honestidade argumentativa. Aliás, a hipérbole é outra arma retórica da farsa barroquista que, se nas letras é inigualável, transbordada para o debate público é simplesmente desprezível e estéril.

– O problema, Janaína, da Lava-jato sem a Lava-toga!

Todavia podemos acreditar que evoluímos muito desde 2013 para cá, com as grandes manifestações e a exposição da Lava-Jato. O que antes acontecia sem transparência, hoje é notório. O ponto de inflexão foi a ameaça que não se concretizou da Lava-Toga, onde reinou e reina a corrupção mais perversa.

Mas estamos caminhando. Precisamos de mais uma década da direita iluminista nos governos, e na chegada de uma maioria conservadora e liberal nos legislativos para tirar de nosso caminho a grande pedra que entrava o país, e para vislumbrarmos a luz da sensatez no final deste longo e tortuoso túnel barroquista de nossa história, Pois, como não avançamos na Lava-toga, eis que a Lava-toga avançou sobre a Lava-jato.

O comentarista Rodrigo Constantino reclama de falta de coragem moral, e pergunta até quando deixaremos o Supremo rasgar a Constituição.

Simples. Sabemos muito bem que, até quando não ocuparmos o Senado para exigir a tramitação dos pedidos de impeachment da quadrilha suprema, ao mesmo tempo em que devemos ocupar o Supremo para exigir a pauta de julgamento da quadrilha do senado. Com ou sem apoio das FFAA. Apenas com coragem moral, virtude iluminista.

Enquanto isto não ocorre, nosso SSTF, que não pode se meter em demanda política de hipótese alguma, sob pena de abuso de poder e desvio de função, infelicita toda uma nação. Quando deveria rejeitar tão simplesmente qualquer demanda de procedência e inspiração política para a real independência dos poderes e felicidade geral da nação.

Chega de barroquismos! Janaína Paschoal, que vive denunciando manobras processualísticas dos supremos desmandos, precisa ler minha tese e entender que o buraco é mais embaixo, a questão é cultural, da artimanha barroquista de trocar a pintura pela moldura, o mote pela glosa, a essência pelo acessório, o juízo, enfim, pelo processo.

E volta a circular o vídeo do general Mourão avisando que o exército não vai bater continência ao Lularápio. Foi dada a senha? Enquanto isso, nossos sinistros “executam” o plano de combate à covid. E o Brasil regride mais uma vez ao barroquismo anterior ao século 17, quando o estado tutelava a liberdade religiosa. Porque, de nada adianta as esquerdas serem minoritárias nos executivos e legislativos nacionais se, tendo aparelhado os judiciários, sobretudo as cortes superiores, acabam por impor sua vontade por sucessivos e indevidos recursos aos tribunais superiores. E este tem sido o nó que temos de desatar urgentemente, senão nada vai andar.

o nó do borogodó.

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Artigo do DCSP – “O Brasil que nos querem fazer acreditar”, por Jorge Maranhão https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-do-dcsp-o-brasil-que-nos-querem-fazer-acreditar-por-jorge-maranhao/ https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-do-dcsp-o-brasil-que-nos-querem-fazer-acreditar-por-jorge-maranhao/#respond Wed, 03 Feb 2021 20:49:24 +0000 https://www.avozdocidadao.com.br/?p=39915 O Brasil se encontra há mais de um século numa encruzilhada cultural entre avançar para o iluminismo ou permanecer no barroquismo. Para ser preciso, com o golpe da República, passamos a achar que golpes valiam a pena, e nos persuadimos por décadas seguidas em seus correlatos jeitinhos, manobras, pastiches, puxadinhos e acochambramentos que caracterizam a retórica barroquista.

Entre seguir no caminho do discernimento, último fim do iluminismo que marcou a Monarquia Constitucional brasileira, e permanecer no registro cultural dominante da farsa e do fingimento, último fim do barroquismo, escolhemos chafurdar nesse lodo!

Infeliz escolha entre as excludentes opções da razão e do bom senso iluministas, contra a paixão e insensatez barroquistas!

Passamos a confundir arte com ciência, ideologia com filosofia. Conservadorismo com reacionarismo. Progressismo com voluntarismo. Temperança com soberba!

Três décadas depois do golpe da República, sob a vil desculpa do nacionalismo, da busca pela identidade nacional, começamos a inventar e cultuar várias jabuticabas no âmbito da vida política, judicial e moral do país, como federalismo centrífugo, moeda sem lastro, milagres econômicos, democracia racial, cunhadismo e bacharelismo burocráticos, sincretismo religioso, teologia da libertação e antropofagia cultural, entre outros fenômenos.

Assim como nossas narrativas históricas e literárias começaram a se povoar de místicos religiosos, coronéis de engenhos, barões de café, heróis da jagunçagem, juízes de fora e de paz, altos burocratas servidores de si mesmos, engenheiros de obras feitas, médicos de mezinhas, curandeiros de espíritos, santos de pau-oco, moças meio-virgens, santos milagreiros, pescadores de almas, mulas sem cabeça, bois de piranha, vacas de brejo, e tantas e mais tantas fantasias e lusco-fuscos semânticos. Mas nada como a mítica figura do Curupira de pés invertidos, nossa legenda maior, a nos desviar nos caminhos da razão e do bom senso.

E nos lançamos, enfim, na Semana de Arte Moderna em 1922, que no ano que vem completa mais outro século de confusão entre arte e ciência, paixão e sensatez, conchavo e política. Pois as artes podem tudo, sobretudo transbordar de sua competência imaginária para a distorção da realidade. De torções, retorções, contorções e distorções da realidade.

Sobretudo o modernismo que, no Brasil, nunca foi tão barroquista exatamente por querer escamotear o seu solene desprezo pela nossa origem barroca, sua arrogante ignorância esquerdista porque progressista e de raiz romântica. Pois, se o modernismo europeu é o último grito de estertor romântico, o modernismo brasileiro é o chafurdar na pocilga retórica barroquista pesando a mão nas hipérboles, nas metáforas, nas ironias e, sobretudo, nos paradoxos, nossa mania visceral e nacional de ver o mundo.

