“Não se deve brincar com a História no condicional”

Honras póstumas a João Goulart

Por Saturnino Braga

Restos mortais de João Goulart receberam Honras Militares de Chefe de Estado! Comandantes da Forças Armadas perfilados ante o caixão engalanado. Quem diria… A figura mais injustiçada da História do Brasil, disse Roberto Amaral e eu concordo. Vale a reparação tardia?

Vale, no sentido de que, sob o pnto de vista da dignidade nacional, é melhor que tenha havido, do que ficar só o registro histórico da ignomínia do exílio e daquele enterro proibido em São Borja. Na política, o reencontro com a Ética e com a Justiça após uma ruptura grave se faz assim, pelo reconhecimento ex-post.

Seria melhor, obviamente, se os mesmos chefes militares que o depuseram em 64 lá estivessem para reconhecer o erro. Sendo materialmente impossível, seus sucessores o fizeram. Melhor assim.

Jango era um homem de sentimentos nobres e profundamente democráticos. Era um político de fina sensibilidade; sabia ver as coisas, e percebeu claramente o tamanho das dificuldades que teria no governo, sendo um político da vertente trabalhista, comprometido com interesses sindicais e reformas sociais, assumindo o posto de mando precisamente na hora histórica de maior tensão internacional: o estopim da guerra aceso pela Revolução Cubana no continente americano, e o poder dos Estados Unidos absolutamente intolerante e intransigente com qualquer governo que descambasse minimamente para uma feição socializante, aqui no seu quintal. Percebeu claramente e buscou um caminho de viabilização: compôs um ministério para reformas moderadas, possíveis naquele clima quente, pediu essa definição de reforma ao economista brasileiro mais competente, que era Celso Furtado; convocou para aconselhamento político e jurídico os líderes mais capazes e hábeis, como Tancredo Neves, San Tiago Dantas, Evandro Lins e Silva, João Mangabeira; pediu apoio a líderes empresariais da maior respeitabilidade, como José Ermírio de Morais e Hélio de Almeida, chamou o brasileiro de maior acatamento nos meios financeiros internacionais, que era Walter Moreira Sales, e foi com ele ao Presidente Kennedy; o Globo estampou em manchete: “União com Goulart”, eu vi.

Mas a lógica da História segue seus caminhos, e é extremamente difícil para os políticos moderados sustentarem-se atacados tão fortemente pela direita e pela esquerda. Os Estados Unidos estavam resolvidos ao golpe preventivo, para evitar a menor possibilidade de um governo esquerdista; e a esquerda brasileira iludiu-se com a fantasia de uma revolução cuja viabilidade a “Pequenina Cuba” demonstrava. Até mesmo a esquerda mais experiente, como o velho Partido Comunista, escorregou nesse gigantesco equívoco. Ajudada pelos inúmeros “Cabos e Sargentos Anselmos” que a CIA colocava no jogo, a radicalização esquerdista cresceu contra a “política de conciliação” que o Presidente acalentava. Eu vi. Os moderados, um a um, foram se afastando desalentados e João Goulart viu-se na armadilha de ter que optar entre um lado e outro dos extremos. Claro, era um homem de caráter e convicções, optou pela esquerda, caminhou para o desfecho que previa e, na hora certa, renunciou para evitar que seu país, nosso País, se transformasse num campo de batalha internacional, como a Coréia e o Vietnam. Foi um dos maiores brasileiros esse Joâo Goulart tão injustiçado, ao ponto de ser chamado de frouxo por alguns dos seus velhos companheiros mais próximos. Eu vi.

Bem, mas, e agora? E se a esquerda tivesse tido mais sensibilidade e competência política e tivesse aceitado e colaborado com a linha conciliadora de Jango? O que poderia ter acontecido? Jango poderia ter conseguido fazer o que Lula fez 20 anos depois?

Não se pode jogar com a condicional histórica. As “razões de Estado” norteamericanas naquele momento eram muito fortes na decisão de usar até a força para o golpe preventivo. O interesse da União

Soviética era de espicaçar e criar problemas para os Estados Unidos dentro da sua área de poder, mesmo que tivesse de se retirar no momento de tensão final e decisiva, como fez com Cuba no caso dos mísseis; e com esse propósito é bem provável que tivesse encorajado o nosso velho Partido Comunista no seu engano fatal.

Enfim, as forças internacionais que jogavam dentro do nosso território eram poderosíssimas, e se pode afirmar, sensatamente, que o golpe era inevitável. Não se deve brincar com a História no condicional, especular, por exemplo, que a Revolução Francesa talvez não tivesse ocorrido se Maria Antonieta tivesse sido uma mulher honesta.

De qualquer forma, foi para mim uma ventura, um batimento de alegria no coração, ver a fotografia de Jango, em seus restos mortais, em seu espírito ali presente, recebendo as devidas honras militares.

* Saturnino Braga é ex-prefeito do Rio de Janeiro e ex-senador da República.

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