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E a mídia? Também pensa que o crime compensa?
Por:
Em: 20/4/2007
 
Vejo o debate na mídia nacional sobre alternativas de políticas de segurança pública e fico me perguntando se as elites políticas e econômicas querem de fato combater exemplarmente o crime no país.

A mídia anda histérica. O noticiário sobre toda sorte de delitos e delinquências transborda os espaços normalmente reservados para o plantão policial. Invade e ocupa as editorias nacional e política. E quando qualquer cidadão resolve cobrar a sua (dela) responsabilidade social no fenômeno da violência fica sem espaço para se manifestar. Juntam-se as autoridades federais e estaduais e a pauta das soluções encontradas é sempre o mesmo ramerrão de investir mais no aparelho repressivo do estado. As mesmas elites que sempre deitam falação sobre a educação formal, como prioridade inquestionável para o desenvolvimento do país, são incapazes de enxergar a educação para a cidadania, e o papel da mídia neste programa, como uma aposta inovadora para a solução da crise brasileira de segurança. Enquanto isso, vão blindando carros, privatizando ruas públicas, engradando casas e condomínios, contratando exércitos paralelos de seguranças, xeretando com câmeras de vídeo a privacidade alheia, como se trocar projetos inovadores no âmbito da segurança pública pelo maior volume de investimento em segurança privada do mundo resolvesse alguma coisa.

Fico intrigado com o fato de os casos mais espetaculosos de sequestros tenham sido exatamente os dos mais célebres profissionais da própria mídia, desde Roberto Medina e Luiz Salles até mais recentemente os de Silvio Santos e Washington Olivetto. Como se o crime organizado mandasse para a cidadania desorganizada um macabro e cifrado recado sobre a que papel deva se limitar nessa mais recente escalada da violência nacional: não adianta a mídia fazer show, faturar audiência com os escândalos, pois a nossa tradição cultural nos atesta que no Brasil o crime compensa...

Importamos do American way of life a cultura do pragmatismo e as expressões linguísticas, os produtos e as mercadorias, sobretudo os da indústria cultural, o estilo de vida, as modas e o comportamento social. No entanto, alguns de seus conceitos políticos mais banais e bem sucedidos, não pensamos ou conseguimos importar. Como por exemplo, a própria idéia de que o crime não compensa, o bem sempre acaba por triunfar e a fé na cidadania organizada que vence qualquer adversidade.

Instituições e programas americanos como o Public Citizens, League of Women Voters e Crime Stoppers foram organizados e venceram a barbárie da violência institucionalizada da América desde os anos 20, não apenas pela iniciativa da cidadania, mas também pelo apoio do establishement político, jurídico e sobretudo da própria mídia americana. Aliás, a adoção do próprio slogan crime doesn’t pay teria sido inviável sem o efetivo engajamento dos grandes jornais americanos e, sobretudo, pela disseminação do gênero dos trial movies hollywoodianos. Temos capacidade de produção e tecnologia de comunicação de primeiro mundo, de rádio, cinema, jornal e televisão. Já a mentalidade... Enquanto preferirmos importar do big brother apenas a onda do entretenimento alienado e voyeur...

Não tenho mais paciência com as alegações de ordem histórica e cultural com que a chamada “inteligência” brasileira pensa rota e esfarrapadamente a questão da violência e da impunidade. Talvez para desculpar a sua omissão em agir diz que é a própria cultura que pensa que o crime compensa...

Como profissional, passei duas décadas estudando o fenômeno da violência e da impunidade sob a perspectiva da mídia, e tenho convicção que pelo menos meia dúzia de iniciativas e ferramentas o sistema de comunicação brasileiro - tão competente para produzir entretenimento e diversão e nem tanto para projetar a imagem de respeito, dignidade e auto-estima da cidadania brasileira - dispõe para colaborar e fazer a diferença num programa nacional de combate à violência e impunidade:

  1. Balancear o noticiário denuncista e catastrofista de toda sorte de delinquência contra a pessoa e a propriedade, e sobretudo contra o patrimônio público, com o noticiário sobre suas punições exemplares.
  2. Distribuir melhor o espaço em excesso dado à cobertura jornalística do executivo e legislativo prestigiando mais o poder judiciário pois “a omissão da justiça é a mãe de todas as violências”.
  3. Equilibrar os itens da pauta do merchandising social das telenovelas entre o excesso de ações sobre educação formal, campanhas de prevenção de saúde pública, de trânsito, defesa do meio ambiente, as mais diversas formas de filantropia social, e os itens que contemplem mais as questões da própria consciência de direitos da cidadania, que são de ordem mais complexa mas nem por isso menos importantes, como as dos direitos civis coletivos e dos direitos políticos e econômicos.
  4. Estimular um grande programa de edição de cartilhas ilustradas ou fascículos populares sobre direitos civis coletivos, principalmente nas áreas dos chamados direitos difusos, econômicos, do consumidor, ambientais, tributários, de trânsito, e sobretudo dos direitos político-eleitorais. Bem como distribuição de materiais promocionais, site interativo com serviço de difusão e campanha de publicidade.
    Organizar seminários sobre o papel da imprensa, da publicidade e da indústria cultural, e sua responsabilidade social com relação ao fenômeno da superexposição e do estímulo involuntário à violência e à impunidade.
  5. Desenvolver programas de incentivo ao exercício da cidadania consciente e responsável para empresas e entidades com base na concessão de prêmios e no uso de certificados e selos de reconhecimento. Pois não há como inibir a tentação do crime apenas com a vigilância policial se não com a tolerância zero da vigilância anônima do próprio cidadão. Para que os pequenos delitos do cotidiano não se justifiquem pela ocorrência dos grandes es
Com os parcos recursos financeiros, conceituais e técnico-profissionais de que disponho tenho dedicado minha vida a pensar várias idéias e desenvolver alguns projetos sobre como a mídia pode de fato contribuir na questão do combate à violência e à impunidade ao mesmo tempo em que desenvolve a auto-estima da cidadania brasileira. Algumas delas até mesmo óbvias pela sua singeleza de produção e outras de execução mais complexa, mas todas no campo da mídia e da cidadania e reunidas sob a bandeira da Voz do Cidadão. Não tenho o talento promocional do Roberto Medina, a capacidade de articulação do Luiz Salles, a criatividade do Washington Olivetto nem os recursos do Silvio Santos ou de qualquer outro empresário concessionário de veículos de comunicação. Fica, no entanto, a sugestão de juntarmos forças todos os profissionais do setor, pois não acredito que a mídia possa realmente pensar que o crime compensa... Ou que tampouco a única saída para o Brasil seja o aeroporto...
 
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