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O
QUE COMPRA O MARKETING: ARTE OU ARGUMENTAÇÃO?
Jorge Maranhão
O QUE APARECE DO MARKETING É O QUE AS AGÊNCIAS MOSTRAM.
E O QUE AS AGÊNCIAS MOSTRAM É O QUE O MARKETING PERCEBE
E COMPRA
Num mercado tão competitivo
como o de agências de publicidade, quais os diferenciais que
efetivamente são considerados pelos homens de marketing enquanto
usuários finais de seus serviços?
Primeiro, vamos ver o que vem a ser este mercado, o que ele faz,
o que vem a ser seu pensamento, com que doutrinas e conceitos trabalha,
com que repertório de recursos conceituais e técnicos
são operados os seus serviços.
Quando surgem os jornais com circulação
contínua, a partir da segunda metade do século passado,
surgem os classificados, as seções editoriais e, só
depois, e nesta ordem, surge a arte da publicidade. Mas, durante
longas décadas é uma arte de ilustração,
com o mesmo sentido das iluminuras dos manuscritos da Idade Média,
sem a devida reflexão crítica sobre o conceito do
produto, da oportunidade e da situação do mercado
e, sequer da estratégia de argumentação, que
eram ofício do próprio anunciante, de seu corretor
de anúncios ou depois de um jornalista redator. Nem de longe
pensar no que ocorreria com o advento das transmissões radiofônicas
da década de 20 e 30, quando efetivamente os conceitos publicitários
passam a ser trabalhados enquanto idéias próprias
e com consistência discursiva. Ao mesmo tempo em que se criam
as condições de possibilidade da onda de criatividade
que veio por pasteurizar toda a publicidade a partir das décadas
de 40 e 50, com a estruturação dos departamentos comerciais
dos jornais e das rádios, o início das transmissões
televisivas e os programas de incentivos para que as recém-estruturadas
agências de publicidade americanas contratassem profissionais
de criação e participassem de certames de criatividade.
Se as agências, hoje, colecionam troféus de ouro ou
prata em festivais de publicidade é por que estes têm
sido os fatores diferenciais de qualidade percebidos e comprados
pelo marketing enquanto usuário de seus serviços.
Por ter como perspectiva doutrinária apenas a cultura americana
da virada do século, este mercado não se aprofundou
nas raízes culturais clássicas da propaganda. A crítica
que se impõe é a da sua precariedade doutrinária,
tanto conceitual quanto com relação à organização
do repertório de técnicas que essas agências
teriam. E é aí que pode residir um novo paradigma
de diferenciais entre campanhas de publicidade mais criativas, mais
argumentativas ou mais equilibradas entre os dois discursos. Defendemos
este equilíbrio entre a arte e a argumentação
como o grande fator de eficiência da publicidade e aquilo
que efetivamente deveria ser valorizado e comprado pelos usuários
do marketing. A campanha eficiente tem sido o resultado do concurso
de outras idéias, outros profissionais, que não apenas
os criativos das agências. Enfim, recursos conceituais, técnicos
e humanos que fazem - e sempre fizeram - fronteira com a arte e
a técnica da propaganda.
Se faço aqui uma diferença
entre publicidade e propaganda, devemos estabelecer quais são
as bases desse pensamento, o que vem a ser o caráter desta
diferença. Enquanto a publicidade situa sua origem no sistema
capitalista de produção, a propaganda não pressupõe
a existência do produto para se assumir enquanto discurso
retórico, com poder de persuasão. A propaganda transcende
o modo de produção capitalista, não tem vergonha
de trabalhar num outro registro do discurso da linguagem que não
os dois discursos tradicionalmente aceitos pelas elites pensantes.
A propaganda é argumentação, não é
ciência nem arte, transcende o discurso lógico-racional
e o discurso estético.
Assim como o orador ou o pregador
em relação ao retórico e ao argumentador, a
publicidade comercial, enquanto arte da publicidade, é uma
arte ingênua. Já a propaganda deve ser sempre uma estratégia
de argumentação. Se os diretores de criação
enfatizam a estética, os marketeiros profissionais enfatizam
a lógica e, desse impasse, não sai o retórico,
um discurso argumentativo capaz de persuadir o mercado sobre determinados
produtos ou serviços.
