“Equilíbrio de Nash deu soluções mais humanas e sociais”

Equilibrio social e democracia

Por Marcelo Coutinho

Nas sociedades contemporâneas, o equilíbrio foi precisamente definido após a Segunda Grande Guerra pelo matemático e economista norte-americano, vencedor do Prêmio Nobel, John Nash, como a situação em que não se pode ganhar mais, com o aumento do lucro, por exemplo, agindo sozinho, sem a colaboração dos demais.
 
Esta não é exatamente a definição de equilíbrio que todos, em princípio, esperariam. Afinal, o conceito deveria trazer palavras como moderação, razoabilidade e bem estar. No entanto, prestando mais atenção, percebemos que o equilíbrio de Nash – na vida pessoal atormentado por alucinações esquizofrênicas – está, sim, associado a esses aspectos do senso comum.
Nash fez uma decisiva correção à teoria de Adam Smith, pai da economia moderna. O velho clássico liberal sintetizou há dois séculos a perfeição do capitalismo, atribuindo o bem social à competição entre os indivíduos. Quanto mais esses disputassem pela vitória ou para se destacar, mais dariam de si mesmos e, consequentemente, toda a sociedade sairia ganhando em diferentes áreas, da invenção de medicamentos à produção de alimentos e computadores. O Capitalismo seria, desse modo, um sistema imbatível.
 
Mesmo concordando em grande parte com o seu mestre, Nash ponderou que a competição não é sempre a melhor estratégia em interações humanas com decisões interdependentes. Haveria ocasiões igualmente importantes em que todos ganhariam mais se cooperassem entre si, isto é, como foi dito no início, situações nas quais o bem social é alcançado não pela concorrência, mas pela colaboração, trabalho em equipe e ação coletiva.
 
Ainda que outros autores consagrados, como Mancur Olson, tenham mostrado depois que a ação coletiva para produzir bens públicos é muito problemática e difícil de acontecer em razão de comportamentos racionais oportunistas, o equilíbrio de Nash continuou a representar um enorme avanço no conhecimento científico sobre um tema essencial em nossas vidas.
Mudanças climáticas, desestabilizações políticas, colapsos financeiros, revoltas sociais, corrupção e violência nas ruas seriam também produtos do frenesi individualista concorrencial. O capitalismo de Smith construiu uma modernidade verdadeiramente fabulosa, baseada na individualidade das pessoas. Porém, o equilíbrio de Nash foi o que deu a elas soluções e respostas mais humanas e sociais, sem precisar recorrer às velhas ideologias totalitárias de esquerda e direita do século passado.
 
A violência que o Brasil e outros países têm assistido nos últimos tempos, promovida pela insurreição de alguns jovens inconformados com um estado de coisas na política, desmanchou a impressão de equilíbrio social no qual até então parecíamos viver. Como diria Raymond Aron, a política da violência é um efeito direto do desejo desmedido de refazer do zero toda a sociedade, sem respeitar nenhum limite. Seja lá qual for a sua dimensão – política, econômica, social ou psicológica – gostamos da sensação de segurança e simetria que o equilíbrio transmite e que os grupos de “desordeiros” ameaçam, ainda mais em um país cuja bandeira traz expressamente o lema “Ordem e Progresso”.
 
Tal qual o capitalismo de Smith, a concepção minimalista de democracia como mercado político ou competição eleitoral pelo poder, das teorias mais em voga de Joseph Schumpeter e Robert Dahl, trouxe também grandes avanços. E assim como o sistema capitalista de Smith, a democracia minimalista precisa de um instrumento de estabilização mais agregador nos moldes do equilíbrio de Nash. Isso não significa necessariamente instituir o modelo de democracia direta ou plebiscitária, mas aperfeiçoar o regime democrático representativo em uma sociedade de massas como a brasileira.
 
A confusão feita entre democracia e baderna espelha a mistura que os políticos também fazem entre público e privado e entre o presidencialismo de coalizão e o loteamento do Estado como uma espécie de “market share”. Uma nova forma de fazer política não passa pela reinvenção total da sociedade e nem mesmo por plebiscitos regulares, mas por algo que as democracias avançadas conhecem como “accontability”, onde os políticos prestam contas do que fazem à população que os elegeu e esta, por sua vez, renova sua representação sempre que quiser. A despeito de tanto ceticismo, esse não parece ser, afinal, um equilíbrio distante.
 
* Marcelo Coutinho é é professor de Relações Internacionais do IUPERJ e Comissário Geral da Cultura Brasileira no Mundo em 2007.

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