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Ser cidadão
Por:
Em: 20/4/2007
 
Nós não seremos cidadãos enquanto não estivermos aptos a nos indignar. Porque não basta ter o cartão e o número no cadastro de identificação de contribuinte da Receita Federal para que nos reconheçam de imediato como cidadãos. Não bastam a carteira de identidade, a foto 3x4, o título de eleitor, o comprovante de endereço da residência, o certificado de reservista ou o diploma escolar. Tudo isso são formalidades vazias de sentido se não aprendemos a exercer nossa cidadania e nos indignar diante das pequenas e grandes injustiças que dia após dia se cometem no espaço público, na praça, no mercado, na nossa própria casa, não apenas contra a nossa particular pessoa, mas contra os vários coletivos dos quais fazemos parte enquanto eleitores (pela nossa dimensão política), contribuintes (pela nossa dimensão social) e consumidores (pela nossa dimensão econômica).

Nós não seremos cidadãos enquanto não desenvolvermos a capacidade de sentir coletivamente e para além da nossa acanhada pessoa. Quando a prática comunitária perder o sentido assistencialista-filantrópico e recuperar o urgente e necessário sentido político de resistência de seres concretos contra os dragões fantásticos do Estado onipotente, onisciente e onipresente.

Nós não seremos cidadãos enquanto não ocuparmos o espaço público - que é nosso, do público - para os nossos reclamos e reivindicações. Porque o espaço público não é apenas o terreno que está além de nossos espaços privados. Pois o espaço público é muito maior do que qualquer negação do privado. Não é um terreno ganho da propriedade, senão ganho da consciência. Não é a terra-de-ninguém, senão a terra certa de cada um de nós. Nós só seremos cidadãos quando nos ocuparmos de nossa dimensão política, o espaço da polis, que é sempre coletiva e jamais particular.

Nós não seremos cidadãos enquanto não aprendermos a ocupar os espaços da mídia, que é a ágora moderna, e entendermos que ela está do nosso lado, é o próprio espaço de nossa opinião. E também de nossa consciência que, mais larga ou mais curta, vive e sobrevive exatamente de nossa audiência e de nossa identificação. Além do que, a mídia se preenche dia a dia por cidadãos iguais a nós, jornalistas, artistas, publicitários, escritores, os fazendeiros e peões dos vídeos. Nós só seremos cidadãos quando buscarmos nossas afinidades e nos agruparmos segundo nossos interesses sociais e em tantas frentes quanto seja necessário abrir para lutar.

Se somos 1,5 milhão de lesados como usuários de uma linha telefônica, pela qual pagamos anos a fio, e para a qual a companhia-telefônica-estatal-toda-poderosa simplesmente nunca ligou os fios, que nos associemos para gritar, espernear e ocupar todo o espaço de mídia disponível. Que aprendamos a mover e promover ações na Justiça contra mais este desmando, a exemplo da luta memorável de milhares de mutuários que, através de suas associações de moradores, se opôs contra a majoração sem critério das mensalidades do falecido sistema financeiro da habitação.

Não seremos verdadeiramente cidadãos enquanto não passarmos a acreditar na Justiça. E na mídia. Jamais os vitupérios contra a Justiça, que fora a lei, só a barbárie. Se a Justiça é lenta, a mídia é seu acelerador natural. Porque se não vivemos em alto nível de cidadania, também não vivemos em horda. O que nos salva é estarmos no convívio social, onde o limite de nosso direito é o começo do direito do vizinho.

Não seremos verdadeiramente cidadãos enquanto não nos organizarmos em centrais, clubes ou associações de usuários e consumidores para defender a qualidade, as garantias e os preços de nossos produtos e serviços. E passarmos a aprender a usar as leis da antiga concorrência comercial a nosso favor, pois é o comércio, a instituição-símbolo da liberdade humana, que nos ensina que a concorrência é a única prática eficaz contra o oligopólio, o dumping e a sonegação das megacorporações industriais. A exemplo das federações de consumidores do Japão e dos EEUU, que se organizam segundo aquilo que consomem e querem ver cada vez de melhor qualidade e de menor preço. E lutam japoneses e americanos enquanto cidadãos consumidores, chegando mesmo a provocar a retirada de produtos do mercado pelo simples boicote ao seu consumo e denúncia na mídia do despropósito da relação custo/benefício. Ou mesmo enquanto associações de consumidores preservacionistas e ambientalistas que recomendam a toda a sociedade o boicote de produtos de efeito poluente ou que se utilizam de processos industriais atentatórios ao equilíbrio ecológico na sua fabricação, como no caso já célebre dos aerosóis.

Não seremos verdadeiramente cidadãos enquanto não nos organizarmos numa luta pacífica de resistência e desobediência civil contra os excessos de impostos e taxas do Estado em contrapartida da precariedade dos serviços que ele nos dá em troca. Enquanto não nos indignarmos com os que morrem nas filas do INAMPS mesmo que não sejam nossos parentes, segurados pela Golden Cross, graças a Deus. Enquanto não nos organizarmos em associações civis de usuários de determinados hospitais ou clínicas da rede pública, segundo nossas próprias doenças, para fiscalizar e denunciar a qualidade dos serviços prestados por seus funcionários. Somente os cidadãos cardíacos organizados é que sabem verdadeiramente das deficiências dos Institutos de Coração. Somente os moradores de um bairro conhecem verdadeiramente as deficiências daquele posto de saúde dali da esquina. Ou da escola do bairro, do policiamento e da segurança e saneamento público etc. E assim por diante, somente agrupados segundo nossas próprias condições de existência, idosos, crianças, aposentados, deficientes físicos e mentais, aidéticos, pais, contribuintes, usuários de serviços e eleitores, poderemos verdadeiramente resgatar a nossa cidadania ofendida pelo descaso do Estado e omissões das grandes maiorias sem rosto civil.

Não seremos verdadeiramente cidadãos enquanto não soubermos tornar pública a nossa triste condição de seres privados. Não é por acaso que a etimologia do termo privado, privacidade é a mesma de privação, desprovido de. E que não existe solução duradoura senão pela via da associação, cooperação e coletivização de nossas livres e acanhadas iniciativas particulares. Nós não seremos verdadeiramente cidadãos enquanto os códigos de defesa do consumidor não forem apenas uma expressão legal do que deve ser na realidade uma prática política de defesa dos consumidores.

 
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