Meus Deus! O que está acontecendo
com o meu país? Onde estão
os homens de bem? Está cada
dia mais difícil encontrá-los
nos jornais! A manchete do Globo
de quinta-feira passada é
emblemática. O IBGE conta
16.000 favelas no país e
as prefeituras não sabem
o que fazer. Um pouco mais em cima
a irônica denúncia:
juiz que vendia sentenças
a traficantes é “condenado”
a se aposentar com vencimentos integrais.
Meus Deus! Será
que não percebemos a relação
entre as duas notícias? Estudo
as questões da justiça,
da miséria cultural brasileira
e do nosso desamparo político,
há mais de dez anos. Nesse
tempo, escrevi artigos, livros,
criei um site www.avozdocidadao.com.br,
escrevo e produzo boletins na rádio
CBN, participo de debates, faço
seminários de cultura de
cidadania e campanhas às
custas de minha própria agência.
Mas sobretudo tento juntar os homens
de bem. Provocá-los para
que saiam de suas tocas! Por que
sozinho ou acompanhado de uma dúzia
de amigos abnegados não chegarei
muito longe. Pois tudo o que estudei
sobre a organização
da cidadania na história
da humanidade me leva a esta inabalável
crença de que a grande questão
nacional é a reforma do judiciário.
Pois é a mais importante
reforma política e a própria
reforma cultural brasileira! E a
miséria social é fruto
da miséria cultural. A miséria
de não entendermos que a
fonte do poder é a cidadania
organizada e não o mito do
povo.
Se admitimos que
a maioria dos brasileiros são
homens de bem, por que permitir
que a minoria dos delinqüentes
estejam a nos pautar a mídia
diariamente? Por que não
enfrentar a minoria? Por que nos
submeter a viver num ambiente onde
parece que o crime compensa? Idealizei
o projeto da Voz do Cidadão
exatamente para isso. Mas pensei
que fosse conseguir mobilizar os
homens de bem de maneira muito mais
rápida e eficiente. Fui ingênuo!
Uma idéia apenas não
é suficiente! Ela depende
de um ambiente favorável!
Mas quantos crimes torpes e hediondos
como este do assassinato do casal
de namorados serão precisos
para nos fazer agir em coletivo?
Terá de chegar a vez de nossas
filhas, meu querido leitor de bem?
Essa mal colocada questão
sobre a maioridade penal resolve
o problema? Por que continuamos
acuados em nossas casas, ao som
da algaravia “Tô nem
aí...?
Não podemos viver em sociedade
fingindo que não ouvimos
uns aos outros, fazendo ouvidos
de mercador. Não conheço
civilização no mundo
digna deste nome que não
tenha sobretudo organizado mínimamente
o seu sistema judiciário!
Não bastam mais as ironias!
A delinqüência de um
colarinho branco qualquer tem que
ser punida com todo o rigor da lei.
Mas a delinqüência de
um juiz tem de ser punida com o
rigor da lei e a sentença
proferida aos quatro cantos da mídia!
Com seriedade e a alto e bom som!
Por que a delinqüência
de um juiz representa a delinqüência
da esperança de justiça,
do próprio sentido e possibilidade
da convivência social. Representa
simplesmente a diferença
entre barbárie e civilização.
Por que é a mais vil das
traições! E é
impossível se conceber a
vida social sem a possibilidade
de apelar à justiça
ou encontrar apenas a sua omissão!
Me perdoem meus queridos colegas
da mídia, mas cobrir as mazelas
do judiciário brasileiro
e lutar pela sua reforma, mais do
que editoria política, passou
a ser objetivo cívico nacional!
Nada é mais urgente do que
enfrentar a questão fundamental
da instituição da
justiça que é a ontologia
do próprio Estado! Vivo insistindo
nisso: não resolveremos nenhuma
miséria social ou econômica
enquanto não resolvermos
a nossa miséria cultural
de fingir que estamos a construir
um país mais justo com esta
ou aquela política paliativa
de redistribuição
de renda. A ênfase tem de
se deslocar do econômico para
o judiciário, o cerne da
coisa pública!
Vivo dizendo que
educação é
tudo e mais alguma coisa! Mais do
que transmissão de conhecimento,
deve ser transmissão de cultura
de cidadania! Para além das
escolas, da família e das
igrejas, deve ser transmissão
de cultura de cidadania nos espaços
do mercado, das empresas das associações
civis, mas sobretudo nos espaços
da opinião pública
e da própria mídia!
Só assim poderemos tirar
os homens de bem de suas tocas,
de seu justificável terror,
e nos fazer ouvir de fato uns aos
outros! O Estado não pode
faltar para com a sua primordial
obrigação que é
a de produzir e distribuir justiça,
até para nos resgatar a crença
de que ela existe, mesmo sendo a
mais falha e a mais sublime das
criações humanas!
Quando o órgão
especial de um tribunal finge que
pune a delinqüência explícita
de um de seus membros que mercadejava
sentenças está a dizer
a toda a parte podre da delinqüência
social que o crime compensa! Está
a fazer ouvidos de mercador. E quando
esta farsa, esta pantomima que seria
engraçada se não fosse
trágica, se repete, não
há como sermos irônicos!
Sei disso por que
nesses seis meses em que nosso site
está no ar, tenho sentido
a enorme indignação
dos cidadãos de bem! Todos
queremos fazer alguma coisa para
construir, enfim, um país
menos injusto e violento para os
nossos filhos! Pois bem! Que ocupemos
os espaços da mídia
com a nossa ação de
cidadania. Façamos manifestos!
Que sejamos os fiscais de todos
os fiscais! Tomemos conta de nossas
próprias calçadas!
Que isto é o começo
de tomarmos conta do nosso próprio
país! E não há
outra alternativa a não ser
o cidadão morador, eleitor,
contribuinte e consumidor cobrar
justiça do judiciário
e segurança dos executivos,
tomar conta dos mandatos políticos,
dos orçamentos públicos
e vigiar a concorrência dos
mercados. Que transformemos, enfim,
nossa indignação em
ação!
Jorge Maranhão
Publicado no Jornal
O Globo em 21.11.03