Constatar que a economia vai bem não significa elidir críticas

A economia brasileira

Por Saturnino Braga

Obviamente, a economia é sempre uma preocupação, um cuidado a observar como condição de bem-estar político e social. A diferença em relação ao século passado é que o desenvolvimento hoje compreende várias outras dimensões, no social, no político, no ambiental, no cultural, em proporções que nós, brasileiros, procuramos para formular, em aproximações sucessivas, o que será o nosso Modelo Celso Furtado de Desenvolvimento.

Na angulação desta nova perspectiva, a economia brasileira não vai mal: sem precisar crescer àquelas taxas elevadas do desenvolvimentismo do passado, pode-se até dizer que vai bem. Enfrenta problemas e limitações decorrentes da estagnação mundial e de uma certa redução do dinamismo da vizinhança sulamericana, assim como da decisão política interna de priorizar a distribuição, elevando substancialmente o nível de consumo das famílias.

Convivendo com essas limitações, pode-se dizer que não vai mal a nossa economia, apesar das costumeiras notícias pessimistas da grande mídia. Não houve, no ano passado e neste, um encolhimento do ritmo produtivo que descesse a um ponto de caracterizar uma recessão. Nem chegamos a descer a um nível sem nenhum crescimento do produto per capita. Não vai mal e as avaliações presentes apontam para uma boa recuperação do ritmo já no ano próximo.

Constatar que vai bem, não significa elidir preocupações e críticas, especialmente voltadas para um excesso de estímulo ao consumo e uma relativa desatenção para com o investimento. Tudo está a indicar, porém, que esta distorção já está corrigida, e a taxa de investimento vem subindo, com reflexos positivos sobre a estratégica indústria de bens de capital.

Críticas também podem apontar para uma falta de diálogo político mais freqüente e institucionalizado com a sociedade organizada, através dos conselhos setoriais e da conferências nacionais tão importantes do período anterior. A carência desta dimensão política, indispensável, decisiva, estaria sendo compensada pelo excesso de preenchimento de cargos governamentais por nomeações políticas, não só dos partidos aliados como do próprio PT, uma compensação condenável.

A economia não vai mal e, o que é especialmente importante, a diretriz desenvolvimentista que prioriza a distribuição, instaurada em 2002. segue firme. Segue com avanços relevantes em relação ao período anterior: uma política decidida de redução dos juros, com a utilização da iniciativa dos bancos públicos, que irritou sobremaneira o grande capital; uma mudança de regras do setor elétrico que produziu uma substancial redução de tarifas para as famílias e para a indústria; uma mudança profunda das regras de exploração do petróleo, com um controle estatal maior na produção e um efetivo monopólio de operação da Petrobrás nas reservas do pré-sal, que contrariou profundamente as grandes petroleiras internacionais; isso tudo, além da ampliação da presença estatal no planejamento e no controle da economia. Todo esse avanço na diretriz do novo desenvolvimento, que agride os grandes interesses do capital e a ciência dos economistas que trabalham para o enriquecimento dos ricos, gerou, evidentemente, uma onda de comentários pessimistas que diariamente são veiculados na grande mídia.

A realidade, entretanto, é outra: a economia brasileira enfrenta algumas dificuldades mas não vai nada mal; ao contrário, segue o seu novo curso com boas perspectivas para 2014, fundadas: na recuperação internacional, ainda que lenta e fraca, na retomada dos investimentos internos e externos, e no dinamismo da indústria fornecedora da exploração do petróleo do pré-sal.

* Saturnino Braga é ex-prefeito do Rio e ex-senador da República.

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