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Desordem e Regresso
Por:
Em: 20/4/2007
 
DESORDEM E REGRESSO

O dístico acima não chega a ser uma idéia brilhante, não fosse meu vício publicitário de estar sempre atrás de uma paródia. Serve apenas para se contrapor ao mandamento pátrio da ordem e do progresso. E me fazer entender de que é feito meu país, e da parte de que sou feito dele, já que muito mais difícil seria tentar entender do que se é feito de si próprio.

Todavia, a conselho de um psicanalista de quem sou freguês, e que não chega a ser um grande recurso da vida, desde já peço desculpas aos guardiões dos símbolos nacionais: não tenho a intenção de magoar-vos, poderes constituídos, sequer de desrespeitar vossas crenças. Segui crédulos de que vivemos num grande país! Só peço que respeitai também a dor dos que não crêem! Não na grandeza de sua natureza nem tampouco de seu grande povo que sempre vou respeitar. Todavia descreio nos governos e em nossas elites, com sua mesquinharia infinda, seu vício arraigado de privatizar o espaço público e de tratar o povo como bicho.

Se escrevo esta nota destoante, se me rebelo contra esta ordem caótica, acreditai que não é de modo gratuito. Razões pessoais são tantas que, já de tão cantadas, me enjoam. Mais vale tentar este condoído depoimento, que melhor serventia para uma dor própria e inútil é confrontá-la diante da dor do outro. E se condoer.

Sempre quis acreditar em meu país, acreditar que a realidade lá fora era melhor do que o lugar da injustiça, impunidade e violência irrecuperáveis que meu pai me apresentava desde menino. Precisaria cantar o hino nacional, mas a ordem de se perfilar no pátio da escola pública para cantá-lo de cor não era na verdade de coração. Era da mesma decoreba inútil da tabuada.

Precisaria cantar o hino nacional hoje, mesmo que fosse de decoreba. E sentir esta dor de todos nós brasileiros de que somos mesmo filhos da mãe. Sentir, na omissão do Estado, dos governos e das elites, a omissão de todos os pais do país. Me sentir irmão de todos os brasileiros. De todos os órfãos concretos e simbólicos do país.

Precisaria saber cantar o hino nacional com a dor de seu abandono. Cantar o nosso hino nacional com a dor de nosso abandono. Para que ganhasse sentido estes últimos choros de minha vida e entendesse por que - raios! - já sou um homem e perdi para sempre o direito de chorar meu desamparo. Não por que perdi propriamente o meu pai, mas por que resisto à descrença na justiça, ao único recurso possível do homem civilizado, a que sabemos que podemos nos dirigir para demandar, carecer e que suporta nosso desamparo.

Aliás, é neste sentido que sinto ser o mais completo órfão: um órfão de pai vivo, simbólico, de um pai maior e que não pôde cumprir o destino de um pai. Órfão de pátria! Não é, pois, outro sentimento ou outra dor que me credenciam a confortar todos os demais órfãos de pais mortos de meu país. E de principalmente compreender todos os demais órfãos de pais vivos, omissos e sumiços de meu país.

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante. Ouviram quem, cara pálida, as margens plácidas? Pelo jeito, ninguém ouviu! Heróico por que povo ou povo por que brado? Heróico por que brado ou brado por que povo? Mas com certeza um brado retumbante. Não por que bravo, mas por que antes tumba, se retumba, inunda e não chora, mas berra, se esgoela e esbraveja.

E o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria neste instante. Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte, em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte. Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve! Não bastasse nossa transformista mãe-língua trocar o gênero masculino de pater pelo gênero feminino de pátria, ainda lhe enfeita a cabeça com os raios fugidios do sol da liberdade. Mas a igualdade, esta decididamente não conquistamos, seja com braço ou mãos. Talvez com os pés, nalgum campo de futebol, quem sabe um pelé da vida tenha conseguido pintar a alma de branca, como exceção que confirma a negra regra da desigualdade generalizada de nossa tradição escravocrata. O que não me parece claro é se não confundimos liberdade com liberalidade, ou libertinagem, como dizia o nosso maior poeta Bandeira, não fosse no seio dela que o nosso peito é desafiado. Não continuasse a pátria travestida de mãe amada, salve, salve. Mãe lasciva, permissiva, que na relação simbiótica com a cria, exclui e anula a figura do pai. Não é por outra razão que não cabe pai nesse hino.