Salvo algumas exceções de sempre que me veem de memória, e que vieram mais para sublimar nosso barroquismo do que propriamente para superá-lo, como os grandes Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Mario de Andrade, Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Mario Ferreira dos Santos, Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Portinari, Burle Marx, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Glauber Rocha, e tantos outros, que nos fizeram acreditar na transcendência de nossa miserável condição barroquista, e resgataram a alta cultura promovida durante o Império.

Mais trinta anos depois do surto modernista, vivemos uma verdadeira renascença cultural com os movimentos da Bossanova, Cinema Novo, arquitetura e literatura Modernas, quando Brasília esqueceu-se de sua missão política e virou uma Versailles distante do povo, museu a céu aberto.

Mas, desde a década de sessenta, perdemos outra vez o rumo do iluminismo brasileiro. Por viés esquerdista, a doença senil do barroquismo retornou, e achamos que, depois da transição do regime militar para a democracia, viveríamos um outro apogeu cultural.

Ledo engano barroquista, mais uma senda equivocada indicada por Curupira para a perda da razão iluminista. Meio a trinta anos de governos socialdemocratas e socialistas, eis que chegamos a uma vexaminosa estagnação cultural – para não falar mesmo em baixa cultura marginal de massa e de barbárie, especialidade da demagogia esquerdista.

A alta cultura que nos inseria na cadeia da tradição clássica do Ocidente se reduziu a arte de rua, pichação, funk music, batidão e demais acrobacias.

Porque digo isto? Por que falta a mínima união, o mínimo consenso entre brilhantes conservadores e egocêntricos liberais, sobre a melhor estratégia de argumentação para enfrentar o dragão de mil faces do esquerdismo mundial, e os estragos que deixou no Brasil carente de resistência cultural em suas elites. Malgrado as evidências históricas do fracasso socialista, na distribuição de pobreza e na crueldade ímpar na condução dos governos de inúmeras nações, estamos sempre confundindo, pelas manhas e diatribes de Curupira, a democracia com demagogia, a vilania com cidadania, a justiça plena com a justiça social, a vida com condições de vida, a liberdade como libertinagem.

Porque atacar a esquerda com argumentos racionais singulares não adianta! É mero barroquismo. Somente no atacado, no seu fundamento ético, como provou o fracasso recente da retórica trumpista. Somente em suas raízes culturais barroquistas podemos quebrar a hipocrisia e denunciar que o rei está nu! Retórica feita de farsa, paradoxo, hipérbole e transbordamento das artes para o campo da política, da justiça e da moral! Não adianta argumentar com a razão e o bom senso, pois o esquerdismo irá sempre invocar a beleza das artes!

Paulo Guedes, por exemplo, embora a razão maior entre os ministros, não soube ganhar o dispositivo militar que, por sua vez, anda sempre às turras com a ala ideológica do primeiro governo eleito por uma aliança entre conservadores e liberais. Só formando uma nova mentalidade na oficialidade podemos equilibrar as forças de doutrinação esquerdista largamente disseminadas na academia, na justiça, na imprensa, na política e nas artes e espetáculos! O professor Olavo tem razão. Mas não adianta xingar. Temos de incluir a academia militar na argumentação conservadora-liberal! Levar a sério o programa de educação cívico-militar.

Os ativistas pró-vida, anti-desarmamentistas, pró-família, da ortodoxia católica de um Bernardo Kunster, Pe. Paulo Ricardo e Bene Barbosa, os comentaristas do bom senso, ímpares destruidores de mitos, como Percival Puggina, Leandro Ruschel, Rodrigo Constantino, Caio Coppola, Ana Paula Henkel, os juristas contra a corrupção e o ativismo judicial esquerdista como Modesto Carvalhosa, Evandro Pontes, Felipe Gimenez, Ives Gandra Martins, Janaína Pascoal, Ludmila Grillo, etc.

Sobretudo os jornalistas demolidores de farsas dos poucos veículos imparciais e canais noticiosos mais influentes, como Alexandre Garcia, Augusto Nunes e Guilherme Fiúza, Claudio Lessa, Luis Ernesto Lacombe, José Luiz Datena, JR Guzzo, José Nêumane Pinto, Diego Casagrande, Diogo Mainardi, Felipe Moura Brasil, Silvio Grimaldo, Alan dos Santos, Leda Nagle, Karina Michelin, Fabiana Barbosa, Paula Marisa etc.

Os humoristas Danilo Gentili, os Hipócritas, Porta dos Fundos, Te Atualizei, Embrulha para Levar. Os canais conservadores de educação e cultura como Brasil Paralelo, Instituto Mises, Instituto Borborema, Instituto Burke, Rodrigo Gurgel, Senso Incomum, Mauro Ventura, e das editoras Vide, É Realizações, LVM, Resistência Cultural, Ecclesia e outras.

Todos unidos ainda serão poucos diante das mentalidades tomadas pela retórica esquerdista! Que joga em peso pelo #foraBolsonaro, mesmo quando quer aparentar bom senso, isenção e imparcialidade.

Veja a CNN que se diz “campeã de imparcialidade”! Evidente que não é uma #Globolixo que resolveu jogar no lixo décadas de jornalismo dito imparcial na sua campanha suicida pelo impeachment do presidente, o qual não perde uma chance em desmascará-la!

Basta ligar em qualquer telejornal, em qualquer hora do dia, e logo-logo constataremos sua rendição à retórica esquerdista. Noutro dia, e a título de mero exemplo, presenciei a âncora da CNN, Monaliza Perrone, disparar que o ministro Lewandovsky acabara de determinar que o ministro Pazuello seria “totalmente” investigado pela Polícia Federal, e ele seria “mais um dos generais investigados” no governo Bolsonaro. Fica no ar a dúvida se alguém pode ser parcialmente investigado, se na verdade é ou não é simplesmente investigado – o que deixa em aberto a parcialidade de crença da própria jornalista.

