Competência ,compromisso e compaixão são características
essenciais para enfrentar a desigualdade,a desordem e o desperdício
que destroçaram a vida dos cariocas. O novo prefeito do Rio precisará
entender e valorizar a gestão técnica; firmar acordos
com a sociedade ,cumprindo metas , prazos, prioridade, implantando a
transparência e admitindo o controle externo das contas. Mas acima
de tudo precisará convencer a sociedade de que nutre pelos cidadãos,
não o sentimento da pena, mas uma paixão incondicional.
Hoje, quem é competente, é frio. . E quem tem coração,
ou não tem visão ou não tem gestão. Numa
eleição em que 95% da população não
têm candidato, preencherá o vazio quem falar à razão
e tocar no coração de todos - pobres, ricos e da esquecida
classe média dos nossos subúrbios que, pouco a pouco,
se tornou invisível aos olhos do administrador público.
O desafio do prefeito será reposicionar o Rio - no Estado, no
Brasil e no mundo - para arrancar a cidade de mais de 20 anos de estagnação
econômica. O Rio tem que crescer para reduzir a desigualdade pelo
menos em intensidade equivalente aos avanços alcançados
Brasil afora; para crescer ,precisa recuperar o controle do espaço
urbano, cumprindo as posturas municipais ,combatendo as atividades econômicas
ilegais e criando um ambiente propício ao empreendedorismo; estancar
o desperdício de nossas riquezas naturais e nossas bens sucedidas
experiências sócio-culturais, transformando-as em ativos
de crescimento econômico e em políticas públicas.
O Rio está órfão do futuro. E quem não
tem futuro, não tem presente.O tamanho do desafio para quem enxerga
o Rio em 2020 não pode levar ao imobilismo nos próximos
quatro anos. A resposta à desordem urbana pode e deve ser imediata.
As necessidades e demandas da sociedade devem ser levantadas por regiões
ou bairros, estabelecendo as prioridades com os moradores e amarrando
o compromisso,regionalmente,via orçamento anual, com metas e
avaliação do resultado. O isolamento do Rio se acentuará
se não for retomado de imediato o diálogo com os municípios
vizinhos para enfrentar questões como saneamento, meio ambiente,
saúde e transporte ,que exigem soluções metropolitanas.
O Rio ficará sozinho se não adotar o pragmatismo nas relações
com Brasília, trazendo de lá tudo o que é bom para
a cidade. Política é medicina. Precisa dar resultados.
Ninguém precisou entender a sofisticação teórica
do Plano Real para eleger duas vezes o mesmo Presidente. Bastou sentir
os benefícios do fim da inflação.
Daqui para frente, dependendo da competência e criatividade com
que forem articuladas as relações entre cidades e Estados,
agentes públicos e privados, os cariocas poderão se beneficiar
de um monumental mercado comum, nos moldes de uma comunidade européia,
uma megalópole que já se insinua no eixo Rio - São
Paulo - Minas Gerais.É burrice brigar com São Paulo. A
aliança deve ser consolidada em instituições de
novo tipo, privadas mas de interesse público, capazes de sobreviver
aos inevitáveis trancos políticos que virão a médio
e longo prazo.
O Rio passa por um posicionamento mundial. A cidade já teve
essa ambição no passado. O novo prefeito deve ser o articulador
internacional, o animador do establishment, criando condições
para o desenvolvimento da indústria da criação,
do turismo, da moda, do entretenimento, do lazer, da pesquisa, da educação.
Planejar para que a cidade fature em euros e o prefeito gaste em real.
Afinal todo mundo, literalmente, adora o Rio. Esse amor precisa ser
transformado em ativo econômico.
Será prefeito aquele que pensar com a ótica da sociedade
e não com a ótica político-partidária; aquele
que convencer a sociedade de que a habilidade para mudar não
vem do super-homem ,mas dos cidadãos comuns que acreditam na
mudança; que não existirá o mágico que sabe
tudo, mas um líder que a todos ouve , sem dizer às pessoas
apenas o que elas querem ouvir. Será prefeito aquele que mostrar
que vem despojado de ambições pessoais, trazendo na bagagem
apenas o compromisso com a melhoria da vida dos cariocas.
*Andrea Gouvea Vieira é vereadora na cidade do Rio de Janeiro