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido, de amor e de esperança à terra desce, se em teu formoso céu risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece. Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso! Em teu futuro espelha esta grandeza, terra adorada! Entre outras mil, és tu Brasil, ó pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil! Que seja o Brasil um sonho, não duvido, não! Mas que o signo do cruzeiro, que no seu céu resplandece, seja o signo da ressurreição ou da extrema unção, disso não estou bem certo, não! Estou certo de que o Brasil é mesmo uma mãe gentia! Jamais gentil! E, portanto, todos somos filhos da mãe! E solamente dela, mãe gentia. Pois de pai somos órfãos, como de fato somos a maioria dos brasileiros. Desprovidos da provisão e da providência, é certo, mas também e principalmente da lei e da punição que nos ensinam a conviver!

Deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulguras, ó Brasil, florão da América, iluminado ao sol do novo mundo. Do que a terra mais garrida, teus risonhos lindos campos têm mais flores. Nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio, mais amores. Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve! Se do “deitado eternamente em berço esplêndido” muito já se comentou de nosso caráter indolente, não creio que sobre o berço nos temos visto mais uma vez como um país-criança, regredido, sempre preso à possessiva e sufocante figura materna que não quer nos ver crescidos e autônomos, adultos cidadãos forjados pela relação com o outro, ou mesmo o pai. Não se precisa de muita argúcia psicoanalítica para saber que no seio da mãe temos muito mais amores, natureza garrida de campos, bosques e flores. Já o que não suportamos ver é que esta exclusão do peito (diga-se, coragem) do pai, não nos faz crescer, não nos forja limites, ordem, senso de dever e direitos, de lei e coerção, altruísmo e solidariedade. E, sobretudo, indignação quanto a desigualdade, onde perpetuamos sempre este perverso contrato social em que, se a choldra patuléia penitente rouba a propriedade privada das elites, a despeito do aparato repressivo da polícia, é o que de menor exemplo tem das mesmas que assaltam impunes o indefeso e generoso patrimônio público. Indefeso, aliás, porque da viúva, como cinicamente se alcunha o tesouro nacional, sem pai para defendê-lo.

Brasil, de amor eterno seja símbolo o lábaro que ostentas estrelado. E diga o verde-louro desta flâmula: paz no futuro e glória no passado. Mas se ergues da Justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta. Nem teme, quem te adora, a própria morte, terra adorada! Entre outras mil, és tu Brasil, ó pátria amada! Dos filhos deste solo, és mãe gentil, pátria amada, Brasil!

E, finalizando nosso emblemático hino-destino, onde repito, é significativa a omissão ou exclusão da figura do pai, cuja função é a de nos forjar a consciência de direitos, nos preparando não apenas para a vida, mas sobretudo para a convivência social, só nos resta mesmo paz no futuro e glória no passado. Pois no presente, só temos mesmo é a própria omissão do Direito e da Justiça, que é a mãe perversa e gentia de todas as violências, a violência de cada um por si, a violência nossa de cada dia, a própria barbárie de nossa omissão da participação social. Pois no presente mesmo, tempo em que urge realizar a vida, a despeito do vezo romântico-verdiano deste hino, vai se levando, se dá um jeito, deixa pra lá, que na falta da provisão paterna, nos resta sempre, ou a ingênua credulidade na providência divina, ou o cinismo do assalto a um Estado emasculado de lei, da sanção que caracteriza a lei, um poder público impotente e estéril na sua função de garantir direitos e cidadania a todos os seus filhos.

Não! Este hino certamente não foi feito pelo nosso povo e para o nosso povo cantar! Foi feito para uma elite tola e só para ela solar no coro! E do coro do povo se apartar!

Sinto uma saudade louca do Vinícius e Toquinho do Samba de Orly, de João Bosco e Aldir Blanc do Rancho da Goiabada e do Bêbado e o Equilibrista. Do Milton Nascimento de Coração de Estudante e de Cazuza do Brasil, mostra a tua cara.
 
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