Artigos <p>Sobre a elite – Por Bruno Hellmuth

No uso corrente da língua portuguesa no Brasil, tem-se observado, sobretudo nas últimas décadas, uma sistemática deturpação no emprego do vocábulo elite. Aceita-se como normal hoje em dia, que nas línguas vivas ocorram constantes evoluções,  com a criação de novos vocábulos, abandono de alguns e, ainda mudanças de significado de outros.

A palavra elite entrou para o nosso vocabulário como um galicismo, e  deriva originariamente do latim eligere que designava os eleitos ou selecionados.  Segundo os melhores dicionários, elite significa o que há de melhor dentro de uma sociedade ou grupo.  Corresponde, portanto, ao termo grego aristo o qual compõe a palavra aristocracia, o governo pelos melhores.

Se por um lado continua valendo este significado quando se fala em tropas de elite,  assim como de uma elite de atiradores, de atletas, de juristas, de médicos, intelectuais, etc…por outro, nos discursos políticos, pelo menos no Brasil, o termo tem sido empregado como referência à camada mais rica e poderosa da sociedade, estando muitas vezes implícito uma imagem negativa, de frivolidade e egoísmo deste segmento social.  Fernando Collor de Melo, no início de seu mandato como Presidente da República, afirmou que o Brasil possuía uma elite medíocre.  Ora, de acordo com o significado tradicional da palavra, como consta nos léxicos, os medíocres não podem ser elite.  Já encontramos também, em artigo de jornal  de alta circulação,  referência a uma elite virtuosa, o que nos parece um flagrante pleonasmo, como se pudesse existir uma elite não virtuosa.

Algumas pessoas encontram-se no topo da pirâmide social por herança, ou lá chegaram através de golpes desonestos ou até mesmo de sorte.  Outros, porém, alcançaram este topo por méritos, por terem tido acesso às melhores escolas e faculdades, por esforço, talento e criatividade.  Estes, em geral,  estão incluídos nas elites de suas respectivas profissões, mas não compõem necessariamente a elite social.  Nem sempre aqueles que se destacam profissionalmente são os mais virtuosos elementos da sociedade e, inversamente,  podemos encontrar membros da elite em meios menos abastados.  Devemos catalogar como elite as pessoas de padrões de vida modestos, ou que até fazem votos de pobreza, e que dedicam suas vidas à educação, proteção, ou apoio espiritual aos elementos mais frágeis da sociedade.

No nosso entender,  compõem a elite social aqueles que, além de suas competências e talentos, demonstram com palavras e atos sua preocupação com o destino de seus semelhantes menos favorecidos ou menos preparados.  Aqueles que,  além de suas atividades profissionais, lideram associações,  presidem clubes, organizações não-governamentais, ou assumem liderança política, visando o bem da sociedade e procurando transformar a realidade de modo positivo.  Em outras palavras, pegando emprestado os conceitos emitidos por  James C. Hunter, autor de O Monge e o Executivo, a verdadeira elite é formada por indivíduos para os quais liderança não significa poder e direito a privilégios, e sim autoridade, responsabilidades e sacrifícios permanentes.  Pessoas que vêem suas particulares condições financeiras, profissionais e sociais, como fonte primeira de um dever social, que alia a necessidade de retribuição à sociedade e ao país pelos privilégios legítimos alcançados, à consciência do dever fazer, dever construir em prol dos seus semelhantes, da sua comunidade, do seu país e da humanidade.  Nesse sentido, vemos que a elite se caracteriza pela generosidade, pelo amor ao próximo e o amor à pátria.  Podemos afirmar com segurança, felizmente, que pessoas com estas características existem em nosso país, embora em número menor do que gostaríamos.

Na procura pelas razões da deturpação do conceito de elite, especìficamente no Brasil, ocorreram a nós duas explicações, sendo as duas baseadas em acontecimentos históricos.

Se na segunda metade do século XIX a população brasileira, de um modo geral, percebia uma forte ação do poder constituído em favor do desenvolvimento social, envolvendo investimentos na educação, cultura, e, principalmente, não esqueçamos, a articulação política pela abolição da escravidão, após o golpe republicano de 1889, as oligarquias, agora livres do antigo poder moderador, preferiram frear os avanços sociais planejados, a favor da manutenção de um sistema de castas que garantisse a abundância de mão de obra barata e desqualificada para as monoculturas, a indústria incipiente e para o serviço doméstico.  Foi, portanto natural que a base da sociedade passasse a enxergar nas classes dominantes apenas o poder, e não mais a autoridade, liderança e proteção.  Com a classe dominante não se identificando com o povo, a palavra elite, para a ampla massa, perdia o seu sentido,  passando a ser aplicada para designar o grupo de pessoas de alto poder aquisitivo e hábitos refinados, em geral, de pele clara.

Com a avassaladora propaganda, a partir do final da 1ª Grande Guerra,  da ideologia socialista, e que até hoje impregna nossos meios acadêmicos,  passou-se a, absurdamente, negar os princípios científicos darwinianos, de que entre humanos haja diferenciação tanto genética como adquirida.  Para eliminar contradições nesta ideologia, o conceito de elite não poderia mais ser admitido,  e o significado da palavra tinha que ser forçosamente deturpado. As esquerdas passaram a utilizar o termo como sinônimo de burguesia, com sentido depreciativo, ou até como insulto.

Acontece que, segundo as leis da biologia, a diversidade de caracteres dentro de uma mesma espécie, mesmo a humana, é essencial para sua própria sobrevivência.  Na sociologia, certamente encontrar-se-ão leis análogas.  Mas, ninguém em sã consciência, defenderá a volta da lei da selva,  segundo a qual só os mais fortes e melhor adaptados sobrevivem.  O mais sensato, e o que já é praticado pelas sociedades em estágio civilizatório mais evoluído, é se garantir a igualdade de oportunidades e de direitos, com investimento em educação e saúde igual para todas as crianças e adolescentes.  Porém, mesmo com estas garantias, inevitavelmente,  as pessoas continuarão se diferenciando, seja por influências do meio, seja por maior talento, ambições, disciplina ou senso humanitário.

Segundo aquela  mentalidade igualitarista, não se admite tampouco que possa existir uma família ocupando a chefia de estado de geração em geração, que pela tradição multicentenária ou até milenar encarna os mais altos padrões de educação, virtudes, de cultura e conduta,  nos quais o povo gostaria de se espelhar, e que serviria de estimulo à formação e crescimento da verdadeira elite.  Ao contrário, os adeptos do igualitarismo radical,  preferem recusar a idéia de uma família modelo, com as características mencionadas,  e se ufanar de um falso sinal de democracia, que seria a possibilidade de qualquer cidadão,  mesmo sem maior cultura e menos convicto dos valores morais tradicionais ocupar o mais alto cargo da nação.  Na verdade,  a maioria dos brasileiros, um ex-presidente da república inclusive, ignora a diferença entre estado e governo.  Deverá ser consenso que qualquer cidadão,  mesmo sem maior titulação acadêmica,  mas com boa carreira política,  pode vir a ocupar com eficiência a chefia do governo, como ocorre nos sistemas parlamentares.  A chefia de estado, porém, de preferência dotada de poder moderador, deveria ser reservada à nata da elite.  Tivemos, no Brasil,  a figura de D.Pedro II, como exemplo maior deste modelo.  Nosso país necessita com premência de um intenso esforço em prol da educação e cultura do povo, até mesmo para resgatar o verdadeiro sentido de elite.

* Bruno Hellmuth é chanceler do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro. (849)

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