... Nunca me esquecerei
desse acontecimento na vida
de minhas retinas tão
fatigadas. Nunca me esquecerei
que no meio do caminho tinha
uma pedra, tinha uma pedra
no meio do caminho... Carlos
Drummond de Andrade
A crítica
literária atribui ao
legado modernista do poema-piada
os versos de “Uma pedra
no meio do caminho”,
incluídos na obra de
estréia de nosso poeta
maior Alguma Poesia, de 1930.
O que chegou a lhe valer décadas
depois uma coletânea
inteira reunindo glosas, paródias,
elogios e críticas
sobre o poema (Uma pedra no
meio do caminho: biografia
de um poema, Arnaldo Saraiva,
Rio, 1967).
Muito já se especulou
sobre o que seria esta pedra.
De simples tropeço
de quem nasceu gauche na vida
a poema de maior fôlego
de nossa língua e entre
os melhores da literatura
universal. Antes tivesse sido
apenas mais um acidente geográfico
do topônimo Itabira
das pedras e montanhas mineiras.
Antes tivesse sido mesmo mais
uma das variações
de nossos impedimentos desde
o Cabo das Tormentas dos Lusíadas.
Ou quem sabe a versão
tupiniquim do mito de Sísifo
sem esse extremado esforço
de se pôr contra a lei
da gravidade. A pedra da esfinge
da entrada de Tebas, a Pedra
do Reino do sertanejo Ariano
ou a pedra do apóstolo
Pedro sob a qual se fundou
nosso particular cristianismo.
Mas não! Esta pedra
do meio do caminho mais parece
o nosso caminho das pedras.
A pedra de toque, a metáfora
maior, o sentido mais profundo
de nossa própria cultura.
A pedra filosofal de nossa
origem e destino, de nossos
impasses e contradições.
E diante disso, eu também
me permito ousar aqui mais
uma decifração
sobre a pedra do poeta maior.
Pois a questão não
é apenas esgotar o
seu significado, mas o dilema
de estarmos sempre entre duas
alternativas diante da pedra:
ou vamos pra frente pela via
da topada ou empacamos em
estado de perplexidade. No
entanto, temos ultrapassado
tantas pedras quanto o destino
nos tem colocado no caminho.
Desde o parto da República,
onde começamos a nos
perguntar quem éramos
e o que queríamos como
destino. Foi assim com as
maiores obras dos maiores
intérpretes nacionais,
de Joaquim Nabuco, Euclides
da Cunha, até Gilberto
Freyre, Sérgio Buarque
de Hollanda e tantos outros
mais recentes. Mas não
com o nosso poeta maior, que
jamais pretendeu interpretar
o Brasil, se não uma
“tentativa de interpretação
do estar no mundo”.
Sentimento do mundo, como
diria mais tarde.
Mas o fato é que depois
deste poema, temos removido
seguidas pedras que encontramos
no meio de nossos caminhos.
Em campos tão díspares
quanto a literatura, as artes,
a arquitetura, as ciências,
a engenharia, a medicina,
os esportes, driblamos todas
as pedras. De todas as culturas
e agriculturas, das tecnologias,
das aeronáuticas, dos
comércios e das indústrias,
todos os caminhos percorremos,
de igual para igual, entre
as culturas mais desenvolvidas
do mundo. A ponto de me assombrar
essa indagação
dolorosa sobre o presente:
por que empacamos logo agora?
Por que em pedra tão
colossal quanto a desse imbróglio
político nos topamos
agora? Pois tenho insistido
na tese de que a pedra que
nos atravanca o progresso
civilizatório é
a pedra de nossa miséria
política. Para não
dizer um pastiche, somos apenas
uma paródia de cidadania.
Por que nossa cultura de cidadania
é desprovida da cultura
política que lhe define
a sua própria essência.
Pois cultura de cidadania,
mas do que cultura de cidadãos
moradores reivindicadores
de direitos civis, de justiça
e segurança, mais do
que cultura de cidadãos
consumidores e contribuintes
reivindicadores de direitos
econômicos e sociais
do Estado e dos mercados,
é essencialmente cultura
política de cidadãos
eleitores, reivindicadores
de plenos direitos políticos,
de participar da gestão
da coisa pública, de
controlar os mandatos e cobrar
responsabilidade política
dos eleitos sobre seus compromissos
de campanha. Só tiraremos
esta pedra do meio de nosso
caminho quando ultrapassarmos
o impasse entre a topada e
a empacada. Se a grande questão
nacional foi no passado o
que fazemos com a pedra, hoje
já não há
mais tempo para essas questões.
Temos de agir e agir rápido!
Partir para cima da pedra
de nossa miséria política,
golpeá-la com a mais
afiada arma da nossa cultura,
a mídia que atalha
e turbina a educação,
transformar seu farelo em
pavimento e retomar o caminho
da grandeza para os que nos
sucedem!