Para início de conversa,
recomendo que todo cidadão
de bem neste país,
e que queira sinceramente
colaborar para a construção
de um país menos violento
e injusto para seus filhos,
assista ao documentário
Justiça. Recomendo
que vejam, sintam a vergonha
que puderem sentir e meditem
sobre a mensagem da diretora
Maria Augusta Ramos: a Justiça
no Brasil é injusta,
pois é apenas uma máquina
de prender pés-de-chinelo.
E façam esta reflexão
exatamente no momento em que
o Supremo Tribunal Federal
“justifica” a
concessão de hábeas-corpus
para os tubarões da
quadrilha do propinoduto.
Enquanto o documentário
de Maria Augusta nos revela
uma justiça criminal
rigorosa com bagrinhos, o
nosso Supremo nos revela uma
justiça leniente com
o cinismo e o sofisma dos
advogados dos tubarões.
Parodiando Napoleão,
quando dizia que a guerra
era assunto importante demais
para ser tratado por generais,
tenho dito que a justiça,
enquanto arma maior da cidadania
e símbolo da cultura
republicana, é um bem
muito valioso para ficar no
trato exclusivo de juristas
e legisladores comprometidos
apenas com seus interesses
corporativos!
Promovendo um debate público
sobre o documentário,
o jornal O Globo tem repercutido
cada vez mais o repúdio
da própria opinião
pública às revelações
de enriquecimento ilícito
de legisladores e de processos
engavetados contra juízes
e desembargadores. Como dizia
o estadista Disraelli, o momento
exige que os homens de bem
tenham a audácia dos
canalhas! Pois a sociedade
civil organizada se mobiliza,
enfim, para restabelecer a
verdadeira pauta das reformas
prioritárias do país.
Uma vez que os senhores parlamentares
jamais farão a reforma
política de que o país
precisa, por vergonhoso interesse
corporativo, também
não farão a
urgente reforma de um judiciário
iníquo, que solta os
tubarões e abarrota
de bagrinhos as prisões-escolas
criminais da violência.
É chegado o momento
de o governo entender de uma
vez por todas que nenhuma
política monetária
ou fiscal trará mais
equilíbrio para as
contas públicas do
que a reforma do judiciário.
Por que só uma justiça
que puna efetivamente os crimes
vergonhosos contra o patrimônio
público poderá
resgatar a confiança
num estado menos injusto,
fiscal e socialmente responsável.
Por que o dinheiro que falta
aos orçamentos da educação,
da saúde e da previdência
não pode permanecer
nos paraísos fiscais
dos malufeiros de sempre,
sejam eles políticos,
juízes ou auditores
fiscais que fazem o escárnio
da ordem jurídica,
corrompem os valores democráticos,
promovem o descrédito
nas instituições
republicanas e incentivam
a corrupção,
a criminalidade e a violência
generalizadas! Até
por que, sabe-se hoje com
clareza, a causa da estagnação
da economia, e da própria
inibição do
fluxo de investimentos internacionais
no país, não
é outra se não
a miséria institucional
do nosso sistema judiciário,
da falta de marco regulatório,
da transparência regimental
dos tribunais, até
a mínima previsibilidade
das sentenças e a confiança
no desfecho de qualquer demanda
judicial.
Chega, portanto, de empulhações
dos economistas e outros paloccismos!
O que fará o país
voltar a crescer e produzir
riqueza é o resgate
de uma justiça eficiente.
O que importa é restaurar
a confiança nos únicos
setores da vida nacional em
que não temos depositado
a mínima confiança
desde que nos convencemos
da nossa cultura da impunidade
e do jeitinho. O Brasil, que
tem conseguido substituir
a importação
de bens materiais dos países
desenvolvidos, deveria começar
a substituir a importação
de seus mais importantes bens
simbólicos, como o
valor da justiça inscrito
na pedra do frontispício
da New York Court of Justice:
“The administration
of Justice is the pillar of
a good government”.
Pois é a administração
da justiça e a boa
representação
política, os únicos
setores da vida nacional que
têm o condão
de resgatar todos os demais
da nossa miséria cultural!
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