Publicado no jornal O Globo em 07/04/2008
“O pano de fundo da Renascença, esse fenômenos do espírito
humano promovido essencialmente por um grupo de indivíduos de excepcional
talento, foi um ritmo de crescimento e uma difusão de riqueza até
então jamais experimentados na História do mundo”,
registra Paul Johnson, em sua obra “A Renascença: uma breve
historia” (2000).
Novas tecnologias, a expansão do comércio e dos serviços
bancários, a invenção da imprensa espalhavam conhecimento
e criavam riqueza em escala nunca vista. “Os que acumulavam riqueza
gratificavam seus sentidos patrocinando a literatura e as artes, acompanhados
por soberanos, papas e príncipes, que taxavam as novas fortunas
de seus súditos”, prossegue Johnson.
Pois bem, um fenômeno semelhante pode estar em curso. “Estamos
no limiar da Renascença asiática. A modernização
da Ásia vai reconfigurar o mundo que conhecemos. Em nenhum lugar
em qualquer época a humanidade desfrutou o progresso econômico
ao ritmo em que ocorre na Ásia. A região deverá
se tornar econômica, política e culturalmente a referência
do novo milênio”, prognostica John Naisbitt, em “Megatendências:
Ásia” (1996).
É claro que se trata de um exagero quanto à dimensão
cultural. Há poucas chances de que surjam na China, a partir
de cópias de produtos industriais americanos (em contraste com
a reinterpretação dos clássicos greco-romanos),
Dante e Petrarca, Erasmo e Montaigne, Michelangelo e Da Vinci. Embora,
como adverte Johnson, a Europa medieval (Ásia) também
fosse em muitos aspectos uma sociedade totalitária, pois a Igreja
Católica (Partido Comunista) não admitia divergências
quanto à orientação intelectual e espiritual, usando
o poder público para suprimir os hereges (dissidentes).
O impacto do capitalismo asiático sobre a economia global provoca
colossais ondas schumpeterianas de destruição criadora.
“A modernização da Ásia não pode ser
concebida como a ocidentalização da região. O catalisador
são as forças de mercado, mas a modernização
ocorrerá de forma tipicamente asiática. Deverão
superar competitivamente o Ocidente porque não carregam os encargos
trabalhistas e previdenciários de nosso ‘walfare state’.
Na Ásia, as famílias tomam conta dos seus, com destaque
na responsabilidade pessoal. O que explica taxas de poupança
de 30% e a ênfase em educação, de modo a honrar
valores e responsabilidades familiares”, alerta Naisbitt.
A dinâmica asiática estaria percorrendo rapidamente pelo
menos sete eixos de modernização. De tradições
e homogeneidade para opções individuais e diversidade.
Das exportações para o consumo de uma classe média
emergente. De áreas rurais para megacidades. Da agricultura e
manufaturas intensivas em mão-de-obra para as novas tecnologias.
Do planejamento central para a economia de mercado. Da discriminação
à participação feminina. E a conseqüência
do ressurgimento econômico asiático seria a mudança
do eixo de influência global do Ocidente para o Oriente.
* Paulo Guedes é sócio e diretor-estrategista da
Fiducia, além de membro de seu Comitê Executivo. Foi diretor
e um dos sócios fundadores da JGP Asset Management. Foi também
sócio-fundador do Banco Pactual S/A e sócio-presidente
do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais – IBMEC.