Liberdade é ter controle sobre a própria vida. Controlar a própria vida é algo que, eventualmente, gera conflitos com outros porque o homem vive em sociedade. Conflitos, portanto, são inevitáveis e o problema é como gerenciá-los. De forma simplificada, pode-se resolver este problema de duas formas. A primeira delas consiste em tomar parte - ou toda - a liberdade dos indivíduos em troca da segurança da coletividade. A segunda, por sua vez, consiste em potencializar ao máximo os benefícios da liberdade exigindo-se um mínimo de respeito dos membros da sociedade.
A primeira opção, como já ilustrado pela história, contém em si mesma a semente de sua própria destruição. O que começa com uma promessa de “civilização” termina quase sempre em ditadura. “Dar um pouco de sua liberdade” em troca de segurança é uma troca perniciosa. Quanto mais você perde em liberdade, mais alguém ganha em poder e o poder, como disse Lord Acton, corrompe. Ele também disse que “o poder absoluto corrompe absolutamente” e a maneira mais fácil de se obter poder absoluto é, justamente, através da erosão gradativa das liberdades individuais.
Diz-se por aí que “de boas intenções o inferno está cheio” e muitos bem-intencionados, sem perceber, apóiam apaixonadamente gente que promete mais segurança em troca da liberdade. Assim, é importante nos perguntarmos sobre o porquê de tanta gente abrir mão de sua própria liberdade, mesmo com tantos exemplos perigosos na história. Ocorre que a vida, maravilhosa dádiva que recebemos ao nascer, é algo cujo usufruto não é só intenso como diversificado. Mas este usufruto tem um preço: deve-se arrumar recursos para tanto. Estes recursos podem ser oriundos do trabalho, da violência, ou da apropriação consentida. No primeiro caso temos o mercado em funcionamento. No segundo, a violência e, no terceiro, o aparato político. Pode-se buscar o poder acumulando recursos sob qualquer uma das três formas mas apenas a primeira, o trabalho, está sujeita à maior concorrência de todos os membros da sociedade e é por isto que se observa uma correlação positiva entre liberdades políticas, civis ou econômicas e o desenvolvimento de uma sociedade.
Não apenas as alegrias, mas também os conflitos são parte da vida. Conflitos exigem que as partes envolvidas negociem e isto, claro, toma tempo. A responsabilidade individual, algo que alguns pais ainda ensinam a seus filhos, tem um custo elevado - e uma recompensa elevada também - o que facilita a entrega de parte de nossas liberdades para ingênuos bem-intencionados ou ditadores em gestação. Eis aqui, portanto, a importância do ensino e a difusão da importância da liberdade para uma sociedade. Não se trata de doutrina. Como disse Hayek, certa vez (reproduzo com minhas palavras): “a mente humana é incapaz de prever o que fará no segundo seguinte a este pensamento”.
Assim, ser liberal não significa apenas defender a liberdade (econômica, civil ou política), mas também ser humilde no reconhecimento das limitações do ser humano. A arrogância que tudo quer planejado sob regras detalhadas é o oposto do comportamento liberal. Não que sob um regime liberal não existam regras. Elas existem e, normalmente, são simples e genéricas. Embora pareça razoável que todos concordem com isto, “liberal” virou palavra feia na América Latina e, em nosso caso, no Brasil. De maneira ingênua - ou proposital - associa-se “liberdade” com o poder de grupos econômicos ou com ditaduras militares. Diz-se que os males do mundo moderno têm suas raízes no “individualismo” sem que se tome o devido cuidado em se diferenciar liberdade (”o indivíduo é o mais importante e deve ser livre com responsabilidade”) e libertinagem (”o indivíduo é o mais importante a qualquer custo, ou seja, sem responsabilidades”).
Por tudo isto é que devemos memorizar o título deste texto - “o preço da liberdade é a eterna vigilância” - lema do Cato Institute, o feliz patrocinador deste blog. Vigiar significa ensinar e preservar um conjunto de idéias, as liberais, que são, mais do que nunca, a solução para muitos dos problemas do Brasil, e não suas causas, como erradamente advogam alguns. Mais do que nunca, é hora de vigiar o governo e suas diversas tentativas de desativar, aos poucos, as liberdades do estudante, da mulher, do negro, do branco, do empresário, do idoso e do trabalhador. Gente que, antes de qualquer um destes rótulos, tem o mesmo direito à liberdade que você e eu pois são, sim, indivíduos.
Claudio Shikida é Doutor em Ciências Econômicas e professor/pesquisador do IBMEC-MG. É autor de vários artigos em periódicos científicos.
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