“Ideias de Paine e Burke são parte natural das democracias liberais”

O divisor de todas as águas

Por Eduardo Wolf – Revista Veja

Um ensaio histórico remonta as posições da esquerda e da direita atuais ao debate sobre a Revolução Francesa que os britânicos Thomas Paine e Edmund Burke travaram mais de 200 anos atrás

Le Serment du jeu de PaumeEm 1980, na Convenção do Partido Republicano que o lançaria candidato à Presidência dos Estados Unidos, Ronald Reagan encorajava seus correligionários com uma citação de Thomas Paine: “Temos o poder de começar o mundo de novo”. Reagan, nome máximo da direita conservadora americana, invocava o revolucionário Tom Paine, herói de muita luta da esquerda progressista. Confusão? Não. O episódio mostra as complexidades das posições de direita e esquerda nas democracias modernas. Foi para iluminar essa questão que o jornalista

e cientista político Yuval Levin escreveu The Great Debate: Edmund Burke, Thomas Paine and the Birth of Right and Left (O Grande Debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o Nascimento da Direita e da Esquerda), publicado recentemente nos Estados Unidos pelo selo Basic Books. Levin é um atuante comentarista conservador, com destacado papel na imprensa (é editor da revista National Affairs) e passagem pela Casa Branca na última gestão republicana. Seu livro busca explicar a matriz das ideias que caracterizam direita e esquerda ainda hoje na politica anglo-americana (mas não apenas), para além da clássica origem dos termos na disposição dos partidos revolucionário (à esquerda) e contrarrevolucionário (à direita) na Assembleia Nacional da França à época da Revolução de 1789. Segundo Levin, foi a polêmica entre dois britânicos – Edmund Burke (1729-1797) e Thomas Paine (1737-1809) – em torno da mesma Revolução Francesa que conferiu substância duradoura às noções de esquerda e direita.

Em 1774, Tom Paine chega à Filadélfia com uma carta de recomendação de Benjamin Franklin, que conhecera em Londres, e no ano seguinte começa a publicação de Senso Comum, um panfleto de estrondoso sucesso que mobilizava argumentos em defesa da independência americana, atacava a monarquia e discutia a legitimidade dos governos à luz da razão. O inglês alçava-se, assim, à posição de estrela da Revolução Americana. Preeminente parlamentar do partido Whig (Liberal) britânico, o irlandês Edmund Burke, um grande “reformador” (opunha-se, por exemplo, ao tráfico de escravos), também apoiou a independência americana. Suas razões nada tinham a ver com os ideais abstratos de Paine, mas sim com uma consideração prudente da situação concreta no Novo Mundo. Na definição de Levin, Paine era um radical do Iluminismo, e Burke, um representante do Esclarecimento conservador. Uma e outra atitude estiveram presentes no coração mesmo da Revolução Americana. Quando Thomas Jefferson (1743-1826) propôs que uma legislação não durasse mais do que o tempo de uma geração – “a terra pertence sempre ã geração viva”, escreveu a James Madison -, estava em perfeita sintonia com o Iluminismo mais radical e afrancesado de Paine. Do outro lado, percebe-se em John Adams (1735-1826) muito da sobriedade do espírito de Burke, com seu profundo ceticismo – marca conservadora por excelência – em relação às abstrações metafísicas dos radicais e sua insistência no legado de paz e estabilidade. Adams fazia eco às palavras de Burke segundo as quais a sociedade é uma associação “entre os que estão vivos, os que estão mortos e os que ainda estão por nascer”.

As posições tão distintas de Paine e Burke resultariam no “grande debate” travado após o início da Revolução Francesa que da título ao livro de Levin. Em sua análise sempre equilibrada dos argumentos, o autor mostra como o espirito revolucionário de Paine foi incendiado pelos acontecimentos em Paris. Suas inclinações radicais encontravam na França a mais perfeita expressão. “Começar o mundo de novo", a famosa citação, sintetiza a disposição desse radicalismo nascente: armados da razão, os homens deveriam implementar a única forma de governo legítima, uma república fundada na absoluta igualdade e no consentimento racional de seus membros. Velhas formas de organização social ou política seriam derrubadas para que a Nova Sociedade se erguesse do zero. Se o leitor pensou em versões não tão “iluminadas” dessa atitude – do leninismo soviético ao maoismo chinês -, não apenas pensou bem, como antecipou o motivo das inquietações de Burke. Coube ao pensador irlandês resistir desde a primeira hora ao apoio que os ideais revolucionários suscitaram em certos setores intelectuais e políticos da Europa. Em suas Reflexões sobre a Revolução na França, o grande liberal e reformador incumbiu-se da tarefa da conservação. Burke acreditava que o contrato social não é uma abstração racionalista, como queriam os revolucionários, mas sim o produto da história continuada de comunidades especificas. Defendeu o que chamou, com um termo tomado de empréstimo ao Direito romano, de “prescrição”, isto é, os mecanismos de preservação das práticas e das instituições sociais que o tempo já provou serem bem-sucedidas. A prescrição funcionaria, de acordo com Burke, como um “seguro principio de conservação e de transmissão” de tudo o que foi conquistado pelas gerações passadas, sem abrir mão das mudanças e da evolução. Somente essa receita poderia impedir que a sociedade se desintegrasse e caísse refém do terror – o que de fato aconteceu na França revolucionária, sob o comando de homens como Robespierre e Marat, vítimas, cada qual a seu modo, da deusa Razão tomada máquina de matar.

Levin mostra que o espírito da conservação formulado por Burke, com grande apreço pela estabilidade e pelo que o autor chama de “conhecimento social implícito da comunidade”, ainda anima a direita americana. A esquerda segue valorizando a igualdade. Mas se

Ronald Reagan pôde reivindicar o legado de Paine, ou se Barack Obama pode, segundo relatou o jomalista David Brooks, do New York Times, definir-se como um “reformador burkiano”, isso se deve ao fato de as ideias de Paine e Burke hoje serem parte natu

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