Os princípios que regem a
organização e o repertório da arte da publicidade
comercial e os princípios que regeriam o repertório
da estratégia da propaganda, enquanto argumentação
retórica, estão de certa maneira alinhavados em poucos
princípios retóricos.
O princípio de ouvir antes de falar, de ouvir o auditório,
significa conhecer o universo de preocupações, de
anseios e de pensamentos do segmento de público que se quer
atingir, ou, falando em termos de hoje, do target. Quanto mais universal
o seu auditório, mais persuasivo deve ser o seu discurso.
O segundo princípio é a relatividade do ato de criar.
A criação não é aquilo que falta na
observação do real, passível de captação
pelo ato do planejamento. A criação deve ser aquilo
que complementa ou que dá forma a uma idéia que só
pode ser encontrada no humilde exercício do planejamento.
O planejamento é um exercício de reflexão sobre
a questão de comunicação do anunciante. A Arte
não pode ser desprovida de razão, e, por mais que
seja do domínio do fenômeno, do símbolo e da
fantasia, acaba por se realizar no real.
O terceiro princípio é o de que não existe
o impacto na teoria da argumentação. Numa estratégia
de argumentação o que existe é sempre a freqüência,
a continuidade do discurso na mídia. Só se forma imagem,
só se agrega valor a uma marca com a freqüência
(de freguês, freqüentar, aquele que freqüenta) de
seu símbolo na mente do consumidor. Freqüente não
deve ser só a oferta, a exposição do produto,
como na feira medieval, mas deve ser a freqüência com
que o produto se esforça para falar dele próprio ante
a desatenção do consumidor. E mantém também
as suas características principais; a capacidade que tem
de corresponder à expectativa do somatório de experiências
de consumo ou uso por parte do freguês. Seria encontrar aquilo
que ele sempre encontrou, ali naquele mesmo lugar, sem grandes e
inexplicáveis diferenças de custo e benefícios.
Tanto na Retórica como no
marketing existe uma tentativa de determinar ou moldar a expectativa
ou a resposta de um determinado target. Como o estribilho da literatura,
o leit-motif musical, a figura da repetição é
que nos leva a ser freguês de algo. Uma marca é isso.
É alguma coisa que você ainda não consumiu mas
prenuncia, indicia, assinala, significa, é um significante
preciso do significado que seria o conteúdo do produto.
Esses três princípios são fundamentais. Outro
princípio complementar seria o de que um produto ou serviço
tem que passar pela reflexão do que ele é. Um produto
sem conceito é fadado ao fracasso. E aí não
importa se o conceito é novo, é original, se estabelece
uma ruptura com todos os seus congêneres ou não. O
que importa é que ele não seja vazio, que tenha produzido
uma reflexão sobre si próprio, um slogan. Partimos
do princípio de que não há produto, não
há campanha, não há propaganda eficaz retoricamente
sem haver este conceito, trabalhado na construção
da campanha de publicidade.
OS SURTOS DE AFIRMAÇÃO
DA CULTURA BRASILEIRA
Mas voltando ao marketing, o mercado
das agências de publicidade no Brasil precedem, por assim
dizer, a reestruturação comercial das próprias
empresas anunciantes, quando no pós-guerra, começam
a chegar aqui as primeiras agências americanas, trazendo a
cultura do advertising.
Até os anos 20, a formação da cultura brasileira,
na sua expressão de elite, é uma cultura muito centrada
na tradição acadêmica da cultura européia,
principalmente francesa, inglesa e portuguesa. Desde a tradição
do Império, onde o Brasil tinha, via Portugal, uma influência
muito clara da Inglaterra, esta é a grande fornecedora de
cultura industrial ao Brasil. Na República Velha, se afirma
uma cultura brasileira de talante mais acadêmico, e aí
ela é mais francesa. Porque as grandes idéias do mundo
ocidental nesta época são efetivamente francesas.
Essas duas tradições, uma de ordem mais industrial,
comercial, mais tecnológica e científica - a inglesa
- junto com a tradição francesa, mais acadêmica,
mais da apreciação das artes, da investigação
filosófica e humanística, é que determinam
até a primeira guerra, o pensamento da indústria e
do comércio nacionais, e até mesmo a concepção
da própria cultura brasileira.
