“O petróleo vem apenas para somar”
O Brasil na elite do petróleo. E daí?
 
Por Bernardo Santoro
 
Interessante artigo da Revista Exame mostra que o Brasil, poderá, até 2035, ser um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo, se tornando, como diz a reportagem, um novo Irã. A reportagem fala isso com um viés positivo, como se fosse bom ser o Irã. Pois eu tenho uma péssima notícia para todos: nós já somos o Irã, pelo menos do ponto de vista sócio-econômico. E do ponto de vista de produção de petróleo, ser igual ao Irã não significa absolutamente nada para a melhoria dos índices de qualidade de vida.
 
Comparando o Irã com o Brasil, descobri que o PIB per capita dos dois é de cerca de doze mil dólares anuais, estando o Irã na 75ª posição e o Brasil na 79ª, bem juntinho. Saindo da economia e entrando no social, o IDH do Irã é de 0.742 (76ª) e o do Brasil de 0.730 (85ª), também bem colado. Do ponto de vista sócio-econômico, Gilberto Gil estava errado, o Haiti não é aqui, o que é aqui é o Irã.
 
E isso nos traz um pensamento: por que o Irã, que hoje é o 4º maior produtor de Petróleo do mundo, tem índices sócio-econômicos tão ruins quanto os do Brasil?
 
Podemos esticar esse questionamento ao pegar a lista dos dez maiores produtores de petróleo do mundo (em ordem decrescente): Venezuela, Arábia Saudita, Canadá, Irã, Iraque, Kuwait, Emirados Arabes, Rússia, Líbia e Nigéria. Dessa lista, podemos falar que apenas um país é rico (Canadá), outros são emergentes (EAU, Rússia, Kuwait e Irã) e os outros cinco são pobres. Como é que metade dessa lista é pobre e apenas um é rico de verdade?
 
É que riqueza tem pouco a ver com riquezas naturais e muito a ver com instituições sólidas de direito e economia com proteção de direitos individuais e de propriedade, gerando poupança, especialização do trabalho e riqueza. O Canadá não é rico por causa do petróleo, é rico por causa das suas instituições sócio-econômicas sólidas, de um governo racional e de respeito aos direitos de propriedade. O petróleo vem apenas para somar.
 
Sem contar que 2035 ainda está longe, e nada garante que o petróleo será um produto com o mesmo valor de mercado atual. O investimento em tecnologia cada vez mais descobre novas fontes, como o gás de xisto e o tório. Projetar o futuro do Brasil em cima de uma commodity já deu errado antes, seja com o café ou a cana-de-açúcar. Não precisamos errar novamente.
 
Apenas para provar mais uma vez meu ponto, no ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation, onde estamos no 100º lugar, vemos os seguintes países: Hong Kong, Cingapura, Austrália, Nova Zelândia, Suíça, Canadá, Chile, Ilhas Maurício, Dinamarca e Estados Unidos. Todos países ricos ou em altíssima taxa de crescimento.
 
Será que é sonhar muito querer que o Brasil esteja na elite do ranking de liberdade econômica ao invés desse capenga ranking de produtores pobres de petróleo?
 
* Bernardo Santoro é diretor do Instituto Liberal.

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