<p>Artigo – Algumas observações sobre o que vi no Rio de Janeiro nestes 4 anos que estou na cidade, por Marcos Junior<p>

 

  1. O carioca desistiu. Já não acredita que as coisas podem realmente melhorar, que há algum futuro. Não há esperança e Dante nos ensinou que inferno é justamente o lugar onde a esperança não entra.

 

  1. A situação é de colapso generalizado. Todos os sistemas públicos faliram, incluindo segurança. A bandidagem está cada vez mais audaciosa, testando os limites e descobrindo que eles não existem.

 

  1. Não me parece que o pior já passou. Creio vivemos uma espécie de antecipação de algo ainda muito ruim ainda por acontecer.

 

  1. Não sei até que ponto pode-se dizer que o Rio de Janeiro é uma lupa ampliada dos problemas brasileiros. Não existe cidade hoje, pelo menos de médio ou grande porte, que não tenha problemas com violência. Se isso for verdade, podemos concluir que o Rio de Janeiro é a antecipação de problemas que ainda vão se tornar mais agudos em outros lugares.

 

  1. Por muito tempo o Rio se beneficiou da exploração do petróleo. Essa época acabou com a divisão do royalties. Não voltará.

 

  1. Sem indústria forte ou vocação empreendedora, o Rio tem como potencial a ser explorado o turismo e a cultura. O potencial turístico é afetado fortemente por fatores como violência urbana, falta de empreendedorismo, limpeza pública, organização, qualificação de mão de obra, infraestrutura e transporte urbano deficiente. Na base destes e outros problemas do Rio de Janeiro está a violência urbana. Não acredito que qualquer atividade econômica sustentável possa se desenvolver em um ambiente marcado por profunda insegurança.

 

  1. A presença da Rede Globo no Rio de Janeiro é um forte fator para disseminação de uma cultura de glorificação de criminosos e da tese que a violência é consequência da pobreza e da desigualdade social. O mais nefasto desta tese é que conclui que não se deve combater o banditismo e sim eliminar a desigualdade social, o que resultará, em um passe de mágica, no fim da violência. A crença de que pobreza gera violência está consolidada. Acredito no contrário, que violência gera pobreza. Não imagino nenhuma solução para a cidade que não comece por eleger a segurança pública como ação principal.

 

  1. Além disso, os programas populares da Rede Globo, como as novelas, reforçam condutas pessoais que, adotadas pelos mais pobres, produzem famílias rompidas, crianças sem proteção dos pais e perpetuação da pobreza. Pobre não tem psicólogo, clínicas de desintoxicação, condições financeiras de criar filhos sozinhos, etc. A família sempre foi a principal proteção dos mais pobres. Está em ruínas.

 

  1. A cultura, que seria outro potencial do Rio de Janeiro, está tomada por uma classe de artistas que defendem o que existe de mais retrógrado na conduta humana e defendem, sem pedor, ideologias que nunca funcionaram em lugar nenhum e que, quando adotadas, só produzem multiplicação da pobreza. Trata-se de uma classe artística ignorante e bárbara, que não faz nada além de perpetuar sua própria ignorância.

 

  1. O carioca não admite que falem mal da cidade. Relevam tudo para não macular o orgulho de achar que moram na cidade mais bonita do mundo. Já escutei frases como “violência tem em todo lugar”, “deu sorte, podiam ter te matado”, “é só não dar mole”. Essa atitude faz parte da cultura que vai transformando a cidade no que estamos vendo.

Em resumo, o Rio de Janeiro está beirando o caos e há uma sensação crescente que o pior ainda está por vir.

Marcos Junior é professor

 

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