Em 1922, com a Semana de Arte Moderna, há uma ruptura da
própria elite industrial paulista, tentando mostrar pela
primeira vez uma independência desses valores europeus. E
a partir da guerra, com a supremacia americana, com a quebra do
longo período isolacionista americano, há a exportação
do seu modelo peculiar de capitalismo, onde valores como tempo é
dinheiro, originalidade acima de tudo, diferenciação
a todo custo, ruptura com o passado, chegar em primeiro lugar, determinadas
concepções estéticas e um determinado conjunto
de valores ideológicos ou doutrinários da cultura
capitalista americana entram de vez no Brasil pelo estreitamento
das relações comerciais, diplomáticas e econômicas,
e pela atração que a cultura periférica das
Américas sofre pela cultura central americana.
O Brasil então fica entre
esses dois modelos. A própria afirmação da
cultura brasileira fica entre esses dois grandes modelos de xenofilia.
A elite brasileira ou é ligada ao estrangeirismo europeu
ou ao estrangeirismo americano. Como a propaganda trata de cultura
de massa, de comércio, da infra-estrutura industrial e de
serviços da sociedade, ela vai sofrer uma influência
maior da cultura americana até a década de 60/70,
quando começa a surgir e a se afirmar o modelo brasileiro
de agência de publicidade. Até então o modelo
é americano.
O primeiro surto de nacionalismo teria sido 22, para o qual ainda
contribuem correntes do nacionalismo romântico ou simbolista,
e até moderno também. Ou seja, o moderno europeu -
enquanto negação do romântico - já não
é nacionalista, mas no Brasil os modernos ainda são
românticos e nacionalistas! É a afirmação
da hegemonia americana, da cultura de massa americana no mundo inteiro
- desde a década de 50, no pós-guerra, até
a década de 60 - que vai fazer com que o Brasil, em contrapartida
à universalização dos valores da cultura americana,
venha afirmar os valores específicos e particulares da cultura
brasileira, sobretudo nos campos da pintura, da literatura e da
música.
No Brasil, o segundo surto de nacionalização
surge com a Bossa Nova, a afirmação cultural da música
popular brasileira, que sai de um gueto de repressão de samba,
se interrelaciona com determinados ritmos jazísticos americanos
e se afirma como uma forma musical popular brasileira universalizável,
a chamada MPB - Música Popular Brasileira. Na tradição
imperial do choro, da seresta, da modinha, surge um tipo de música
efetivamente diferente porque requer a vitrola da RCA Victor (his
master’s voice...), música gravada em spots de 3 minutos
para veiculação em rádios e exportação
também, na medida de sua inserção na própria
cultura de massa universal, global e capitalista.
O terceiro grande surto de afirmação
do caráter e da identidade nacional tupiniquim ocorreu no
campo do cinema com a grande afirmação do Cinema Novo
brasileiro, que não só canibaliza as linguagens do
Nouvelle Vague francês, como também do realismo socialista
de Eisenstein e do neo-realismo italiano de Victorio de Sicca e
Roberto Rosselini. O Cinema Novo brasileiro também vai beber
nas fontes das chanchadas, que não só afirmam como
parodiam a produção de Hollywood, levando os heróis
do rádio para as telas, como nas comédias de Oscarito,
a Atlântida de Ademar Gonzaga, a Vera Cruz etc.
O quarto surto é sem dúvida alguma a arquitetura de
Niemeyer, a partir do momento em que Le Corbusier vem aqui, na década
de 30, e do desenvolvimento urbano de Brasília de Lúcio
Costa, junto com as artes plásticas de Tarsila, Di Cavalcanti
e Portinari. Sem dúvida nenhuma, a arte de afirmação
da cultura visual brasileira e o cinema novo brasileiro vão
ter como trilha musical até os dias de hoje a música
de Villa-Lobos e de todos os seus ícones populares da MPB
e da Bossa Nova fazendo a antropofagia das formas musicais européias
com o conteúdo da tradição cabocla, da mistura
de índio com português e com negro africano.
