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A queda dos muros cognitivos
Por:
Em: 26/11/2009
 

Sempre houve alternativas visões de mundo. São os nossos mapas cognitivos, antigos como as mentes. As crenças primitivas, as corrente filosóficas, as religiões, as ideologias e as teorias científicas formulam e transmitem essas diversas visões de mundo. Diferentes grupos humanos adotam crenças distintas para moldar suas práticas sociais e coordenar os esforços de cooperação econômica entre seus indivíduos. Um mecanismo evolucionário de seleção institucional preserva o que funciona e descarta o que ameaça a sobrevivência desses grupos humanos.

A queda do Muro de Berlim, há duas décadas, marca o esgotamento e o descarte de uma extraordinariamente influente visão de mundo. Não foi apenas o reconhecimento do colossal equívoco intelectual que forma as pretensões científicas do socialismo.

Foi também uma rejeição do socialismo real pelos próprios praticantes mais comprometidos com essa visão de mundo. Diversos grupos humanos rejeitaram simultaneamente o regime socialista exatamente por suas práticas desumanas.

A extinção das liberdades políticas, a supressão das iniciativas econômicas, as violações dos direitos humanos, a perseguição às religiões, o constrangimento à criatividade científica e a repressão à livre expressão artística empurraram centenas de milhões de indivíduos contra os muros das prisões cognitivas que ameaçavam seu bem-estar material e espiritual, e até mesmo sua existência física.

À exceção de variantes exóticas como a bolivariana — o “socialismo o muerte” de Hugo Chávez —, o que se pode observar em todo o mundo é o ocaso de ideologias radicais. Da mesma forma que o liberalismo clássico dos séculos XVIII e XIX foi politicamente enterrado por sua insensibilidade ao sofrimento humano e às desigualdades sociais, sua antítese socialista fracassou miseravelmente em escala planetária.

Sua vocação totalitária provocou alternativas igualmente ferozes à direita, como o nacional-socialismo e o fascismo, ameaçando também a própria existência das democracias liberais em duas guerras mundiais e no longo inverno da Guerra Fria.

Após toda a experimentação institucional do século XX, a marca do novo século é exatamente a síntese da Grande Sociedade Aberta, novo paradigma da civilização ocidental. De um lado, temos a herança das democracias liberais, com a democracia representativa, o estado de direito e as economias de mercado. E, de outro lado, uma herança milenar das grandes religiões e, ironicamente, do socialismo que tanto as combateu: a solidariedade, as redes de proteção social por meio da ação descentralizada do Estado.

As ideologias radicais estão superadas por essa síntese. Tanto o liberal-democrata quanto o socialdemocrata estão no centro do espectro político. Para superar a desesperança com o socialismo e a perplexidade ante o capitalismo global em crise, teremos de ir muito além da esquerda e da direita.

* Paulo Guedes é sócio e diretor-estrategista da Fiducia, além de membro de seu Comitê Executivo. Foi diretor e um dos sócios fundadores da JGP Asset Management. Foi também sócio-fundador do Banco Pactual S/A e sócio-presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais – IBMEC.
 
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