Lançada na semana do carnaval, a campanha publicitária contra a violência, nascida de uma glosa do publicitário Nizan Guanaes sobre uma chamada de capa da revista Veja, “E aí? Nós não vamos fazer nada?”, espalhou cartazes e spots de rádio pelo país.
Segundo o publicitário, a idéia é motivar os cidadãos para que se manifestem e façam alguma coisa pelo fim da violência urbana. Seguindo o mote da campanha, o colunista Diogo Mainardi a considerou errada, assim como a declaração da atriz Luana Piovani, de que se sentia culpada pelo fato de estar a brincar no carnaval enquanto a sociedade estava chocada com o problema da criminalidade.
À primeira vista, pode parecer isso mesmo: sob a ótica da cidadania, é preciso que todos nos manifestemos, dando nossa opinião e conclamando outros a sacudir a abulia geral. Mas, não se trata apenas disso e, quando celebridades declaram que “o problema é da sociedade, e não do governo” precisam assumir a responsabilidade política de mais uma vez desmobilizar a cidadania com a diluição da culpa por toda a sociedade, pois, se todos são culpados, não há culpados...
Trata-se, na verdade e mais uma vez, de uma concepção distorcida do que deva ser uma ação de cidadania mais conseqüente e efetiva. Que só pode ser exercida pelo controle social dos cidadãos eleitores e pagadores de imposto sobre os mandatos dos políticos, os governos e a correta aplicação dos orçamentos públicos. Ou seja, a responsabilidade é, sim, do Estado, e não da sociedade. Se a máquina do Estado não funciona, o maior ato de cidadania é o de responsabilizar a incompetência objetiva dos agentes públicos do Estado brasileiro em cumprir sua missão essencial de nos servir de segurança e justiça eficientes em troca dos altos impostos que nos cobra! Ao invés de mais uma vez comprarmos a “explicação” acadêmica de nossos fracassos pelas nossas raízes colonizadoras, as deformações culturais da tradição luso-ibérica e outras preciosidades das calendas gregas.
Quando, no rastro da convocação da campanha, e da sucessão de crimes vomitados diariamente pela mídia, sem a pronta resposta do poder público, cria-se um clima de desmobilização geral da cidadania reforçado pela nossa cultura de eterna auto-comiseração coletiva, a pajelança de nosso fracasso civilizatório e a fatalidade histórica de nunca darmos certo. Enquanto as autoridades se servem da mídia apenas para tirar o corpo fora e mais uma vez diluir a responsabilidade para toda a sociedade. Quando, ao contrário do sucateamento de nossos sistemas de educação e das instituições jurídico-políticas, como tradicionais sistemas de reprodução social de conhecimento e valores, temos exatamente na mídia, de notória excelência técnica e profissional, nossa última chance de iniciar o processo de reconstrução simbólica de nossos valores, fortalecer a cultura de cidadania e salvar o país do abismo iminente da barbárie. E assunto não falta a um sistema de mídia mais responsável e efetivamente interessado em monitorar e divulgar a ação mais conseqüente da cidadania. A cada dia que passa, mais cidadãos se dispõem a fazer uso das ferramentas institucionais para exercer pressão sobre o Estado. Instituições como os ministérios públicos, as ouvidorias e corregedorias dos mais variados setores do poder público, acusam índices recordes de recursos de entidades da sociedade civil, inclusive na internet, o espaço mais democrático de informação e opinião. Mais que manifestar e fazer passeatas pela paz, estamos a agir cada dia mais no sentido de cobrar responsabilidade política dos governos. O que me espanta é que não apareça uma mísera autoridade capaz de se responsabilizar pela tragédia que vivemos e, no mínimo, pedir desculpas às famílias e a toda sociedade pela incompetência e ineficiência com que conduzem a missão primordial do Estado de garantir a vida e a segurança dos cidadãos.
Nesses momentos, e para fugir das imagens de derrota, vou ao cinema atrás de esperança. E de repente me vejo diante do impressionante documentário Pro dia nascer feliz sobre o estado da educação no Brasil. Meio ao mundo-cão das escolas das favelas das periferias do Rio e São Paulo, depredadas e largadas à incúria das autoridades públicas, professores fingem ensinar e alunos fingem aprender, aqueles cativos do terror de alunos delinqüentes e estes do narcotráfico que os alicia para o ilusório mundo de conquistas fáceis. Os depoimentos que se seguem são de cortar o coração. Jovens de menor afirmando com escárnio que não tem lá muito problema roubar alguém ou até mesmo matar se for para livrar a cara. Além do que, sai na televisão todo o dia que políticos e autoridades roubam muito mais e não são presos. O noticiário “justificaria” que o crime no Brasil compensa! Ao contrário da América dos anos da grande depressão e da máfia de Al Capone, em que a legenda do Crime doesn’t pay não foi apenas mais um slogan lançado ao ar da opinião pública, mas um programa de ação deliberado e articulado entre membros da magistratura, do empresariado mais esclarecido e da mídia mais responsável, para o resgate dos valores do estado democrático de direito contra a barbárie dominante. Pois a cidadania brasileira não quer mais aceitar as “explicações” acadêmicas de nossa exclusão social ou da degradação ética dos costumes, que sempre devolvem o problema para nós mesmos. E caminha na convicção de responsabilizar a incompetência objetiva do Estado brasileiro em cumprir sua missão essencial de nos servir de segurança e justiça eficientes em troca dos altos impostos que cobra! Pro dia nascer feliz mostra meninos que podem vir a ser martirizados, sem atingir sequer a idade de Tiradentes, que sabia muito bem que um Estado inepto e ausente na garantia da justiça e da vida é sempre onipresente na derrama!
Jorge Maranhão é publicitário e diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão. Email jorge@professa.com.br |