APESAR DOS SURTOS, A PUBLICIDADE
BRASILEIRA NÃO DEIXA DE SER UM ÍCONE DA CULTURA AMERICANA
É neste contexto cultural que se constitui o sistema de comunicação
de massa no Brasil. Ou seja, com a inauguração da
TV Tupi, na década de 50 e com a consolidação
da Globo na década de 60. Também, com a consolidação
das revistas Cruzeiro e Manchete, na década de 50, e a passagem
desse cetro da mídia de revistas, de magazines de trivialidades,
de variedades, de ilustração, como Der Spiegel e Paris
Match - que são ainda de ilustrações, revistas
de entertainment - para uma Veja que segue um modelo de Time ou
NewsWeek, um modelo estrito de informação. Nos jornais,
há a constituição dos 6 grandes jornais brasileiros
- JB, O Globo, Folha, Estado, Zero Hora e O Dia. A consolidação
deles na década de 60/70 como indústrias, todos chegando
à marca dos 20 maiores periódicos do mundo, com tiragem
de mais de 1.000.000 de cópias aos domingos.
O mercado de publicidade busca os seus recursos técnicos
no mercado americano. As agências brasileiras têm uma
maneira de ilustrar, de desenhar o anúncio, de fazer o lay-out,
de conceber um copy, da própria publicidade em si, das agências
americanas. E é a partir da afirmação da indústria
de comunicação brasileira, no decorrer da década
de 60 com Veja e TV Globo como símbolos, que as agências
de publicidade que já estão perto dos 40 anos (eu
destacaria a Salles, a Almap e a DPZ), que saíram de agências
americanas para constituir suas próprias agências,
fazem um esforço monumental na época para dizer ao
empresário brasileiro: - Já que você está
comprando produtos de origem americana, por que não fazer
como os americanos fazem, fazer publicidade voltada para a cultura
do mercado a que você se dirige?
No segundo momento, a indústria brasileira de publicidade
vai dizer: - Isso tem que ter uma linguagem brasileira; tem que
ter um sabor local. Você tem que ouvir o que o mercado brasileiro
quer. Ele não vai querer necessariamente igual ao que o americano
quer. Exatamente por isso, ele passa a falar de marketing, que é
a estratégia de venda a que corresponde uma retórica,
uma propaganda enquanto estratégia de argumentação.
Neste segundo momento, eles vão estar falando em propaganda.
Então, cabe aqui mostrar estes dois modelos. O modelo da
constituição da indústria de publicidade comercial
brasileira, simbolizado pela Salles, DPZ e Almap, contrariamente
ao modelo americano que é da Lintas, da Thompson, da Standard,
da MacCann Ericson etc. E, por outro lado, com o crescimento da
indústria de comunicação, o surgimento de vários
outros profissionais que vão se constituir na grande oferta
na década de 80, no acirramento da competição
do mercado de televisão, rádio, revista, jornais,
e no acirramento da competição dos prestadores de
serviços de comunicação. Desde a constituição
e sofisticação dos estúdios de arte independentes,
para fazer design gráfico tout court, às sociedades
corretoras de anúncios, não propriamente agências
de criação, mas agências que vão evoluir
de corretores autônomos de veículos de comunicação,
do pequeno anúncio de classificados para os grupos de brokers,
modelos ancestrais dos bureaux de mídia europeus. Vamos ter
os estúdios de fotografia, de produção de televisão,
de vídeo, toda a sorte de empresas ou pequenas oficinas ou
escritórios de divulgadores de imprensa, de assessores de
imprensa, de profissionais de relações públicas
e de organização de eventos. Vamos ter, na década
de 70/80, toda uma sorte de empresas especializadas em determinadas
linguagens de comunicação, como promoção
de vendas, programas de incentivo, consultorias de marketing e coisas
similares. A tal ponto de fazer com que as empresas anunciantes
e suas gerências comerciais passem a ter um enorme trabalho
de reflexão, de tão variada a oferta de profissionais
liberais que podem contribuir para a melhoria da eficiência
do plano das atividades de comercialização das empresas,
brasileiras ou estrangeiras situadas no Brasil. Aquilo que se chama
genericamente de marketing. Se de um lado temos o monopólio
da arte da publicidade na organização das grandes
agências, de outro temos a socialização indiscriminada
dos ofícios da argumentação e sua fragmentação
em milhares de agentes profissionais autônomos.
Precedendo a própria atividade do marketing, as agências
vão buscar persuadir os anunciantes com um discurso de aprimoramento,
especialidade e excelência no campo da publicidade comercial.
