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Os BBB - The Brazilian Blazer Bourgeoisie
Por:
Em: 20/4/2007
 
No século dezenove, na corrida do ouro do oeste norte-americano, os audazes pioneiros usavam carroças para a conquista e anexação dos territórios indígenas. Enquanto isso, na França, com a ascensão da burguesia mercantil e industrial urbana, o transporte preferido da cidade era o cabriolet, versão mais compacta das grandes carruagens da nobreza que faziam o caminho para os palácios fora de Paris. Já neste século, na exuberância do pós-guerra norte-americano, a alta classe média da Flórida e da Califórnia montava em seus estofados coupés rabo-de-peixe com os traços sinuosos da art nouveau.
Mas e a nossa brava burguesia tupiniquim? Por que será que está a montar em blazers off-roads em plena congestão do trânsito das principais megalópoles brasileiras? Não acredito que seja por pura irracionalidade a preferência por atravancar de utilitários off-road o trânsito on-road.

Para além de se sentir mais alta e elevada, imagino que deva se sentir mais segura montada em suas blazers de rodões largos, pára-choques de caminhonetes de reboque, lataria encouraçada, com amplo e ocioso espaço interno e todos os confortos de um carro de passeio convencional: ar condicionado, direção hidráulica, som estereofônico com cd, câmbio automático, vidros elétricos, alarmes e trancas eletrônicas.

É. A burguesia nacional das grandes cidades está apavorada dentro de seus mini-tanques urbanos. Apavorada e isolada, quase confinada em seus blindados, engarrafando mais ainda o trânsito infernal entre os seus escritórios e seus condomínios igualmente isolados com grades, cercas eletrificadas, câmaras, alarmes e vigilantes, como verdadeiros bunkers (ou guetos?) de segurança máxima.

O que teme a brava burguesia brasileira? A sociedade excluída que ela própria ajudou a criar na medida exata de sua omissão pela responsabilidade social? Quando faz a opção de renúncia à participação social? Quando inveja Miami e Orlando e finge não ver as favelas que asfixiam seus condomínios fechados como ilhas de segurança? Quando nutrem uma xenofilia preconceituosa com relação a tudo que venha de seu próprio país e de seu próprio povo, como se dele não fizesse parte?

Baixasse um Brazilianist da Yale University, Professor Elder Brother, aqui nesta terra enjeitada pela nata de seus filhos mais ilustres, aqui neste final de milênio, e sem dúvida lhe sapecaria o epíteto de The Brazilian Blazer Bourgeoisie, a burguesia brasileira da blazer, elite invejosa e cega seguidora das elites norte-americanas que, ao contrário dos Pioneers do Far West de um século atrás, não têm nenhum projeto nacional. Apenas se encagaçam ao parar no próximo sinal fechado de trânsito com medo do próximo assalto garantido pela próxima omissão da polícia.

Mas, como não acredito que somos irrecuperáveis - e prefiro a crítica positiva, quando uma eventual maioria não pode responder pela vontade da totalidade de um grupo social - venho aqui propor uma saída honrosa para a nossa gloriosa elite dos Blazer Bourgeois. Venho aqui propor um projeto nacional, antes que the cow goes to the swamp, como diria nosso Millôr Fernandes. Um projeto de combate à violência e à impunidade vigentes que só pode ser eficaz com a conscientização e fiscalização de toda a cidadania. Pois se existe algo que realmente não se pode delegar para nenhuma autoridade constituída é a nossa própria consciência de cidadão. E para acabar com a violência e a impunidade generalizadas não dá para dar de ombros como se nada tivesse a ver com a gente. E que tal começar usando esses poderosos veículos 4x4 como mídia de uma Campanha pela Cidadania Consciente? Já pensaram? De Brazilian Blazer Bourgeoisie, os BBB passariam a ser Brazilian Blazer Brigade, se unindo para formar a Caravana da Cidadania Consciente. No mínimo uma grande oportunidade de se resgatar uma sigla de tão lamentável memória. A CCC passaria a difundir o orgulho e o amor pelo nacional, não no sentido estreito de obsessão pela pátria, numa atitude de xenofóbica patriotada, mas no sentido de resgate do orgulho nacional, do amor, auto-estima e respeito pelo nosso povo. Ao mesmo tempo em que protegeria a sagrada identidade e a privacidade que tanto prezamos.