Fora o uso indiscriminado do advérbio de lugar “ali” a cada frase enunciada, como se pudesse ser “aqui” ou em qualquer outro lugar o relato, não importa do que está sendo relatado.

Aliás, esta mania de “ali” virou uma febre viral no jornalismo tupiniquim. Um verdadeiro cacoete narrativo. Repare você mesmo que, qualquer repórter ou mesmo cidadão das redes sociais, na função de narrar um acontecimento, relatar um evento qualquer, acaba lançando mão desta irritante bengala do “ali” no meio da fala. O que demonstra, como manda o bom modelo barroquista, a repetição ad nauseam e a sobrevalorização de advérbios e adjetivos sobre quaisquer substantivos, e até mesmo sobre as ações verbais.

Poderia dar mais outros infindáveis exemplos, mas nossos agentes de reprodução da cultura, repórteres da suposta realidade em cruzada mitológica contra os dragões das fake news, não demonstram sequer apreço pelo idioma, sequer dedicação à verdade dos fatos, ao menos pela reputação dos veículos de mídia através dos quais desfiam suas retrógadas retóricas.

Como disse, a Globolixo não tem mais jeito por que se trata de uma ação deliberada de campanha difamatória para além da parcialidade jornalística. Mas a CNN, soi disant “líder em imparcialidade”, precisava ter mais juízo e recorrer a alguém de fora para exercer a função de contrarregra e dar retorno aos seus jornalistas de seus atos falhos narrativos. Fica a sugestão.


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Artigo – “Operações proteiformes”, por Carlos U Pozzobon https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-operacoes-proteiformes-por-carlos-u-pozzobon/ https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-operacoes-proteiformes-por-carlos-u-pozzobon/#respond Sun, 22 Sep 2019 14:11:06 +0000 https://www.avozdocidadao.com.br/?p=39525

Conta a mitologia que Perseu foi aprisionado por Menelau por ser o deus grego que podia informar o caminho a seguir no mar depois de Menelau se perder em meio ao nevoeiro e atracar seu navio na ilha de Pharos. Perseu era um deus das profundezas, encarregado de cuidar dos cardumes e tinha a capacidade de guiar os marinheiros e se disfarçar em outros animais. No mundo clássico era representado nas esculturas conduzindo uma carroça puxada por um hipocampo em pleno mar.

Sabendo que Perseu saía do mar para dormitar ao meio dia entre as rochas de uma praia frequentada por focas na Ilha de Pharos, Menelau se disfarçou com peles de focas juntamente com mais três marinheiros escolhidos a dedo com o objetivo de amarrar as mãos de Perseu e forçá-lo a indicar o caminho de volta para a Grécia. Quando Perseu deitou-se e começou a sesta, os amigos se moveram lentamente em sua direção como se fossem focas e conseguiram dominá-lo.

Conta a lenda que não foi fácil: Perseu se transmutou em leão, cobra, pantera e em um monstruoso javali. Mesmo assim, não conseguiu livrar-se das amarras de Menelau, e terminou indicando as tarefas que Menelau deveria seguir para achar o rumo de casa.

Na literatura, o termo ganhou a expressão proteiforme como qualidade daquilo que muda repentinamente, por astúcia ou ilusão.

Pois bem, os brasileiros deveriam usar a expressão a cada vez que uma operação de envergadura mutante dissimulada fosse posta em ação. Porque não há nada mais banal em nossos costumes do que mudar as coisas para fazer com que permaneçam como estão. Assim que a Lava Jato começou a ceifar figuras importantes da política nacional, e enxovalhar a reputação geral dos partidos, estes iniciaram imediatamente a mudança de nome. Os exemplos se multiplicam indefinidamente: a legislação eleitoral muda a cada dois anos. O STF vai e volta em decisões de acordo com o quadro político. Quando a burocracia apresenta uma falha estrutural, a solução vem na manga da camisa: fazer um recadastramento quando o público estiver envolvido, mas se os envolvidos forem os burocratas, a solução é uma reforma administrativa que consiste em mudar de nomes, preservar os cargos existentes, criar novos cargos, aglutinar pessoas – de preferência com novas funções e privilégios – e, depois, permanecer como sempre foi.

A Reforma da Previdência nem sequer chegou a final da tramitação e já temos anunciado que não será definitiva. O novo governo em 2022 deverá refazê-la.

Em períodos de crise, as operações proteiformes chegam ao cume de uma agitação espiritual frenética. Propõe-se mudar tudo, e um novo governo, seja municipal, estadual ou federal, coloca em movimento as mudanças funcionais que vão dar um toque de eficiência ao novo mandato. Mas tudo, naturalmente, continua como dantes: a cultura da mudança que não muda nada inspirou o título A Insondável Matéria do Esquecimento do meu último livro. Porque as mudanças são feitas para encobrir ultrajes, apagar vestígios, eliminar suspeitas, limpar reputações e produzir o esquecimento. E só. Em pouco tempo os nomes serão outros e ninguém mais se lembrará do passado que desaparece com novas siglas. Desde o descobrimento, o Brasil já está na quarta capital federal e, se bobear… cala-te boca.

Por natureza, o brasileiro tem a solução para “distorcer a sombra da vara torta”. Só não sabe corrigir a causa primordial, o húmus de onde provêm as estratégias para que se esqueça do fracasso: a corrupção, que é a matéria viva e pulsante de nossa organização estatal. Esta não morre. Para manter a causa de todos os males é preciso estar mudando tudo, permitindo que os espertalhões sejam capazes de encontrar uma brecha no novo terreno por onde vão se esmerar em novas pilhagens.

Em meu artigo sobre o Sagrado e Profano no século XVII, falando do México, citei Octavio Paz: “Para Paz, a história é uma obsessão entre a grandeza e o esquecimento. Os povos têm uma relação com a história como a mente humana com a censura psíquica: ambos usam o esquecimento para evitar os fatos desagradáveis de seu passado.”