Ou seja, o Brasil passa a se destacar como um país onde se
produz uma publicidade altamente criativa. As grandes agências
se notabilizam pelos departamentos de criação altamente
sofisticados. Grandes profissionais regiamente pagos, excelentes
no campo da direção de arte e da redação
publicitária, muita sofisticação no campo da
produção, dos efeitos especiais, no concurso de produções
cada vez mais caras, principalmente na mídia eletrônica.
Por outro lado, esses gerentes/diretores de marketing das grandes
empresas - aqueles que são responsáveis pela aplicação
dos recursos da empresa nos seus planos de marketing - vão
buscar o concurso de outros profissionais fora das agências,
altamente especializados, para tentar rentabilizar os seus investimentos
de mídia. Os investimentos de mídia crescem muito
no Brasil, mas ainda crescem em menor escala do que nas economias
capitalistas abertas e efetivamente competitivas. Enquanto a taxa
histórica brasileira de participação da publicidade
nacional no PIB, nos últimos 10 anos, gira em média
de 1%, nos EUA, ela está em torno de 3 a 4%.
O mercado desperta, nas décadas de 80 e 90, para buscar eficiência
dos seus investimentos de comunicação. Alguns gestores
de marketing entram em choque com suas agências e dizem que
elas são muito criativas mas não têm consistência
no seu planejamento e são tentados a buscar eficiência
diretamente na formação de house-agencies, na formação
de departamentos próprios de publicidade com a compra de
talento de fora. Ora, pode-se comprar talento de redatores, diretores
de arte, montar agências, e até o talento de compra
de mídia. Mas,só um empresário de publicidade
é que sabe geri-los. Então a house-agency passa a
ser pesada, ineficiente, burocrática, e cai por terra. Eles
vêem que acabam gastando mais do que toda a economia nominal
dos 20% de comissão de agência, “concedida”
pelos veículos.
A BUSCA DA EFICIÊNCIA DO MARKETING
DEVE PASSAR NÃO SÓ PELA PESQUISA DA ARTE DA COMUNICAÇÃO
MAS SOBRETUDO PELA ESTRATÉGIA DE ARGUMENTAÇÃO
DO ANUNCIANTE
Hoje em dia, a busca de eficiência
na aplicação das verbas publicitárias não
pára. Os grandes gestores da publicidade ainda acham que
a agência de publicidade brasileira, apesar de excelente e
premiada na criação e na direção de
arte, ainda não tem dentro dela os recursos conceituais,
técnicos e profissionais de pessoas especializadas em estratégias
de planejamento, em marketing, em venda, em conhecimento específico
na capacidade de recrutar outros talentos especializados em assessoria
de imprensa, divulgação, relações públicas,
merchandising, ponto de venda, de incentivo a vendas, incentivo
a distribuidores, eventos etc. Todas as linguagens de profissionais
preocupados com a imagem da empresa, na imprensa e nos formadores
de opinião.
Isto é o modelo de agência
que o marketing está a exigir no final deste século.
Uma agência que pelo menos consiga cooperar com as outras
linguagens. Que produza não só arte da publicidade,
mas também estratégias de ponto de venda e, no longo
prazo, a gestão da própria imagem da empresa. Hoje
em dia, o modelo de agência que o marketing eficiente quer
comprar não pode ser o de uma agência que acredite
ingenuamente no poder da arte da publicidade, no poder da criação.
E nem tampouco em agentes autônomos que se confundam com essa
miríade de especialistas nas várias técnicas
e linguagens de marketing e promoção de vendas, pesquisas
quali e quanti, laboratórios disto e daquilo, profissionais
às vezes muito bem afiados, eficazes, mas que precisam se
articular com outros para ter uma visão estratégica
do marketing do anunciante e alcançar o retorno esperado.
UM MARKETING PARA O BRASIL: O DESPERTAR
DA CIDADANIA
Nestes anos todos, passei a estudar
o meu país, sua política, sua organização
social, antropologia, sociologia, história e economia, para
entender a estratégia de argumentação que a
cultura brasileira teria diante dela própria para produzir
o seu lema, a sua marca, para marcar e disputar com outras culturas
o seu lugar no mundo globalizado, num mundo em que cada dia mais
as nações se relacionam em prol de entidades multinacionais,
organismos multinacionais, principalmente as do terceiro setor.