Embora não tenha uma, e para dar o exemplo, estou até pensando em trocar o meu mero carrinho de passeio por uma blazer dessas. Para começar a fazer o grande marketing da cidadania contra a omissão da Justiça, mãe de todas as violências. Para relançar uma espécie de disque-denúncia mais abrangente, geral e com a cobertura de todas as mídias. Estamparia os adesivos-símbolo da campanha com um número 0800 da “Central do Cidadão Consciente” para registrar todas as denúncias do cidadão comum e indefeso contra a omissão, a corrupção e a prevaricação de qualquer sorte de agentes ou representantes do Poder Público. Desmascará-los diante da opinião pública e fornecer munição para todo o sistema de comunicação nacional seria nossa grande arma. A tal ponto imagino a eficiência do constrangimento pedagógico dos infratores impunes, que talvez nem seja necessário oferecer as competentes e formais denúncias. Vivo dizendo para meus companheiros trabalhadores da mídia que a pena, no seu sentido original e ontológico, e pela ação de mobilização da opinião pública, não tem função exclusivamente punitiva, mas sobretudo pedagógica.

Nossa ação, bem como nossa simples presença e disposição à participação, e com o apoio da mídia, seria mais a de constranger do que a de coagir.

Do guarda de trânsito, que não multa nenhum ônibus ou caminhão de entrega de grandes empresas, até as omissões de socorro da máfia de branco dos hospitais, aos funcionários arrogantes das repartições públicas que parecem que estão a fazer um favor em atender a população; dos juizes ausentes, procuradores e serventuários da justiça que fazem chicana, aos parlamentares que faltam às sessões nas câmaras; fiscais que achacam comerciantes, até executivos e administradores públicos que mentem e fazem acordos espúrios com os interesses corporativos privados deste ou daquele setor econômico. Seremos um movimento de cidadãos pela difusão da cidadania consciente com apoio de toda a mídia cidadã, desde sacolas e panfletos de cadeias de lojas comerciais, passando pelos grandes jornais, até o horário nobre da TV Globo. Os membros de nossa Ação da Cidadania pela Consciência dos Cidadãos, em homenagem ao nosso grande e precursor Betinho, assinariam um termo de compromisso público e voluntário de não-compactuação com qualquer sorte de delitos, desde os mais inocentes até os piores atos do crime organizado, protegendo, pela ação organizada, anônima e impessoal do grupo, a privacidade e identidade pessoais de todos. Tal compromisso de tolerância zero contra a impunidade e a violência generalizadas assumiria a forma de estatuto votado pela assembléia geral de fundação de nossa Central do Cidadão Consciente.

E nele constaria a relação dos setores mais críticos e que mais demandam a denúncia e a vigilância dos cidadãos, a saber: o combate à violência no trânsito e a todas outras formas de violência contra a pessoa humana dos grupos de minoria como idosos, crianças e deficientes; à poluição e degradação do meio ambiente, do espaço e do patrimônio públicos urbanos; aos crimes contra a economia popular e o direito dos consumidores, contra a sonegação e evasão fiscal; aos crimes contra o eleitor e contra a expressão de opinião; aos crimes contra a administração pública e a livre ação da Justiça. Mas sobretudo, o combate à maior das violências: a omissão de participação cívica e a deletéria depreciação pública de nossa identidade étnica e auto-estima cultural.
Nossa Central não se limitaria a ser mais uma arma de defesa, um marketing passivo de disque-denúncia disso ou daquilo, mas uma arma ofensiva do cidadão, da própria consciência de cidadania, que nada mais é do que a consciência de direito, contra a sensação de violência e impunidade generalizadas.
Atenção, camaradas da Brazilian Blazer Brigade, uni-vos!

(*) Jorge Maranhão, publicitário, escritor, Mestre em Filosofia pela UFRJ, é diretor de criação da Propaganda Professa.

Publicado no jornal Gazeta Mercantil do Rio em 01.06.2000

 
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