No século dezenove,
na corrida do ouro do oeste
norte-americano, os audazes
pioneiros usavam carroças
para a conquista e anexação
dos territórios indígenas.
Enquanto isso, na França,
com a ascensão da burguesia
mercantil e industrial urbana,
o transporte preferido da
cidade era o cabriolet, versão
mais compacta das grandes
carruagens da nobreza que
faziam o caminho para os palácios
fora de Paris. Já neste
século, na exuberância
do pós-guerra norte-americano,
a alta classe média
da Flórida e da Califórnia
montava em seus estofados
coupés rabo-de-peixe
com os traços sinuosos
da art nouveau.
Mas e a nossa brava burguesia
tupiniquim? Por que será
que está a montar em
blazers off-roads em plena
congestão do trânsito
das principais megalópoles
brasileiras? Não acredito
que seja por pura irracionalidade
a preferência por atravancar
de utilitários off-road
o trânsito on-road.
Para além de se sentir
mais alta e elevada, imagino
que deva se sentir mais segura
montada em suas blazers de
rodões largos, pára-choques
de caminhonetes de reboque,
lataria encouraçada,
com amplo e ocioso espaço
interno e todos os confortos
de um carro de passeio convencional:
ar condicionado, direção
hidráulica, som estereofônico
com cd, câmbio automático,
vidros elétricos, alarmes
e trancas eletrônicas.
É. A burguesia nacional
das grandes cidades está
apavorada dentro de seus mini-tanques
urbanos. Apavorada e isolada,
quase confinada em seus blindados,
engarrafando mais ainda o
trânsito infernal entre
os seus escritórios
e seus condomínios
igualmente isolados com grades,
cercas eletrificadas, câmaras,
alarmes e vigilantes, como
verdadeiros bunkers (ou guetos?)
de segurança máxima.
O que teme a brava burguesia
brasileira? A sociedade excluída
que ela própria ajudou
a criar na medida exata de
sua omissão pela responsabilidade
social? Quando faz a opção
de renúncia à
participação
social? Quando inveja Miami
e Orlando e finge não
ver as favelas que asfixiam
seus condomínios fechados
como ilhas de segurança?
Quando nutrem uma xenofilia
preconceituosa com relação
a tudo que venha de seu próprio
país e de seu próprio
povo, como se dele não
fizesse parte?
Baixasse um Brazilianist da
Yale University, Professor
Elder Brother, aqui nesta
terra enjeitada pela nata
de seus filhos mais ilustres,
aqui neste final de milênio,
e sem dúvida lhe sapecaria
o epíteto de The Brazilian
Blazer Bourgeoisie, a burguesia
brasileira da blazer, elite
invejosa e cega seguidora
das elites norte-americanas
que, ao contrário dos
Pioneers do Far West de um
século atrás,
não têm nenhum
projeto nacional. Apenas se
encagaçam ao parar
no próximo sinal fechado
de trânsito com medo
do próximo assalto
garantido pela próxima
omissão da polícia.
Mas, como não acredito
que somos irrecuperáveis
- e prefiro a crítica
positiva, quando uma eventual
maioria não pode responder
pela vontade da totalidade
de um grupo social - venho
aqui propor uma saída
honrosa para a nossa gloriosa
elite dos Blazer Bourgeois.
Venho aqui propor um projeto
nacional, antes que the cow
goes to the swamp, como diria
nosso Millôr Fernandes.
Um projeto de combate à
violência e à
impunidade vigentes que só
pode ser eficaz com a conscientização
e fiscalização
de toda a cidadania. Pois
se existe algo que realmente
não se pode delegar
para nenhuma autoridade constituída
é a nossa própria
consciência de cidadão.
E para acabar com a violência
e a impunidade generalizadas
não dá para
dar de ombros como se nada
tivesse a ver com a gente.
E que tal começar usando
esses poderosos veículos
4x4 como mídia de uma
Campanha pela Cidadania Consciente?
Já pensaram? De Brazilian
Blazer Bourgeoisie, os BBB
passariam a ser Brazilian
Blazer Brigade, se unindo
para formar a Caravana da
Cidadania Consciente. No mínimo
uma grande oportunidade de
se resgatar uma sigla de tão
lamentável memória.
A CCC passaria a difundir
o orgulho e o amor pelo nacional,
não no sentido estreito
de obsessão pela pátria,
numa atitude de xenofóbica
patriotada, mas no sentido
de resgate do orgulho nacional,
do amor, auto-estima e respeito
pelo nosso povo. Ao mesmo
tempo em que protegeria a
sagrada identidade e a privacidade
que tanto prezamos.