Em suma, como a cultura brasileira
se articula, qual seria o papel das elites na produção
dessa cultura, sua diferenciação e inserção
na cultura globalizada. E, a nível interno, como se daria
a incorporação de um mercado de classes sociais emergentes,
um novo consumidor brasileiro, consciente dos seus direitos de consumo,
dos seus direitos de usuário de qualquer serviço,
numa palavra, mais cidadão. Não apenas pelo aprimoramento
da educação, nem tampouco pelo aprimoramento da justiça,
que são as duas instituições que produzem consciência
de direito, que produzem cidadãos. Mas, sobretudo, pelo papel
da própria mídia.
Talvez o Brasil seja a única
cultura na tradição do mundo ocidental que tenha a
chance de poder transformar exatamente a precariedade de seus sistemas
judiciário e educacional na produção da cidadania
e consciência de direito através da mídia, se
aproveitando da mídia que, em outros países, tem um
papel acessório e secundário na formação
da cidadania. Aqui, além de adquirir um papel prioritário,
a mídia ocupa verdadeiramente o espaço que as instituições
clássicas de formação da cidadania, como a
justiça e a educação, não ocupam.
Ou seja, o papel que o sistema de comunicação brasileiro
exerce na formação desse novo cidadão brasileiro
e, portanto, a condição de possibilidade de formação
de um novo homem, ou de uma classe social emergente consumidora
nos grandes centros urbanos, usuária de serviços,
públicos e privados, e consumidora de bens de capital ou
de consumo, está sendo produzida por uma entidade que usualmente
não é tradicional na formação da cidadania.
O BRASIL PODE DESENVOLVER UM GRANDE
E SUI GENERIS SISTEMA DE PRODUÇÃO DE CIDADANIA ATRAVÉS
DA PRÓPRIA MÍDIA
Pois, tanto técnica quanto
conceitualmente, nosso sistema de comunicação é
comparável a qualquer sistema de comunicação
do mundo. Voltado mais ao entertainment, sim, mas também
voltado a um modelo de informação e de veiculação
de cultura ou de conhecimento. O Brasil tem a grande possibilidade
de formar o novo homem brasileiro, o novo cidadão brasileiro,
consciente dos seus direitos, pela via do entretenimento da TV brasileira.
E, com isto, refazer o pacto social da nação. Este
é o poder da televisão brasileira: veicular formação
cultural. A grande diferença da mídia brasileira para
a mídia européia é que esta última é
por demasia educativa, por demasia formadora de opinião e
informativa, em detrimento do entretenimento. E a mídia americana
é mais entretenedora do que veículo de educação,
até porque já tinha esta última função
social muito bem resolvida pelo próprio sistema educacional.
O Brasil tem a oportunidade de oferecer ao mundo uma experiência
diversa, e peculiar da cultura brasileira, que é ter um sistema
de comunicação eqüidistante e equilibrado entre
veiculação de educação de formação
humana e de entretenimento.
Não se trata de "tele-educação",
não se trata de pedagogia à distância, mas,
sim, de introduzir, através do jornalismo, um pouco mais
de argumentação quanto ao valor da cultura brasileira,
despertar a auto-estima do cidadão e sua consciência
de direitos e deveres diante de todo o corpo social.
Ou seja, produzir uma marca nesta
cultura que convença o homem comum de que vale a pena estimar
o Brasil, de que vale a pena pagar os impostos e contribuir para
com o todo da sociedade, de que vale a pena ter esperança,
ter um projeto de nacionalidade, salvaguardar as instituições,
enfim, acreditar no outro, amar seu semelhante. Vale a pena ser
solidário, ao invés de pensar que o Brasil é
uma metáfora de jeitinho, de esperteza, de malandragem. Esse
novo nacionalismo não quer acreditar apenas nos valores fictícios
da pátria, da bandeira - preservados na tradição
da caserna brasileira - mas sim acreditar em valores do civismo,
da tradição civil brasileira. Até um pouco
religiosa, o que explica um pouco o fenômeno do crescimento
das igrejas na mídia brasileira nas últimas décadas.
Por que a religião tem sido sucesso de televisão e
de disco no Brasil? Por causa desse vazio das elites, de seu silêncio
e omissão com relação aos valores das instituições
nacionais, principalmente da Justiça. Só existe um
Bispo Macedo, um Padre Rossi ou um Caio Fábio porque não
existe Justiça. Só existe um Ratinho e seu tribunal
sumário fora de qualquer processo de direito formal, só
existe este juiz demagogo das grandes injustiças sociais,
porque é falha a instituição da Justiça.