Não temos muita coisa para falar da grandeza do país porque nossos momentos estão tomados pela baixeza. Todo dia tem lama nova para se chafurdar. E o esquecimento tem outros paradoxos: quando alguém revira o passado e aponta as verdades, fruto do trabalho de uns poucos pesquisadores privilegiadíssimos pelo método e perspicácia de perceber do que se compõe “a insondável matéria do esquecimento”; os “esquecidos” não querem saber da verdade. Preferem as novas interpretações, novas narrativas dignificantes e, com ela, o perdão aos cafajestes, que funciona como a censura psíquica capaz de evitar que o passado tenha sido exatamente como o presente, porque ele sempre é louvado ou maldito conforme o interesse do “memorialista” pois, afinal, nada pode ser tão horrível quanto o que hoje está sendo presenciado como a mudança do nome da operação Lava Jato pelo procurador que ainda não tomou posse, mas já tem em mente a solução para a corrupção no país. Agora, a popularíssima conquista social de dezenas de mobilizações, com milhares de pessoas nas ruas, portanto o símbolo nacional de uma época, a chamada Operação Lava Jato, vai mudar de nome. É preciso apagar da mente do povo aquilo que ele passou a usar como identidade coletiva de um momento do país.

A corrupção tem princípios, tem aprendizado, tem sutilezas e muita soberba, e para um país atrapalhado entre a moralidade do altruísmo e a benevolência intrínseca das práticas de aliciamento de cumplicidades, todos os discursos políticos, os editoriais e os opinantes do mundo oficial conduzem os “esquecidos” para o evangelho das virtudes de que basta os homens serem bons para tudo mudar. Angelicalmente.

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Alta cultura – Palestra em memória dos 170 anos de Rui Barbosa por Celso Lafer https://www.avozdocidadao.com.br/alta-cultura-palestra-em-memoria-dos-170-anos-de-rui-barbosa-por-celso-lafer/ https://www.avozdocidadao.com.br/alta-cultura-palestra-em-memoria-dos-170-anos-de-rui-barbosa-por-celso-lafer/#respond Thu, 18 Apr 2019 17:46:31 +0000 http://www.avozdocidadao.com.br/?p=30488 Ciclo de Conferências “Presenças fundamentais”

Conferência: “Rui Barbosa, 170 anos.

“Dimensão da atualidade do seu percurso”

Coordenação: Acadêmico Merval Pereira

Palestrante: Acadêmico Celso Lafer

Data: 04/04/2019

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Cultura brasileira – Do Diário de Petrópolis: “São Sebastião e a cachaça”, por Reinaldo Paes Barreto https://www.avozdocidadao.com.br/cultura-brasileira-do-diario-de-petropolis-sao-sebastiao-e-a-cachaca-por-reinaldo-paes-barreto/ https://www.avozdocidadao.com.br/cultura-brasileira-do-diario-de-petropolis-sao-sebastiao-e-a-cachaca-por-reinaldo-paes-barreto/#respond Mon, 28 Jan 2019 14:54:11 +0000 http://www.avozdocidadao.com.br//?p=30082 São Sebastião e a Cachaça, por Reinaldo Paes Barreto

Do Diário de Petrópolis https://www.diariodepetropolis.com.br/integra/reinaldo-paes-barreto-sao-sebastiao-e-a-cachaca-161018?fbclid=IwAR3nG1Lc2vcix0qewBRlDqHUfYYDOhVSS-EluJYEj0NkC9slNhH3itYBHGQ

Rio, 20 de janeiro de 2019.

Não, não consta que São Sebastião bebesse cachaça. Já os portugueses… Bem, a estória é a seguinte: há 452 anos, em 20 de janeiro de 1567, os portugueses Mem de Sá, (nascido em Coimbra) e seu sobrinho, Estácio de Sá,  com seu exército, expulsam os franceses e seus aliados, índios e mamelucos, da Baía de Guanabara — com o apoio, segundo a lenda, da “presença”de São Sebastião, francês de nascimento. Finda a batalha, o santo mártir voltou pro céu!, mas os Sá e seus homens,  beberam cachaça para comemorar a vitória.

Ela, “a branquinha”(e mais mil sinônimos), iniciava, assim, a sua saga de companheira do braço que trabalha — contra o bolso explorador.

 

 

Ganhou fama, mas não prestígio.  Depois, durante todos os ciclo econômicos da Colônia e do Império (o do pau-brasil havia se exaurido):  o da cana, do ouro e do café, ela foi a bebida do escravo, do negro, do pobre, do pinguço. (Depois veio o ciclo da borracha, mas a cachaça andava longe).  Mas durante esses mais de trezentos anos, como bem observou Câmara Cascudo, “ela assegurou a sua sobrevivência ficando com o povo”. Tanto que era produzida em larga escala nos engenhos de Pernambuco, Bahia, nas Minas Gerais e no sul do Rio de Janeiro: Paraty chegou a engarrafar 800 mil litros por ano, no final do século XVII.

E assim foi até a abolição da escravatura, quando a produção entrou em franco declínio por óbvios motivos.

 

( Ilustração da assinatura pela Princesa Isabel, do site Historiazine)

De uns 90 e poucos anos para cá, contudo, a cachaça “sofreu”um up-grade. De cara, pelo seu simbolismo verde-amarelo de raiz, o que a fez ser a musa dos movimentos de transgressão ao establishment.  No ímpeto verde-e-amarelo da Revolução de Arte Moderna, por exemplo, em 1922 ela era a bebida dos “contraventores da arte” (Oswald de Andrade, Pagu, Tarsila do Amaral, Anita Malftti) que bebiam cachaça em taças de champagne (habituadas a Dom Pérignon) nos salões chiques da Av. Paulista.

Além disso e, na sequência, ela marchou com a Coluna Prestes (1924-26) 25 mil km, do Rio Grande do Sul à Bolívia!

