Vejo o debate na mídia nacional
sobre alternativas de políticas
de segurança pública e fico
me perguntando se as elites políticas
e econômicas querem de fato combater
exemplarmente o crime no país.
A mídia anda histérica.
O noticiário sobre toda sorte de
delitos e delinquências transborda
os espaços normalmente reservados
para o plantão policial. Invade
e ocupa as editorias nacional e política.
E quando qualquer cidadão resolve
cobrar a sua (dela) responsabilidade social
no fenômeno da violência fica
sem espaço para se manifestar.
Juntam-se as autoridades federais e estaduais
e a pauta das soluções encontradas
é sempre o mesmo ramerrão
de investir mais no aparelho repressivo
do estado. As mesmas elites que sempre
deitam falação sobre a educação
formal, como prioridade inquestionável
para o desenvolvimento do país,
são incapazes de enxergar a educação
para a cidadania, e o papel da mídia
neste programa, como uma aposta inovadora
para a solução da crise
brasileira de segurança. Enquanto
isso, vão blindando carros, privatizando
ruas públicas, engradando casas
e condomínios, contratando exércitos
paralelos de seguranças, xeretando
com câmeras de vídeo a privacidade
alheia, como se trocar projetos inovadores
no âmbito da segurança pública
pelo maior volume de investimento em segurança
privada do mundo resolvesse alguma coisa.
Fico intrigado com o fato de os casos
mais espetaculosos de sequestros tenham
sido exatamente os dos mais célebres
profissionais da própria mídia,
desde Roberto Medina e Luiz Salles até
mais recentemente os de Silvio Santos
e Washington Olivetto. Como se o crime
organizado mandasse para a cidadania desorganizada
um macabro e cifrado recado sobre a que
papel deva se limitar nessa mais recente
escalada da violência nacional:
não adianta a mídia fazer
show, faturar audiência com os escândalos,
pois a nossa tradição cultural
nos atesta que no Brasil o crime compensa...
Importamos do American way of life a
cultura do pragmatismo e as expressões
linguísticas, os produtos e as
mercadorias, sobretudo os da indústria
cultural, o estilo de vida, as modas e
o comportamento social. No entanto, alguns
de seus conceitos políticos mais
banais e bem sucedidos, não pensamos
ou conseguimos importar. Como por exemplo,
a própria idéia de que o
crime não compensa, o bem sempre
acaba por triunfar e a fé na cidadania
organizada que vence qualquer adversidade.
Instituições e programas
americanos como o Public Citizens, League
of Women Voters e Crime Stoppers foram
organizados e venceram a barbárie
da violência institucionalizada
da América desde os anos 20, não
apenas pela iniciativa da cidadania, mas
também pelo apoio do establishement
político, jurídico e sobretudo
da própria mídia americana.
Aliás, a adoção do
próprio slogan crime doesn’t
pay teria sido inviável sem o efetivo
engajamento dos grandes jornais americanos
e, sobretudo, pela disseminação
do gênero dos trial movies hollywoodianos.
Temos capacidade de produção
e tecnologia de comunicação
de primeiro mundo, de rádio, cinema,
jornal e televisão. Já a
mentalidade... Enquanto preferirmos importar
do big brother apenas a onda do entretenimento
alienado e voyeur...
Não tenho mais paciência
com as alegações de ordem
histórica e cultural com que a
chamada “inteligência”
brasileira pensa rota e esfarrapadamente
a questão da violência e
da impunidade. Talvez para desculpar a
sua omissão em agir diz que é
a própria cultura que pensa que
o crime compensa...
Como profissional, passei duas décadas
estudando o fenômeno da violência
e da impunidade sob a perspectiva da mídia,
e tenho convicção que pelo
menos meia dúzia de iniciativas
e ferramentas o sistema de comunicação
brasileiro - tão competente para
produzir entretenimento e diversão
e nem tanto para projetar a imagem de
respeito, dignidade e auto-estima da cidadania
brasileira - dispõe para colaborar
e fazer a diferença num programa
nacional de combate à violência
e impunidade:
- Balancear o noticiário denuncista
e catastrofista de toda sorte de delinquência
contra a pessoa e a propriedade, e sobretudo
contra o patrimônio público,
com o noticiário sobre suas punições
exemplares.
- Distribuir melhor o espaço
em excesso dado à cobertura jornalística
do executivo e legislativo prestigiando
mais o poder judiciário pois
“a omissão da justiça
é a mãe de todas as violências”.
- Equilibrar os itens da pauta do merchandising
social das telenovelas entre o excesso
de ações sobre educação
formal, campanhas de prevenção
de saúde pública, de trânsito,
defesa do meio ambiente, as mais diversas
formas de filantropia social, e os itens
que contemplem mais as questões
da própria consciência
de direitos da cidadania, que são
de ordem mais complexa mas nem por isso
menos importantes, como as dos direitos
civis coletivos e dos direitos políticos
e econômicos.
- Estimular um grande programa de edição
de cartilhas ilustradas ou fascículos
populares sobre direitos civis coletivos,
principalmente nas áreas dos
chamados direitos difusos, econômicos,
do consumidor, ambientais, tributários,
de trânsito, e sobretudo dos direitos
político-eleitorais. Bem como
distribuição de materiais
promocionais, site interativo com serviço
de difusão e campanha de publicidade.
Organizar seminários sobre o
papel da imprensa, da publicidade e
da indústria cultural, e sua
responsabilidade social com relação
ao fenômeno da superexposição
e do estímulo involuntário
à violência e à
impunidade.
- Desenvolver programas de incentivo
ao exercício da cidadania consciente
e responsável para empresas e
entidades com base na concessão
de prêmios e no uso de certificados
e selos de reconhecimento. Pois não
há como inibir a tentação
do crime apenas com a vigilância
policial se não com a tolerância
zero da vigilância anônima
do próprio cidadão. Para
que os pequenos delitos do cotidiano
não se justifiquem pela ocorrência
dos grandes es
Com os parcos recursos financeiros, conceituais
e técnico-profissionais de
que disponho tenho dedicado minha
vida a pensar várias idéias
e desenvolver alguns projetos sobre
como a mídia pode de fato contribuir
na questão do combate à
violência e à impunidade
ao mesmo tempo em que desenvolve a
auto-estima da cidadania brasileira.
Algumas delas até mesmo óbvias
pela sua singeleza de produção
e outras de execução
mais complexa, mas todas no campo
da mídia e da cidadania e reunidas
sob a bandeira da Voz do Cidadão.
Não tenho o talento promocional
do Roberto Medina, a capacidade de
articulação do Luiz
Salles, a criatividade do Washington
Olivetto nem os recursos do Silvio
Santos ou de qualquer outro empresário
concessionário de veículos
de comunicação. Fica,
no entanto, a sugestão de juntarmos
forças todos os profissionais
do setor, pois não acredito
que a mídia possa realmente
pensar que o crime compensa... Ou
que tampouco a única saída
para o Brasil seja o aeroporto...