Porque não existe um Poder Judiciário tão transparente
diante da opinião pública quanto se encontram hoje
o Poder Legislativo e, sobretudo, o Poder Executivo.
Conseguimos nutrir alguma esperança
e votar nos representantes do nosso Poder Executivo e Legislativo,
mas nutrimos um grande descrédito pelo nosso Poder Judiciário.
E isso é muito grave. Por isso, há esse vácuo
na mídia preenchido por esses profetas da desgraça,
pseudo juízes.
A mídia pode produzir um misto
de jornalismo e de campanha da propaganda civil que acredite nos
valores da sociedade civil, na tradição de solidariedade,
de auto-estima, de afirmação de um novo patriotismo,
da convicção de que cada cidadão contribua
efetiva e decididamente para que esse cidadão emergente se
encontre a si mesmo.
Esta é a grande marca a se
conseguir no Brasil. É a grande missão, a grande cruzada;
a própria finalidade da cultura brasileira no final deste
século. O modelo da tradição brasileira é
o do índio derrotado, do Peri, o do Macunaíma alegórico,
um modelo auto-crítico, de alegoria crítica negativa,
é o modelo do Jeca Tatu. São sempre derrotados, vencidos.
Isto quer dizer que a imagem que o Brasil tem de si próprio
é uma imagem de antemão derrotada.
A comoção brasileira da perda de heróis nacionais
como um Ayrton Senna, Garrincha, Getúlio, Tancredo, Juscelino,
é a de um país que tem a sensação difusa
de que, quando ele começa a acertar, quando ele tem alguém
enfim a quem respeitar, que tem ascenção sobre ele
próprio, que o dignifique, que o bem represente, que o faça
se sentir digno diante de si próprio, que seja um grande
símbolo nacional, esse símbolo é destruído.
Essa vocação da derrota, da tragédia nacional,
eu acho que está com os dias contados. Nós precisamos
conseguir, via meios de comunicação, desenvolver uma
grande auto-estima nacional, independente de heróis e com
a face anônima do cidadão comum.
Estudei do jardim de infância
até o Mestrado em Filosofia em escolas e instituições
públicas que não trocaria por nenhuma outra paga e
privada. Por isso me dedico a devolver ao meu país o que
dele recebi. Essa é a contribuição que, como
profissional, pensador e comentarista da mídia, devia à
cultura brasileira. Foi por isto que, nos últimos 20 anos,
eu me preocupei em estudar a questão da estratégia
da argumentação. A publicidade eu chamo de arte ingênua.
O modelo não é meu. A "Nova Retórica"
já falava disso. É uma escola francesa, a Nouvelle
Réthorique de um teórico franco-belga chamado Chaim
Perelman. Depois, ela foi transposta para os EUA, como New Rethoric.
Tanto nos EUA quanto na Europa, concorrem para essas escolas não
apenas acadêmicos ou estudantes de filosofia, psicólogos,
antropólogos ou sociólogos. Acorrem sobretudo os profissionais
engajados nas atividades que requeiram esforço retórico,
como advogados, procuradores, juízes, publicitários,
homens de marketing, assessores de comunicação, políticos,
oradores, homens de venda. Voltando agora para o meu ofício
numa agência de publicidade, com estes dois momentos embasados,
um na teoria da arte e outro na teoria da argumentação:
a teoria da arte me fez reconhecer um valor da cultura brasileira
como digna, embora ingênua, de toda a tradição
da estética publicitária no mundo. E o outro me fez
voltar ao Brasil, ao meu país e mercado, para lhe propor
uma novo pacto social, através de uma grande campanha de
auto-estima de nossa cultura, o grande marketing que temos pela
frente, a grande marca que temos de construir. E não só
em prol do país, mas de um marketing/mercado cada dia mais
consciente de direitos e de cidadania, é que se estabeleça
o clássico equilíbrio entre a arte e argumentação,
o efeito da estética e a arte da retórica.
(*) A Arte da Publicidade, de Jorge
Maranhão, Ed. Papirus, 1988.
(**) Mídia e Cidadania, de Jorge Maranhão, Ed. Topbooks,
1993.
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