Tem sido o Brasil dividido de várias
maneiras. Sempre maniqueista, antinômica
e esquizofrênicamente tem
sido entendido o Brasil, pela inteligência
de plantão, sem meios tons,
sem meias tintas, nem meios termos.
Desde colonos e colonizadores, pagãos
e cristãos, os da casa grande
e os das senzalas, sinhozinhos e
patifes, seu doutor e a peãozada
de zé-manés. Há
os que fazem a síntese da
Belíndia e nos dividem entre
cidadãos da Bélgica
e párias da Índia.
Há os que nos rotulam de
uma nação de espertos
e de otários, privilegiados
e descamisados. O tal do estigma
de Gérson, da Lei da vantagem.
Mas a que levam
estes rótulos? Salvo o ego
massageado de nossa inteligência
por produzir insights de antropologia
de botequim, salvo os planos de
salvação da pátria
do discurso economicista em voga,
qual a proposta de fundo, que novo
contrato social se propõe
para o país como conteúdo
destes rótulos? Em que âmbito
do poder nacional se viabilizaria
uma nova estratégia de projeto
nacional a que efetivamente correspondesse
uma nova identidade nacional, ou
uma redefinição ética
da cultura brasileira?
A questão
é urgente, sob pena de a
parte desorganizada da sociedade
atropelar o Estado. Pois, ao par
de toda sorte de violência,
transgressão e impunidade
com que se narcotiza a nação
diariamente pelo maior sistema de
mídia do hemisfério,
cresce a desobediência civil.
O recente fenômeno do absenteísmo
dos contribuintes, o mesmo que se
espera para o próximo pleito
eleitoral, dá a medida e
o sintoma de que o Estado faliu.
Não apenas enquanto instância
de poder econômico redistributivo,
como quer se iludir o Presidente
da República, no seu superesforço
de articular a ação
governamental. Mas, o que é
muito pior, faliu como instância
de representação do
interesse público, persistindo
apenas como instância histórica
de representação de
interesses corporativistas privados
da parte da sociedade organizada.
Neste sentido,
sugiro humildemente que o supremo
mandatário admita que o Estado
deve se organizar como instrumento
da cidadania e que ele espiche sua
audição para os que
estão alheios ao poder. E
que, sobretudo, divida o poder.
Para que o Estado Brasileiro possa
efetivamente se dizer um Estado
de Direito, torna-se urgente harmonizar
os poderes. Penso que a superestima
dos poderes Executivo e Legislativo
está na razão direta
de uma subestima cultural e histórica
pelo poder Judiciário. Se
o esforço de modernização
do Executivo e do Legislativo não
chega para garantir os direitos
essenciais da cidadania, quem sabe
se um Estado forte na promoção
da Justiça, na garantia dos
direitos e na cobrança dos
deveres civis, não seria
neste momento a grande contribuição
estratégica? Pois, se há
um consenso hoje em dia, no âmbito
da inteligência nacional e
da parte mais esclarecida da cidadania,
é o de que não precisamos
mais de leis, decretos, portarias,
nem planos, choques ou pacotes,
da tabelinha viciada entre Executivo
e Legislativo, se não que
precisamos com urgência que
se regulamentem e apliquem as leis
existentes. Para que se tente evitar
que o slogan da revolta de Los Angeles
venha a calhar para os saques de
supermercados: no Justice, no Peace.
A mídia
brasileira reflete bem o entendimento
esquizofrênico que as elites,
com honrosas exceções,
tem do Brasil: ou corteja o Executivo
ou cobre o Legislativo. Seu valioso
e estratégico espaço
de comunicação tem
sido ocupado pela transgressão
e toda a sorte de delitos. Do telejornal
a telenovela, o que se vê
são os delitos das elites
impunes, pela relação
de prevaricação com
o poder econômico de um Estado
bicefalido entre Executivo e Legislativo.
Quando sobra um mínimo de
espaço para a publicidade
da pena, como exigência didática
de sua exemplaridade, o que se vê
é a punição
dos mais fracos, dos ladrões
de galinhas, dos crimes comuns das
legiões dos que já
vivem na penitência diária
do desamparo social, sem emprego,
sem saúde, sem educação,
sem comida nem casa.
E eis que um novo
rótulo para compreender o
Brasil se torna irresistível:
uma nação dividida
entre impunes e penitentes. Ambos
os termos vindos do latim poena,
repoenitere, que produz o radical
pena, de penalizar, penitenciar
e arrepender. Ouso afirmar que este
novo rótulo traz um conteúdo
de entendimento não só
do estado esquizóide da nação,
como da parte privilegiada pelo
Estado. E denuncia sobretudo a prioridade
estratégica de promoção
da Justiça como a maior e
mais imediata obrigação
do Estado nos dias de hoje. Se o
Estado de Direito é cativo
dos impunes, os que promovem o escárnio
da Justiça, em que justiça
darão crédito os penitentes,
salvo a justiça de Deus ou
a das próprias mãos?
Não veja na mídia
o inimigo, senhor presidente, eleito
dos penitentes. Se ela denuncia
a promiscuidade de um Estado a serviço
dos impunes, ela se legitima como
o meio mais eficaz de produção
da cidadania, sobretudo para servir
aos que o elegeram e há muito
têm sede de justiça.
Jorge Maranhão
Publicado no Jornal
O Globo em 07.07.92