Nós não seremos cidadãos
enquanto não estivermos aptos
a nos indignar. Porque não
basta ter o cartão e o número
no cadastro de identificação
de contribuinte da Receita Federal
para que nos reconheçam de
imediato como cidadãos. Não
bastam a carteira de identidade,
a foto 3x4, o título de eleitor,
o comprovante de endereço
da residência, o certificado
de reservista ou o diploma escolar.
Tudo isso são formalidades
vazias de sentido se não
aprendemos a exercer nossa cidadania
e nos indignar diante das pequenas
e grandes injustiças que
dia após dia se cometem no
espaço público, na
praça, no mercado, na nossa
própria casa, não
apenas contra a nossa particular
pessoa, mas contra os vários
coletivos dos quais fazemos parte
enquanto eleitores (pela nossa dimensão
política), contribuintes
(pela nossa dimensão social)
e consumidores (pela nossa dimensão
econômica).
Nós não
seremos cidadãos enquanto
não desenvolvermos a capacidade
de sentir coletivamente e para além
da nossa acanhada pessoa. Quando
a prática comunitária
perder o sentido assistencialista-filantrópico
e recuperar o urgente e necessário
sentido político de resistência
de seres concretos contra os dragões
fantásticos do Estado onipotente,
onisciente e onipresente.
Nós não
seremos cidadãos enquanto
não ocuparmos o espaço
público - que é nosso,
do público - para os nossos
reclamos e reivindicações.
Porque o espaço público
não é apenas o terreno
que está além de nossos
espaços privados. Pois o
espaço público é
muito maior do que qualquer negação
do privado. Não é
um terreno ganho da propriedade,
senão ganho da consciência.
Não é a terra-de-ninguém,
senão a terra certa de cada
um de nós. Nós só
seremos cidadãos quando nos
ocuparmos de nossa dimensão
política, o espaço
da polis, que é sempre coletiva
e jamais particular.
Nós não
seremos cidadãos enquanto
não aprendermos a ocupar
os espaços da mídia,
que é a ágora moderna,
e entendermos que ela está
do nosso lado, é o próprio
espaço de nossa opinião.
E também de nossa consciência
que, mais larga ou mais curta, vive
e sobrevive exatamente de nossa
audiência e de nossa identificação.
Além do que, a mídia
se preenche dia a dia por cidadãos
iguais a nós, jornalistas,
artistas, publicitários,
escritores, os fazendeiros e peões
dos vídeos. Nós só
seremos cidadãos quando buscarmos
nossas afinidades e nos agruparmos
segundo nossos interesses sociais
e em tantas frentes quanto seja
necessário abrir para lutar.
Se somos 1,5 milhão
de lesados como usuários
de uma linha telefônica, pela
qual pagamos anos a fio, e para
a qual a companhia-telefônica-estatal-toda-poderosa
simplesmente nunca ligou os fios,
que nos associemos para gritar,
espernear e ocupar todo o espaço
de mídia disponível.
Que aprendamos a mover e promover
ações na Justiça
contra mais este desmando, a exemplo
da luta memorável de milhares
de mutuários que, através
de suas associações
de moradores, se opôs contra
a majoração sem critério
das mensalidades do falecido sistema
financeiro da habitação.
Não seremos
verdadeiramente cidadãos
enquanto não passarmos a
acreditar na Justiça. E na
mídia. Jamais os vitupérios
contra a Justiça, que fora
a lei, só a barbárie.
Se a Justiça é lenta,
a mídia é seu acelerador
natural. Porque se não vivemos
em alto nível de cidadania,
também não vivemos
em horda. O que nos salva é
estarmos no convívio social,
onde o limite de nosso direito é
o começo do direito do vizinho.
Não seremos
verdadeiramente cidadãos
enquanto não nos organizarmos
em centrais, clubes ou associações
de usuários e consumidores
para defender a qualidade, as garantias
e os preços de nossos produtos
e serviços. E passarmos a
aprender a usar as leis da antiga
concorrência comercial a nosso
favor, pois é o comércio,
a instituição-símbolo
da liberdade humana, que nos ensina
que a concorrência é
a única prática eficaz
contra o oligopólio, o dumping
e a sonegação das
megacorporações industriais.
A exemplo das federações
de consumidores do Japão
e dos EEUU, que se organizam segundo
aquilo que consomem e querem ver
cada vez de melhor qualidade e de
menor preço. E lutam japoneses
e americanos enquanto cidadãos
consumidores, chegando mesmo a provocar
a retirada de produtos do mercado
pelo simples boicote ao seu consumo
e denúncia na mídia
do despropósito da relação
custo/benefício. Ou mesmo
enquanto associações
de consumidores preservacionistas
e ambientalistas que recomendam
a toda a sociedade o boicote de
produtos de efeito poluente ou que
se utilizam de processos industriais
atentatórios ao equilíbrio
ecológico na sua fabricação,
como no caso já célebre
dos aerosóis.
Não seremos
verdadeiramente cidadãos
enquanto não nos organizarmos
numa luta pacífica de resistência
e desobediência civil contra
os excessos de impostos e taxas
do Estado em contrapartida da precariedade
dos serviços que ele nos
dá em troca. Enquanto não
nos indignarmos com os que morrem
nas filas do INAMPS mesmo que não
sejam nossos parentes, segurados
pela Golden Cross, graças
a Deus. Enquanto não nos
organizarmos em associações
civis de usuários de determinados
hospitais ou clínicas da
rede pública, segundo nossas
próprias doenças,
para fiscalizar e denunciar a qualidade
dos serviços prestados por
seus funcionários. Somente
os cidadãos cardíacos
organizados é que sabem verdadeiramente
das deficiências dos Institutos
de Coração. Somente
os moradores de um bairro conhecem
verdadeiramente as deficiências
daquele posto de saúde dali
da esquina. Ou da escola do bairro,
do policiamento e da segurança
e saneamento público etc.
E assim por diante, somente agrupados
segundo nossas próprias condições
de existência, idosos, crianças,
aposentados, deficientes físicos
e mentais, aidéticos, pais,
contribuintes, usuários de
serviços e eleitores, poderemos
verdadeiramente resgatar a nossa
cidadania ofendida pelo descaso
do Estado e omissões das
grandes maiorias sem rosto civil.
Não seremos
verdadeiramente cidadãos
enquanto não soubermos tornar
pública a nossa triste condição
de seres privados. Não é
por acaso que a etimologia do termo
privado, privacidade é a
mesma de privação,
desprovido de. E que não
existe solução duradoura
senão pela via da associação,
cooperação e coletivização
de nossas livres e acanhadas iniciativas
particulares. Nós não
seremos verdadeiramente cidadãos
enquanto os códigos de defesa
do consumidor não forem apenas
uma expressão legal do que
deve ser na realidade uma prática
política de defesa dos consumidores.