 

 Foto da Wikipédia

Nesse embalo e, ainda em São Paulo, nos anos 30, porque deu filhote: era misturada com limão e mel (batida) para aquecer a garganta dos boêmios e seresteiros nas madrugada úmidas da garoa, fundando a dinastia da caipirinha — hoje uma marca do Brasil mais importante do que o futebol.

Aliás e por falar em São Paulo, graças a quatro presidentes da República (sendo que um, power, gringo, o presidente dos Estados Unidos) mas, sobretudo, a três brasileiros que fizeram suas carreiras naquele estado, ela começou  a ser bebida “com a faixa presidencial no peito.”

O primeiro, Jânio Quadros, que antes dos comícios entrava nas biroscas  pra tomar uma pinguinha no pingado (cachacinha em cima do café com leite) que aparece na foto trocando as pernas (Prêmio Esso).

 

  

O segundo, Fernando Henrique, deu um gole definitivo ao assinar o decreto Decreto n° 4.072/2002 que regulamentou a Lei n° 8.918/1994. No texto, se protege a propriedade da denominação da cachaça como aguardente de cana típica e exclusivamente produzida no Brasil.

Resultado: a cachaça passou a ser consumida e apreciada no exterior e pelos gringos que nos visitam. E além de ser servida “in natura”, ela transferiu o seu DNA para um dos drinques mais consumidos aqui e lá fora: a caipirinha, também declarada brasileiríssima por decreto.

 

  

E o terceiro, o Lula, (honra seja feita) sempre assumiu publicamente que operário alivia as mágoas com talagadas de branquinha.

 

                                       ..

Mas o agrément de embaixatriz foi-lhe passado, mesmo, em abril de 2012, quando a presidente Dilma foi à Washington para assinar um acordo com o governo dos EUA, pelo qual ambos os signatários reconheciam – de uma lado, que a nossa cachaça é um produto genuinamente brasileiro  — e, do outro, que o Tenessee Bourbon (uísque de milho) também é uma bebida  genuianamente (norte)americana.

Bingo!  E, para comemorar, ambos brindaram com cachaça: a glória!

 

 Dilma tilintando taça com Obama (foto O Globo). Pelo menos isso, presidenta! 

Mas além desses “picos de prestígio”, a cachaça vem ganhando novos espaços, Na área cultural e do turismo, principalmente no Estado do Rio, a ex-Primeira-Dama Maria Lúcia Horta Jardim, esteve pessoalmente empenhada na criação do Museu da Cachaça, no Rio (que está parado) mas, graças a ela e a outros “devotos”, inclusive o então secretário de Turismo-RJ, Nilo Sergio, foi criado o Polo da Cachaça do Vale do Café, que envolve 14 municípios da região e 15 alambiques. No âmbito do comportamento e consumo (da caipirinha já falamos) ela ganhou a preferência dos estrangeiros também: já troquei “no pau”com um francês uma garrafa de Armagnac por uma cachaça Matusalém, da Fazenda da Mata, da família de D. Risoleta Neves, mulher do Tancredo).

E por falar em estrangeiros, a minha colega na diretoria da Câmara Portuguesa do Rio, a infatigável Marly Galvão, empresária no setor importação/exportação de vinhos Chico Carreiro, sobretudo da marca Dona Berta, passará a exportar também as cachaças Bem-Me-Quer (mineiras) e a orgânica Cambéba, produzida em Goiás. A previsão é colocar as duas nas prateleiras “das casas do ramo”em Lisboa e, futuramente, em Madri.

 

 

Obs: em 2017, o IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) informou que a Cachaça é o segundo destilado mais consumido no país. E o terceiro no mundo. A capacidade produtiva instalada hoje, em fronteiras nacionais, é de 1,2 bilhão de litros por ano. São cerca de 4 mil marcas registradas e mais de 600 mil empregos gerados, direta e indiretamente. Passou de capote o Rum, a Tequila, as bagaceiras, grapas, eau-de-vies e congêneres.

Eu prefiro degustá-la geladíssima (não congela), como um “poire”, depois de um almoço ou jantar pantagruélicos.

Saravá, minha gente!

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Artigo – Do Congresso em Foco: “A falta que a cultura faz”, por Jorge Maranhão https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-do-congresso-em-foco-a-falta-que-a-cultura-faz-por-jorge-maranhao/ https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-do-congresso-em-foco-a-falta-que-a-cultura-faz-por-jorge-maranhao/#respond Thu, 17 Jan 2019 12:36:19 +0000 http://www.avozdocidadao.com.br//?p=30022

Talvez pelo vício de restringir a cultura às suas meras expressões artísticas, intelectuais, folclóricas ou de lazer. Ou às pautas dos suplementos de artes e espetáculos da grande mídia. Esquecendo-se de suas manifestações judiciais, morais, religiosas e ideológicas. E, no máximo, estabelecendo suas relações com a economia, irmã gêmea da política. Quando não insistem em diagnosticar e prever o desenrolar dos fatos políticos em comparação com fatos tidos como semelhantes e ocorridos em tempos passados.

Já os analistas e críticos culturais se obrigam à dura tarefa de estabelecer relações entre os mais variados campos da expressão cultural, incorporando para tal, os recursos conceituais da filosofia da arte e da cultura. Mas não têm a merecida visibilidade por parte da grande mídia dominada pelo imediatismo da cobertura política e econômica, quando não social e criminal.

Para além da proposta de uma nova visão de nossa identidade, trata-se de uma estratégia de argumentação sobre a fadiga da República como nossa maior farsa “progressista”, ao mesmo tempo da descoberta desconcertante de nosso atávico conservadorismo, amor mesmo pelas nossas tradições.

Sobretudo pelo nosso gosto pelas torções, contorções e distorções barroquistas, pura cultura brasileira desastrosamente transbordada para a política, a justiça, a moral e os costumes, sem reconhecimento crítico, mas apenas tomada como nosso “jeito” (ou jeitinho?) de ser.

