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Chega de autoflagelação
Por:
Em: 20/4/2007
 
Vem cá! Por que essa histeria toda? Acho que não sou o único leitor de jornal que já não agüenta mais esse tal de Waldomirogate. Tanta coisa acontecendo no mundo e nessa grande parte dele chamada Brasil! Parece que não temos mesmo noção de nossa importância. Não vejo os políticos, as elites e a mídia gritarem com igual fôlego as nossas conquistas. Só vejo alarde para as nossas vergonhas. E vamos nós aos trancos e barrancos, de crise em crise, com o último escândalo da temporada! Não que não devamos denunciar e apurar! Mas péra lá! Criar o impasse político de uma CPI, parar a retomada da economia para servir à máfia de sempre dos especuladores do mercado, e por causa de um micheteiro de terceiro escalão, no mínimo é sabotar mais uma vez o resgate de nossa auto-estima nacional. Fechem-se os bingos! Mas a jogatina da banca deixa rolar! E o remendo da reforma política meia-sola, limitada ao financiamento público das eleições, com o seu, o meu e o nosso dinheirinho, parece a solução milagreira do momento!

Enquanto isso, numa outra grande porção do mundo, na terra do Uncle Sam, a prestigiosa revista do MIT - Massachusetts Institute of Technology publica a lista das dez maiores invenções que vão mudar o mundo no futuro próximo e – pasmem os derrotistas de plantão! – a primeirinha delas é a de uma pesquisa do neurocirurgião brasileiro Miguel Nicolelis que visa tão somente recuperar o movimento dos paralíticos. Antes dele, só um tal de Jesus ousou tamanho milagre...

Ora, ora, politicalha nacional! Corja de cepeidotas oportunistas, tenham mais o que fazer! Deixem por uma única vez as instituições funcionarem! Não atravessem o samba! Não dessa vez! Assim que soube da reportagem, o presidente demitiu imediatamente o Waldomiro. Além disso, chamou o ministro da justiça para que noticiasse o crime ao Ministério Público, a quem compete providenciar a apuração do caso e encaminhar a devida denúncia ao Poder Judiciário. Evidentemente que este demorará como sempre, cativo de todos os seus ritos e solenidades, mas cabe a cada um de nós lhe exigir a rapidez da eficiente e cabal sentença. E não tergiversar da lei, cair na tentação do imbroglio, mais uma vez roubar a cena do Judiciário para o palco fácil de nosso exibido Legislativo, sempre atrás de fama fácil e folias eleitoreiras.

Por favor, que se pronunciem os homens de bem, que apareçam os responsáveis cívicos, as elites que estejam trabalhando para a próxima década e não para o próximo folguedo eleitoral! A opinião pública não pode ficar a mercê desta comédia de erros da superpolitização da vida nacional! Parece aquela velha história que estamos fartos de conhecer: quando mais se legisla, menos se cumpre a lei. Quanto mais se grita escândalos, mais se tumultua o devido processo legal. Quanto mais farsa, menor a consciência da tragédia! Quanto mais assistencialismo social, menos promoção da cidadania! Afinal, que seja bem-vinda a cultura do carnaval! Mas não a carnavalização geral da cultura! Principalmente a carnavalização da cultura política e da justiça! A Momo o que é de Momo!

Temos de começar a acreditar que as instituições funcionam por que se não acreditamos nisso, aí é que elas não funcionam mesmo! A voz do cidadão está a pedir mais seriedade no trato da coisa pública. Ai daqueles que duvidarem disso! A voz do cidadão está a rejeitar a nossa miséria cultural da tradição do jeitinho, da tolerância, da leniência, da baixa auto-estima, da burla institucional, do corpo mole, da pilantragem endêmica, da apelação do tô-nem-aí! E ai daqueles que se aventurarem no escárnio geral das instituições e dos homens de bem! Estes serão os verdadeiros otários, desmascarados em praça pública!

Dê uma chance à seriedade você também! Dê uma chance a nossa capacidade coletiva, a nossa possibilidade civilizatória! Aposte na cidadania brasileira! Chega desse conceito de Brasil coitadinho, dessa auto-flagelação cultural, dessa atração fatal pelo fracasso, desse talento inesgotável para a farsa! O Brasil é maior do que o bloco do pacotão de Brasília! O que nos distancia dos países desenvolvidos não são apenas os índices econômicos e sociais. É o índice de auto-afirmação coletiva em nossa cultura. Se temos consciência da excelência individual de nossos cientistas, esportistas, artistas, industriais, empresários, agricultores, médicos, engenheiros, arquitetos, diplomatas, cineastas, músicos, economistas etc, parece que falta exigirmos o mesmo padrão de excelência de nossos políticos e magistrados! Afinal, parece que só faltam eles para que possamos atingir um estado de plena consciência de excelência coletiva, para superarmos definitivamente a nossa miséria cultural!

Todas as culturas desenvolvidas são semelhantes: não se trata apenas de uma maior preponderância dos cidadãos de bem sobre os delinqüentes! Trata-se simplesmente da percepção das elites quanto a este fenômeno! Também há corrupção eleitoral na Alemanha e nos Estados Unidos. Também há assaltos a mão armada na França e na Itália! A diferença é que suas elites vêm na delinqüência uma exceção! E nossas elites nos tratam e retratam como se fosse a regra! Quem sabe, não é chegado o momento de resgatar a excelência coletiva de nossa cultura política, aproveitando a excelência individual do nosso concidadão Miguel Nicolelis para recuperar nossa politicalha desse vírus da waldomirose paralítica?!

Jorge Maranhão
Publicado originalmente em O Globo de 01/04/2004.

 
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