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A Renascença Asiática
Por:
Em: 10/4/2008
 
Publicado no jornal O Globo em 07/04/2008

“O pano de fundo da Renascença, esse fenômenos do espírito humano promovido essencialmente por um grupo de indivíduos de excepcional talento, foi um ritmo de crescimento e uma difusão de riqueza até então jamais experimentados na História do mundo”, registra Paul Johnson, em sua obra “A Renascença: uma breve historia” (2000).

Novas tecnologias, a expansão do comércio e dos serviços bancários, a invenção da imprensa espalhavam conhecimento e criavam riqueza em escala nunca vista. “Os que acumulavam riqueza gratificavam seus sentidos patrocinando a literatura e as artes, acompanhados por soberanos, papas e príncipes, que taxavam as novas fortunas de seus súditos”, prossegue Johnson.

Pois bem, um fenômeno semelhante pode estar em curso. “Estamos no limiar da Renascença asiática. A modernização da Ásia vai reconfigurar o mundo que conhecemos. Em nenhum lugar em qualquer época a humanidade desfrutou o progresso econômico ao ritmo em que ocorre na Ásia. A região deverá se tornar econômica, política e culturalmente a referência do novo milênio”, prognostica John Naisbitt, em “Megatendências: Ásia” (1996).

É claro que se trata de um exagero quanto à dimensão cultural. Há poucas chances de que surjam na China, a partir de cópias de produtos industriais americanos (em contraste com a reinterpretação dos clássicos greco-romanos), Dante e Petrarca, Erasmo e Montaigne, Michelangelo e Da Vinci. Embora, como adverte Johnson, a Europa medieval (Ásia) também fosse em muitos aspectos uma sociedade totalitária, pois a Igreja Católica (Partido Comunista) não admitia divergências quanto à orientação intelectual e espiritual, usando o poder público para suprimir os hereges (dissidentes).

O impacto do capitalismo asiático sobre a economia global provoca colossais ondas schumpeterianas de destruição criadora. “A modernização da Ásia não pode ser concebida como a ocidentalização da região. O catalisador são as forças de mercado, mas a modernização ocorrerá de forma tipicamente asiática. Deverão superar competitivamente o Ocidente porque não carregam os encargos trabalhistas e previdenciários de nosso ‘walfare state’. Na Ásia, as famílias tomam conta dos seus, com destaque na responsabilidade pessoal. O que explica taxas de poupança de 30% e a ênfase em educação, de modo a honrar valores e responsabilidades familiares”, alerta Naisbitt.

A dinâmica asiática estaria percorrendo rapidamente pelo menos sete eixos de modernização. De tradições e homogeneidade para opções individuais e diversidade. Das exportações para o consumo de uma classe média emergente. De áreas rurais para megacidades. Da agricultura e manufaturas intensivas em mão-de-obra para as novas tecnologias. Do planejamento central para a economia de mercado. Da discriminação à participação feminina. E a conseqüência do ressurgimento econômico asiático seria a mudança do eixo de influência global do Ocidente para o Oriente.

* Paulo Guedes é sócio e diretor-estrategista da Fiducia, além de membro de seu Comitê Executivo. Foi diretor e um dos sócios fundadores da JGP Asset Management. Foi também sócio-fundador do Banco Pactual S/A e sócio-presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais – IBMEC.

 
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