Embora não tenha uma,
e para dar o exemplo, estou
até pensando em trocar
o meu mero carrinho de passeio
por uma blazer dessas. Para
começar a fazer o grande
marketing da cidadania contra
a omissão da Justiça,
mãe de todas as violências.
Para relançar uma espécie
de disque-denúncia
mais abrangente, geral e com
a cobertura de todas as mídias.
Estamparia os adesivos-símbolo
da campanha com um número
0800 da “Central do
Cidadão Consciente”
para registrar todas as denúncias
do cidadão comum e
indefeso contra a omissão,
a corrupção
e a prevaricação
de qualquer sorte de agentes
ou representantes do Poder
Público. Desmascará-los
diante da opinião pública
e fornecer munição
para todo o sistema de comunicação
nacional seria nossa grande
arma. A tal ponto imagino
a eficiência do constrangimento
pedagógico dos infratores
impunes, que talvez nem seja
necessário oferecer
as competentes e formais denúncias.
Vivo dizendo para meus companheiros
trabalhadores da mídia
que a pena, no seu sentido
original e ontológico,
e pela ação
de mobilização
da opinião pública,
não tem função
exclusivamente punitiva, mas
sobretudo pedagógica.
Nossa ação,
bem como nossa simples presença
e disposição
à participação,
e com o apoio da mídia,
seria mais a de constranger
do que a de coagir.
Do guarda de trânsito,
que não multa nenhum
ônibus ou caminhão
de entrega de grandes empresas,
até as omissões
de socorro da máfia
de branco dos hospitais, aos
funcionários arrogantes
das repartições
públicas que parecem
que estão a fazer um
favor em atender a população;
dos juizes ausentes, procuradores
e serventuários da
justiça que fazem chicana,
aos parlamentares que faltam
às sessões nas
câmaras; fiscais que
achacam comerciantes, até
executivos e administradores
públicos que mentem
e fazem acordos espúrios
com os interesses corporativos
privados deste ou daquele
setor econômico. Seremos
um movimento de cidadãos
pela difusão da cidadania
consciente com apoio de toda
a mídia cidadã,
desde sacolas e panfletos
de cadeias de lojas comerciais,
passando pelos grandes jornais,
até o horário
nobre da TV Globo. Os membros
de nossa Ação
da Cidadania pela Consciência
dos Cidadãos, em homenagem
ao nosso grande e precursor
Betinho, assinariam um termo
de compromisso público
e voluntário de não-compactuação
com qualquer sorte de delitos,
desde os mais inocentes até
os piores atos do crime organizado,
protegendo, pela ação
organizada, anônima
e impessoal do grupo, a privacidade
e identidade pessoais de todos.
Tal compromisso de tolerância
zero contra a impunidade e
a violência generalizadas
assumiria a forma de estatuto
votado pela assembléia
geral de fundação
de nossa Central do Cidadão
Consciente.
E nele constaria a relação
dos setores mais críticos
e que mais demandam a denúncia
e a vigilância dos cidadãos,
a saber: o combate à
violência no trânsito
e a todas outras formas de
violência contra a pessoa
humana dos grupos de minoria
como idosos, crianças
e deficientes; à poluição
e degradação
do meio ambiente, do espaço
e do patrimônio públicos
urbanos; aos crimes contra
a economia popular e o direito
dos consumidores, contra a
sonegação e
evasão fiscal; aos
crimes contra o eleitor e
contra a expressão
de opinião; aos crimes
contra a administração
pública e a livre ação
da Justiça. Mas sobretudo,
o combate à maior das
violências: a omissão
de participação
cívica e a deletéria
depreciação
pública de nossa identidade
étnica e auto-estima
cultural.
Nossa Central não se
limitaria a ser mais uma arma
de defesa, um marketing passivo
de disque-denúncia
disso ou daquilo, mas uma
arma ofensiva do cidadão,
da própria consciência
de cidadania, que nada mais
é do que a consciência
de direito, contra a sensação
de violência e impunidade
generalizadas.
Atenção, camaradas
da Brazilian Blazer Brigade,
uni-vos!
(*) Jorge Maranhão,
publicitário, escritor, Mestre
em Filosofia pela UFRJ, é
diretor de criação
da Propaganda Professa.
Publicado no jornal
Gazeta Mercantil do Rio em
01.06.2000