<p>Artigo – Os riscos de Trump, por Roberto Teixeira da Costa<p>

Não foram poucos aqueles que comentaram que entre discursos de campanha e governo teríamos tempos diferentes, e colocaram em dúvida se completaria seu mandato

POR ROBERTO TEIXEIRA DA COSTA 15/02/2017 – O GLOBO

Como visiting scholar na Universidade de Columbia de setembro a dezembro de 2016, pude acompanhar de perto o processo eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca. Participei de dois debates com experts em política, e as constatações foram de que até então Trump tinha ido longe demais. Não houve qualquer menção, em termos de política externa, à América do Sul, nem ao Brasil. Provoquei o possível ministro das Relações Exteriores de Hillary, perguntando se ele já teria ouvido falar de uma região chamada América do Sul. Ele respondeu-me com um sorriso: “We will talk about this in another occasion” (Vamos falar disso em outra ocasião). Nesses encontros, os temas centraram na relação com a Rússia; na questão migratória e, num terceiro plano, na China, seguido por Índia. Dois dias após sua eleição, a School of International Public Affairs realizou um debate para analisar os resultados da eleição. As opiniões variaram desde certa perplexidade por sua vitória ao despreparo dos formuladores da política de Hillary em avaliar possíveis mudanças no comportamento dos eleitores que estavam insatisfeitos e queriam mudanças. Quando iniciado o período de perguntas, questionei: “Tendo em vista o que havia lido, ouvido e participado durante esses quatro meses, e entendendo que o presidente seria incapaz de cumprir tudo o que prometera, quais seriam as chances de um impeachment?”. A gargalhada foi geral, mas um dos professores respondeu-me que o não cumprimento de promessas não seria motivo de
impeachment. Porém, o assunto Wikileaks e a interferência da Rússia no processo eleitoral poderiam ter sido uma possibilidade, àquela altura já afastada. Não foram poucos aqueles que comentaram que entre discursos de campanha e governo teríamos tempos diferentes, e colocaram em dúvida se completaria seu mandato. Antes de regressar ao Brasil, tive oportunidade de ouvir alguns discursos do presidente eleito, e o que registrei estava muito longe de uma possível mudança de rota. Apesar de muitas reações contrárias, ele deu grande ênfase às promessas eleitorais, reafirmando sua disposição de colocá-las em prática. Sua maneira de exercer o governo é tão diferenciada, que fica difícil dizer o que efetivamente acontecerá. Quais serão as forças que irão a ele se opor? A minoria democrática poderá criar dificuldades para aprovações, mesmo com a maioria republicana nas duas casas como vimos na aprovação de certos secretários? E dentro de seu partido haverá contestações? E os tradicionais aliados americanos no mundo ocidental poderão contestar suas políticas internacionais, particularmente na área de comércio? Como seus secretários vão se comportar caso não estejam inteiramente alinhados com seu estilo monocrático de decidir? Sua convivência com outros poderes, como acabamos de constatar, não será fácil. Sua eleição tem que ser analisada com muita atenção. Afinal de contas, conseguiu se eleger vencendo toda a oposição de seu próprio partido e superando a candidata favorita, apoiada pelo presidente Obama, com clara oposição da grande imprensa e com grandes dirigentes mundiais se posicionando contra ou rejeitando suas ideias. Foi algo extraordinário. Do nosso lado, vamos ver se podemos tirar algum benefício desse quadro de mudanças, que, certamente, terá um acelerador com sua eleição. Se já vislumbrávamos um processo de alterações em padrões tradicionais preestabelecidos, mais do que nunca temos que nos preparar para um novo cenário, ainda muito embaçado.
Como certa, vez ouvi de um empresário mexicano: “Ahora que teníamos todas las respuestas, cambiaron las preguntas!”.

Roberto Teixeira da Costa é economista (98)

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