Tenho trabalhado nos últimos anos – sobretudo a partir das megamanifestações de 2013 de uma emergente classe de cidadania política – com a hipótese de esgotamento de nosso legado cultural barroquista e com a promessa, enfim, de inauguração de uma era iluminista de nossa cultura.

Nesse sentido, tenho defendido a tese de que talvez estejamos vivendo o momento histórico de superar definitivamente a hegemonia barroquista em que estamos enredados há quatro séculos. Mas talvez não estejamos percebendo.

Todavia, todo cuidado é pouco, pois se o iluminismo europeu, impregnado de romantismo, denunciou o esquerdismo como a doença infantil do comunismo, o nosso legado barroco, manco de Renascença e Iluminismo, só agora, depois de um século de defasagem e desastroso transbordamento cultural, está a denunciar nosso esquerdismo como a doença senil do barroquismo.

Nenhum de nossos maiores ficcionistas, sábios ou profetas poderia imaginar essa verdadeira reviravolta dada por nossa cultura política nos últimos anos. Chamaria mesmo de radical torção, um verdadeiro cavalo de pau de nosso legado contorcionista.

Mesmo os grandes intérpretes do Brasil – dentre os mais de 50 que inventariei em meu novo livro – denunciaram causas e fenômenos singulares de nossas raízes históricas e culturais, como o patrimonialismo e o corporativismo, o familismo e o cunhadismo, o coronelismo e o patriarcalismo, o fisiologismo e o bacharelismo.

Mas nenhum culminou no fenômeno mais abrangente, e causa última a meu ver, de todo o complexo cultural brasileiro como o barroquismo, do qual esses outros lhe seriam meros caudatários ou mesmo de incidência setorial nos âmbitos da vida social, familiar, artística, econômica, política ou moral, com suas características mais gerais de gosto pela retórica da farsa, do paradoxal, da ironia, alegoria, paródia e hipérbole.

Para além da proposta de uma nova visão de nossa identidade, trata-se de uma estratégia de argumentação sobre a fadiga da República como nossa maior farsa progressista, ao mesmo tempo da descoberta desconcertante de nosso atávico conservadorismo, amor mesmo pelas nossas tradições, e sobretudo nosso gosto pelas torções, contorções e distorções barroquistas. Nosso libidinal gozo com o arrocho das volutas da cultura nas fartas espirais da natureza.

Aliás, neste meu novo livro, faço um vasto inventário de nossos costumes barroquistas, em todos os campos da expressão cultural nacional para além das artes e das letras barrocas, e que podem ser simbolizados pelas figuras centrais das volutas e espirais barrocas, sobretudo como figuras de representação retórica do paradoxo, da farsa, da ironia e da hipérbole.

Redobradas e desdobradas volutas como formas de se ir para a direita pelo sentido da esquerda e para a esquerda pelo sentido da direita. Torções, retorções, contorções e distorções em campos tão insuspeitos como os registros históricos, os feitos empresariais, os processos judiciais, políticos, culturais e sobretudo morais.

Somos assim mesmo, o estilo da arte barroca do século XVI, sem a mediação e temperança da boa forma e da justa medida da Renascença que lhe antecedeu, nem tampouco da prudência e do equilíbrio da cultura iluminista que lhe sucedeu, desde o século XVII e XVIII, transbordou para todo o complexo cultural brasileiro, nossa chamada mentalidade barroquista, nosso apego à uma visão de mundo moldada em torções, contorções e distorções da realidade.

Enfim, nosso espírito hiperbólico, irônico, alegórico, paradoxal, parabólico, farsesco e burlesco, com que vemos, nos inserimos e tratamos tudo em nossa volta. E reviravoltas.

Meio a nosso barroquismo moral pleno de relativismo, os recursismos de nosso Judiciário plenos de atenuantes e agravantes e a farsa, para não dizer a burla, de nossa política que quer a todos enganar por todo o tempo, eis que um capitão imbuído dos valores da ordem, da disciplina e hierarquia aprendidos no Exército, se empenha em levar ao cenário central de nosso barroquismo político, o Congresso Nacional, o bom senso e a clareza do senso comum, tal qual a fábula O rei está nu, de Hans Christian Andersen.

Só não ouviram os que não quiseram ouvir a voz do capitão que representava a indignação de milhões de cidadãos desde as megamanifestações de 2013 em repúdio aos desmantelos e esbulhos de nossa cínica classe política.

A partir daí, tem sido definitivo o exercício de outro valor muito caro aos militares, a humildade de reconhecer seus próprios limites e se cercar dos melhores de cada área em que terão de atuar.

Assim, o capitão está a convocar os melhores da alta cultura brasileira para pôr em prática políticas públicas plenas de razoabilidade e efetividade, o que pode resultar numa oportunidade histórica de passarmos para uma era iluminista de afirmação do bom senso e do senso de proporção, de desapego, enfim, pelo adjetivismo, ornamentalismo e as desmesuras da vã retórica barroquista.

Para além de um novo governo, o que vemos no Brasil é um grande embate entre duas grandes tradições culturais do Ocidente, o iluminismo e o barroquismo em que temos vivido imersos todos esses séculos, por não conseguirmos reunir verdadeiras elites para empreender, enfim, a mudança do paradigma cultural da vã retórica populista para a ordem da razão no trato da coisa pública.

Nesse sentido, é um equívoco extinguir o equipamento público de maior garantia de transformação cultural contra a hegemonia da revolução cultural na área da mídia privada que teve vigência nos últimos governos petistas.

Para além do desaparelhamento esquerdista nas áreas da educação, da Justiça e das artes, se faz urgente não apenas um Ministério da Cultura, mas sobretudo uma rede de televisão pública. Assim como uma campanha pelo senso comum do cidadão comum.

