Os caminhos e descaminhos infernais entre a política e a arte

Simonal, ninguém sabe o duro que dei
De Cláudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer

Mais do que um documentário, trata-se de um documento histórico sobre os caminhos e descaminhos infernais entre a política e a arte, uma revisão histórica do sectarismo e arrogância da esquerda brasileira contra a violência e obscurantismo da direita. Tempos de radicalização e revanches ideológicas, doutrinação, radicalismos, irresponsabilidades políticas e arroubos românticos. Mas o documentário quer fazer justiça à memória de um grande músico que foi totalmente banido de nossa história musical. Tenta fazer justiça com o resgate dos fatos e apresenta as duas versões dos que defendem a inocência alienada do primeiro grande cantor pop brasileiro, negro e suingado e a combativa ala da esquerda nacionalista da juventude rebelde e intolerante.

Impressiona os registros de que a cada final de sessão a platéia se levanta e bate palmas ao documentário, como se numa catarse e reconhecimento tardio por uma omissão de maioria silenciosa que jamais deveria ter acontecido. Mas quem ousava, na época da ditadura, desafiar as idéias da oposição ao regime? O roteiro e a montagem expõem com clareza toda a sorte de preconceitos da cultura brasileira por trás das nobres bandeiras políticas e pergunta: poderia fazer sucesso um músico alienado politicamente e que insistia em não tomar posição na luta contra a ditadura? Poderia continuar no auge da fama um artista negro que parodiava o Black Pride norte-americano e ainda por cima se vangloriava de ser mascarado e cantar em inglês desprezando as raízes mais puras do nacionalismo tupiniquim? Poderia um negro arrogante desconfiar

das contas de seu contador branco e ainda por cima chamar seus meganhas (policiais que serviam à ditadura) para intimidá-lo com uma surra? Poderia ousar um movimento de exaltação aos apelos da natureza exuberante do Patropi e da pilantragem reinante em plena ditadura militar? No calor dos extremismos as histórias e suas versões ficaram mal contadas ou por contar. Mas o julgamento apressado foi feito e o documentário registra o banimento a que Wilson Simonal foi condenado. Quem expressa com rara felicidade o acerto do argumento é o humorista Chico Anísio que inocenta definitivamente o artista: – Simonal não se prestaria ao papel de alcagüete do Dops; era mascarado demais para isto; ligaria para o general de plantão na presidência e, se fosse para prestar algum tipo de serviço ao Dops, exigiria no mínimo a direção-geral do órgão!

Vale a pena fazer a catarse:


http://www.simonal.com/

http://www.youtube.com/watch?v=rxnNvWLE9pI

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