Estamos em ritmo de Copa do mundo e torcer pelo Brasil é quase um dever de cidadania. Mas, criticar nossos cartolas, pode? Qualquer cidadão mais atento já deve ter se perguntado por que nossos campeões tem de cantar tão mal o hino nacional brasileiro. Por que uma CBF que pensa em tudo, dá show de providência, fatura e gasta milhões com a festa de maior expressão de nosso patriotismo, não exige de nossos craques este compromisso mínimo de quem pretende se tornar exemplo para milhões de jovens brasileiros? Como se não fosse importante o respeito cívico aos símbolos nacionais, sobretudo diante da inevitável comparação com as demais seleções cantando seus hinos com o ardor e a correção de quem se sabe ídolo e está a defender as próprias cores da pátria.
Nem quero voltar ao tema da omissão de nossos legisladores em relação aos projetos de lei que pretendem reintroduzir no currículo do ensino público as disciplinas de cidadania, moral e cívica e estudos dos problemas brasileiros, matérias tão essenciais quanto às demais obrigatórias, sobretudo em tempos de cabal deterioração de nossos costumes políticos. E o pior é que, no lugar de levar civilidade aos jovens, se leva mais agressividade. Como se não bastasse a do próprio jogo pela hesitação dos juízes e omissão da CBF e da FIFA, fico estarrecido com as campanhas veiculadas. Veja-se como exemplo o comercial de um dos patrocinadores das transmissões de TV, uma companhia de cerveja. Nele, os jogadores são incitados a serem guerreiros, a lutarem como gladiadores, colocando o Brasil contra o resto do mundo, numa Copa de batalha. Soube, inclusive, que a campanha chegou a ser levada ao CONAR, órgão que regulamenta a publicidade no Brasil, e sua veiculação teria sido aprovada. O que não atenua, mas agrava a irresponsabilidade social de executivos e autoridades. Uma vez em jogo a formação de milhões de jovens para os valores éticos mais em falta no contexto da vida política e social brasileira, em plena crise de segurança, tolerância, convivência, legalidade, altruísmo, lealdade, honra, gentileza, nobreza e tantos mais.
Não bastasse o hino truncado no evento de maior audiência mundial, a educação pública precária, a cultura dominante de violência social e violação legal do país, a natural agressividade humana, a troca do futebol-arte pelo futebol-batalha é realmente uma eloqüente demonstração do desentendimento do que seja cidadania no Brasil de hoje.
* Jorge Maranhão é diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão. Email jorge@avozdocidadao.com.br
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