Aliás, uma única rede pública não pesa no orçamento se for gerida harmônica e independentemente pelos três poderes da República, extinguindo-se esta jabuticaba barroquista de três redes para cada um dos três poderes chamarem de sua, e apenas fazerem propaganda corporativa de seus feitos, uma prova de quão desarmônicos e dependentes são de suas desmesuras.

Sobretudo uma única rede pública, como a BBC, mantida pela assinatura de seus usuários voluntários, os cidadãos, e os compulsórios, com parte ínfima do orçamento publicitário astronômico que empresas e autarquias federais destinam às redes privadas de conteúdo duvidoso.

Manter uma única rede de televisão pública até mesmo como reguladora da pluralidade cultural, ideológica e doutrinária e na conservação de nossas tradições e costumes, que deveria haver na mídia privada, mas não há, é uma oportunidade única de garantir a restauração dos valores morais da tradição ocidental judaico-cristã anunciada pelos ministérios da Educação e Relações Exteriores, uma vez que é a cultura a determinante estratégica do próprio sucesso das políticas econômicas e sociais a serem implementadas.

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Alta cultura brasileira – Entrevista de Antônio Cândido, que faria 100 anos, dando uma aula sobre a cultura brasileira https://www.avozdocidadao.com.br/alta-cultura-brasileira-entrevista-de-antonio-candido-que-faria-100-anos-dando-uma-aula-sobre-a-cultura-brasileira/ https://www.avozdocidadao.com.br/alta-cultura-brasileira-entrevista-de-antonio-candido-que-faria-100-anos-dando-uma-aula-sobre-a-cultura-brasileira/#respond Sat, 15 Dec 2018 14:38:21 +0000 http://www.avozdocidadao.com.br//?p=29901 Atenção sobretudo à importância que ele dá ao modernismo como movimento de integração social brasileira, mas que foi, a nosso ver, para além de integração de classes sociais, a integração de movimentos como o romantismo e também o barroquismo. Por ocasião do Flipoços, podemos ressaltar a importância de nossos grandes barrocos modernistas como Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto e os poetas da poesia concreta. Confira e compartilhe.

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Artigo – Do Diário de Comércio de São Paulo: “O despertar do gigante”, por Jorge Maranhão https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-do-diario-de-comercio-de-sao-paulo-o-despertar-do-gigante-por-jorge-maranhao/ https://www.avozdocidadao.com.br/artigo-do-diario-de-comercio-de-sao-paulo-o-despertar-do-gigante-por-jorge-maranhao/#respond Sun, 25 Nov 2018 12:30:04 +0000 http://www.avozdocidadao.com.br//?p=29767 O que vemos no Brasil é um grande embate entre duas grandes tradições culturais do Ocidente, o iluminismo e o barroquismo, por não conseguirmos reunir verdadeiras elites para empreender, enfim, a mudança do paradigma cultural da vã retórica populista para a ordem da razão no trato da coisa pública.


Por Jorge Maranhão – 24 de Novembro de 2018 às 12:06 

Todo cuidado é pouco para superar de fato nosso impasse civilizatório e vislumbrar uma nova era de efervescência cultural iluminista, que nunca vivemos, pois nosso esquerdismo tem sido a doença senil do barroquismo, e resistido como imaginário social o mais longevo a nos dominar a mente.

Nenhum de nossos maiores ficcionistas, profetas, sábios ou prestidigitadores, poderia imaginar esta verdadeira reviravolta dada por nossa cultura política nos últimos anos. Chamaria mesmo de radical torção, um verdadeiro cavalo de pau de nosso legado contorcionista.

Mesmo os grandes intérpretes do Brasil –e aqui enumero todos que inventariei em meu novo livro – como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Capistrano de Abreu, Euclydes da Cunha, Paulo Prado, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Viana Moog, Caio Prado Junior, Guimarães Rosa, Meira Penna, Roberto Campos, Darcy Ribeiro, Raimundo Faoro, Roberto DaMatta, José Murilo de Carvalho, Affonso Romano de Sant’Anna e outros, denunciaram causas e fenômenos singulares de nossas raízes culturais, como o patrimonialismo e o corporativismo, o familismo e o cunhadismo, o coronelismo e o patriarcalismo, o fisiologismo e o bacharelismo

Mas nenhum culminou no fenômeno mais abrangente, e causa última a meu ver, de todo o complexo cultural brasileiro como o barroquismo, do qual estes outros lhe seriam meros caudatários ou mesmo de incidência setorial nos âmbitos da vida social, familiar, artística, econômica, política ou moral, com suas características mais gerais de gosto pela retórica da farsa, do paradoxal, da ironia, alegoria, paródia e hipérbole.

Aliás, neste meu novo livro, faço um vasto inventário de nossos costumes barroquistas, em todos os campos da expressão cultural nacional para além das artes e das letras barrocas, e que podem ser simbolizados pelas figuras centrais das volutas e espirais barrocas, sobretudo como figuras de representação retórica do paradoxo, da farsa, da ironia e da hipérbole.

A começar pelo “rolo”, de onde deriva “enrolar”, como dobrar algo em torno de sua própria matéria, demonstro que a farsa, como mentira, é um dos vocábulos de maior sinonímia da língua portuguesa falada no Brasil, chegando a quase uma centena de ocorrências.

Cito apenas as mais folclóricas para o leitor checar seu próprio conhecimento: burla, farsa, mentira, caô, rolo, enrolação, broma, trapaça, fraude, falcatrua, fajuto, golpe, mutreta, treta, engodo, embuste, patifaria, ardil, cilada, troça, tribofe, bilontra, brinca, manobra, tapeação, tramoia, lorota, enredo, ludibrio, embromação, trama, aldrabice, dolo, deboche, galhofa, bufonaria, balela, fábula, lenda, conto, peta, patranha, pulha, moca, lesa, peraltice, potoca, maranha, embrulho. Todavia, a mais significativa de todas é “logro” (do latim lucru) que sustenta a ambivalência moral de nosso próprio caráter entre lucrar e lograr, lucro e logro.

