Razão está longe de ser o único caminho para o conhecimento

Angústias marxistas

Por Luiz Paulo Horta

Publicado no jornal O Globo em 19/06/2011

Em um artigo para o Segundo Caderno do GLOBO, José Miguel Wisnik disse coisas finíssimas sobre o filósofo Zizek. Ele acha que Zizek não foi suficientemente longe no seu escrutínio do marxismo, para responder à pergunta “Por que deu errado?”. Segundo Wisnik, falta completar a psicanálise do marxismo.

Não sendo expert em psicanálise nem em marxismo, vou por um caminho mais simples, como o camponês que põe os pés no prato (imagem de Jacques Maritain).

Séculos atrás, gastando filosofia com o meu amigo Leandro Konder, eu cobrava dele uma ontologia do marxismo. Ele dizia (santo marxista que sempre foi): é, de fato falta alguma coisa, que ele (Marx) começou a desenvolver nas “Onze teses sobre Feuerbach”.

E ficou faltando, mesmo. Para mim, é onde a coisa pega. O marxismo foi a manifestação mais crua de uma ideia “evolucionista” (vinda de Hegel) segundo a qual tudo é um “processo”. Estamos evoluindo (estamos?) de passagem para alguma coisa que não sabemos o que é. Para Hegel, otimista, marchávamos para uma apoteose da História, a plena manifestação do Espírito, da Ideia, nas coisas terrenas (talvez o próprio Hegel?). Menos delirante, o marxismo também fala em apoteose; mas seria a da sociedade sem classes.

Muita História e pouca ontologia (isto é, a percepção ou o conhecimento do Ser). Acho que a nossa “crise ontológica” começa com o honesto Descartes, quando escreveu o seu “Discours sur la méthode”. Dali brotou a apoteose da razão (ou o delírio da razão). Duvide de tudo, diz o velho mestre, até que você encontre algo de que não possa mais duvidar. Esse ponto de chegada, para ele, foi o famoso “Penso, logo existo”. O ser pensante se coloca como parâmetro do real. A partir daí, será real aquilo que você puder construir através de processos mentais muito bem verificados. Um dos derivados disso é a idolatria da ciência, o desprezo de um certo pensamento “científico” por tudo o que não puder ser provado racionalmente.

Por que Descartes se perdeu? Não porque usasse demais a razão (nunca se usa demais a razão). Mas porque quis concentrar na razão todo o processo do conhecimento. Se temos a razão, ele diria, por que procurar ajuda em outra parte? E a razão, de fato, é um maravilhoso (e indispensável) instrumento de trabalho.

Mas está longe de ser o único caminho para o conhecimento. Ao lado dela (ou acima dela) há uma faculdade que os metafísicos chamam de “intuição intelectual” – que é, no fundo, a intuição do ser. Para conhecer, por exemplo, a amiga ou amante que está ao seu lado, você não precisa de processos racionais. Você não raciocina: eis aí um bípede, que tem as minhas características, dois pés, duas mãos, dois olhos; portanto, é alguém da minha espécie; posso me interessar por ele.

Este é o processo discursivo da razão – a razão raciocinante. Mas a intuição, a maravilhosa intuição, dispensa tudo isso. Você olha e vê; e, muito mais que sinais característicos, vê o ser inteiro, com a sua estonteante complexidade.

Este é o caminho real do conhecimento, tal cmoo praticado por todas as grandes civilizações. A iluminação de que fala o budismo, no fundo, é isso: muito além de um processo racional, é um relâmpago mental através do qual, de repente, você percebe a realidade para além das aparências; você descobre a “coisa em si” que o velho Kant procurou com tanto afinco.

Assim se conta o drama do marxismo. Ali não havia espaço para o ser concreto, para o “ser em si”. Todo o espaço estava ocupado por um enorme aparelho ideológico, transposição materialista das ideias de Hegel. A História marchava para uma apoteose, e nesse carro colossal da História não havia lugar para dúvidas. Quem pensasse diferente era “reacionário” – isto é, alguém que queria fazer a máquina andar para trás. E para acabar com essa erva daninha, não havia expurgo ou tribunal revolucionário que bastasse.

Um dia, a poderosa União Soviética veio abaixo. Não houve qualquer empurrão externo: o edifício caiu porque estava esvaziado de toda substância humana.


* Luiz Paulo Horta é jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras
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