Há dois anos, numa reportagem sobre bairros da cidade, visitei a localidade chamada Portão Vermelho, na Rocinha, e me deparei com uma cena assustadora.
Uma extensa área havia sido desmatada, poucos dias antes, e cerca de 30 barracos de madeira, pano e lata se amontoavam por entre pedras e terra. Ali perto, meninos balançavam-se perigosamente num cabo de aço amarrado a um galho de árvore.
O cabo de aço era o que restara do eco-limite daquele local, destinado a ser um parque ecológico para os moradores, um “santuário”, que deveria ser protegido por todos. Em cada um dos barracos morava gente muito pobre, e, ao perguntar como tinham chegado ali, soube que alguns tinham vindo de outras áreas da Rocinha, despejados pelo aluguel galopante; outros admitiram que estavam sendo pagos para guardar o espaço de olho em futuras indenizações.
Para se ter idéia das condições desumanas em que viviam aquelas pessoas, o local foi apelidado de Cobras e Lagartos. Um dia acordavam com uma cobra ao lado, no dia seguinte com um lagarto.
O desmatamento foi amplamente denunciado pela liderança comunitária da época, mas nem a região administrativa, nem a subprefeitura, o urbanismo, o meio ambiente, a habitação, ninguém tomou a menor providência. Ao contrário, na CPI da Desordem Urbana, conduzida pela vereadora Aspásia Camargo, essas lideranças foram ameaçadas, desqualificadas e passaram por situações constrangedoras.
O governo do estado pretende construir um novo ecolimite, desta vez em forma de muro, e reassentar em local seguro as atuais 400 famílias de Cobras e Lagartos, e outras centenas das localidades como Macega, Roupa Suja e Laboriaux – áreas de mata e de risco. Haverá reflorestamento e o parque, finalmente, será realidade. É esse o plano anunciado.
A construção do muro não é motivo de júbilo ou comemoração, nem para os moradores da Rocinha e das outras comunidades, nem tampouco para os cariocas de outros bairros. É o sinal definitivo, concreto em todos os sentidos, do fracasso do Estado - e da sociedade que há mais de 20 anos escolhe livremente seus governantes. Impossível, entretanto, negar sua previsibilidade.
A expansão horizontal não produziu todo o crescimento desordenado da Rocinha. Mas ele também aconteceu. E onde o ecolimite foi um despretensioso muro feito há 20 anos, como na localidade conhecida como 199, no Alto Gávea, a mata prevalece exuberante. Na realidade, é o crescimento vertical desenfreado, uma especulação imobiliária à la faroeste, o principal fator do adensamento e da perda da qualidade de vida dos moradores.
Hoje, na Rocinha, falta água, luz, o esgoto explode, o lixo se acumula, o trânsito mata, assim como matam a tuberculose e outras doenças, diante da falta de sol e de ventilação adequada. Os grandes proprietários da Rocinha já não vivem lá. Apenas retiram dali o seu sustento.
Além de salvar a mata, portanto, é preciso, também, cuidar de gente e dar condições urbanísticas, sociais e legais para a transformação definitiva da Rocinha em bairro. Se há um consolo em toda essa história é constatar que, da forma como será construído, o muro não vai separar pessoas, não vai esconder a comunidade, não vai impedir o ir e vir entre os bairros. Afinal, ninguém chega ou sai da Rocinha para São Conrado e Gávea – e vice-versa – dando a volta pela mata. O muro tampouco exclui a execução de trabalhos de educação ambiental, trilhas e passeios ecológicos, reflorestamento. Comparar esse aí com o Muro de Berlim ou o muro de Jerusalém, por menos que gostemos de muros, vai além da imaginação. Há muito que protestar na forma como a política de segurança tem ignorado direitos humanos básicos ao entrar nas favelas para combater o tráfico. Mas o muro não se inclui aí. O muro protegerá a mata, as cobras e os lagartos, que ficarão onde devem ficar. Do outro lado, longe das pessoas.
*Andrea Gouvêa Vieira é vereadora no Rio de Janeiro.
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