Por outro lado, quantas cornucópias, quantas espirais e volutas, habitam em nossas mentes depois de cinco séculos de barroquismo legado de nossas artes e letras para nosso imaginário social, nosso inconsciente coletivo e mesmo nossa identidade cultural?

Não foi à toa que, entre figuras como anomitas, chifre de cabra, shoffar, trompa, cabos de violinos, caracóis, caramujos, tranças indígenas, gavinhas florais, labirintos, torres de Babel, capitéis de colunas jônicas, baldaquino e escadarias do Vaticano, propostas como capa de meu novo livro, preferi esta figura insólita de uma caveira humana com o cérebro retorcido em forma de espiral. Redobradas e desdobradas formas de se ir para a direita pelo sentido da esquerda e para a esquerda pelo sentido da direita.

Somos assim mesmo, o estilo da arte barroca do século XVI, sem a mediação e temperança da boa forma e da justa medida da Renascença que lhe antecedeu, nem tampouco da prudência e do equilíbrio da cultura iluminista que lhe sucedeu, desde o século XVII e XVIII, transbordou para todo o complexo cultural brasileiro, nossa chamada mentalidade barroquista, nosso apego a uma visão de mundo moldada em torções, contorções e distorções da realidade. Enfim, nosso espírito hiperbólico, irônico, alegórico, paradoxal, parabólico, farsesco e burlesco, com que vemos, nos inserimos e tratamos tudo em nossa volta. E reviravolta.

Meio a nosso barroquismo moral pleno de relativismo, os recursismos de nosso judiciário plenos de atenuantes e agravantes e a burla e a farsa de nossa política que quer a todos enganar por todo o tempo, eis que um capitão imbuído dos valores da ordem, da disciplina e hierarquia aprendidos no Exército, se empenha em levar ao cenário central de nosso barroquismo político, o Congresso Nacional, o bom senso e a clareza do senso comum, tal qual a fábula “O rei está nu”, de Hans Christian Andersen.

Só não ouviram os que não quiseram ouvir a voz do capitão que representava a indignação de milhões de cidadãos desde as megamanifestações de 2013 em repúdio aos desmantelos e esbulhos de nossa classe política.

A partir daí, tem sido definitivo o exercício de outro valor muito caro aos militares, a humildade de reconhecer seus próprios limites e se cercar dos melhores de cada área em que terá de atuar.

Assim, o capitão está a convocar os melhores generais para a defesa, a infraestrutura e a segurança institucional, um dos melhores pesquisadores para a ciência e tecnologia, um dos melhores economistas para a economia, um dos melhores diplomatas para a chancelaria e um dos melhores magistrados para a justiça.

E o que pode significar isso se não o esforço definitivo de passamento de nosso barroquista imaginário de salvadores da pátria, reencarnações sebastianistas de falsos profetas, líderes carismáticos de baba de quiabo de que sempre fomos vítimas? Senão a oportunidade histórica de passarmos para uma era iluminista de afirmação do bom senso e da justa medida, de desapego, enfim, pelo adjetivismo, ornamentalismo e as desmesuras da vã retórica?

Para além de um novo governo, o que vemos no Brasil é um grande embate entre duas grandes tradições culturais do Ocidente, o iluminismo e o barroquismo em que temos vivido imersos todos esses séculos, por não conseguirmos reunir verdadeiras elites para empreender, enfim, a mudança do paradigma cultural da vã retórica populista para a ordem da razão no trato da coisa pública.

Em que pese o sono esplêndido, não podemos deixar escapar tamanha oportunidade de despertar o gigante.

Jorge Maranhão, mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão e autor de “Destorcer o Brasil. De sua cultura de torções, contorções e distorções barroquistas”

 

 


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Cultura brasileira – A verdade nua e crua sobre o flagelo que nos infelicita comentado por Bernardo Küster https://www.avozdocidadao.com.br/cultura-brasileira-a-verdade-nua-e-crua-sobre-o-flagelo-que-nos-infelicita-comentado-por-bernardo-kuster/ https://www.avozdocidadao.com.br/cultura-brasileira-a-verdade-nua-e-crua-sobre-o-flagelo-que-nos-infelicita-comentado-por-bernardo-kuster/#respond Tue, 04 Sep 2018 20:12:10 +0000 http://www.avozdocidadao.com.br//?p=29393 Se a baixa cultura esquerdista continuar no poder seremos condenados a uma inevitável regressão civilizatória. Pois cultivar os registros e a memória do passado significa tão simplesmente evoluir enquanto civilização. Como desde os homens das cavernas se entende agora as motivações das inscrições rupestres: documentar a vida para prosseguir a partir das experiências vividas. Por que a revolucionários totalitários não interessa o contraditório, mas apenas o silêncio das cinzas.

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Teatro – Isaurinha Garcia, o musical. Imperdível resgate de nossa cultura recente https://www.avozdocidadao.com.br/teatro-isaurinha-garcia-o-musical-imperdivel-resgate-de-nossa-cultura-recente/ https://www.avozdocidadao.com.br/teatro-isaurinha-garcia-o-musical-imperdivel-resgate-de-nossa-cultura-recente/#respond Tue, 07 Aug 2018 18:55:02 +0000 http://www.avozdocidadao.com.br//?p=29011 Como sempre temos dito aqui, não é por manifestações de arte de nossa alta cultura que o Brasil está submergido nesta enorme crise de valores. Vejam este musical que só aparentemente parece despretensioso, pois resgata na verdade um dos momentos áureos de nossa “Era do rádio”, expressão artística e de mídia logo anterior aos chamados “Anos Dourados” da Bossanova, de João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius. Mas também da literatura de Drummond, Guimarães Rosa e Manuel Bandeira. Da arquitetura de Niemayer e Lucio Costa, do paisagismo de Burle Marx e da pintura de Tarsila, Pancetti, Cícero Dias, Di Cavalcanti e Portinari. Pois uma nova era se aproxima depois desses mais de 30 anos de decadência cultural socialista e socialdemocrata.

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