Entre a reforma e o populismo
Merval Pereira
Publicado no jornal O Globo de 13/04/2008
Quais são os entraves ao crescimento brasileiro que impedem
que ele venha a ser permanente e crescente nos próximos dez,
15 anos, como prenuncia o otimismo governamental? A empresa de consultoria
Macroplan, especializada em análises prospectivas, montou
os seus já tradicionais cenários de nossa economia
para os próximos sete anos e destaca que, a fazer sombra
à série de evidências de que nossa economia
mudou de patamar nos últimos anos, com a manutenção
da estabilidade econômica, a expansão da renda e do
consumo, que transformaram a classe C no maior estrato econômico
da sociedade brasileira, há gargalos estruturais que, se
não forem equacionados ou significativamente minimizados,
prejudicarão o seu crescimento.
Os principais são: excessiva
burocracia, prejudicando o ambiente de negócios e inibindo
o empreendedorismo; baixos níveis de escolaridade e de capacitação
da população, influenciando para baixo a produtividade
do fator trabalho; baixo nível de investimentos em infra-estrutura,
contribuindo para a degradação dos modais de transporte
e limitações de oferta de geração e
distribuição de energia; elevada carga tributária
combinada com forte expansão e má qualidade do gasto
público.
As despesas correntes do governo
federal tiveram crescimento de 94% nos últimos cinco anos,
enquanto o crescimento nominal do PIB no mesmo período foi
de 73%. Por fim, sucessivos déficits da Previdência
geram pressões crescentes sobre o sistema previdenciário.
Por essas razões, entre os quatro cenários possíveis,
a Macroplan considera que o mais provável é o de “Crescimento
Inercial”, sendo improvável que aconteça o mais
otimista deles, chamado de “Salto para o Futuro”, quando
seriam realizadas reformas estruturais que garantiriam um crescimento
consolidado e permanente.
Um cenário intermediário,
chamado “Travessia na Turbulência”, tem baixa
probabilidade de se realizar, e o único que é francamente
pessimista, intitulado “Baleia Encalhada”, nos levaria,
a bordo de um projeto neopopulista assemelhado aos de vizinhos sulamericanos,
de volta para o passado de uma economia ineficiente e descontrolada,
com o retorno da inflação.
No cenário mais plausível
nas condições atuais, o de crescimento inercial, os
técnicos da Macroplan consideram que entre 2008 e 2010 os
Estados Unidos experimentarão recessão leve, para
logo em seguida iniciar o enfrentamento estrutural à crise.
Mesmo no período mais agudo, haveria o “descolamento”
parcial das economias emergentes e da Europa, mantendo a economia
mundial em expansão moderada, sustentando preços relativamente
elevados do petróleo e das commodities agrícolas e
industriais, mantendose o crescimento da demanda mundial por produtos
exportados pelo Brasil.
No plano interno, o governo mantém
a expansão do gasto público, embora a essência
da política econômica seja mantida, assim como o equilíbrio
das contas, graças, sobretudo, à contenção
de investimentos e ao aumento da arrecadação de tributos.
Transferências de renda e o
crédito ao consumidor e habitacional continuam expandindo,
e as pressões inflacionárias são combatidas
com elevações nas taxas de juros e alguns controles
de crédito. Haveria um relativo equilíbrio nas contas
externas, mas os déficits em transações correntes
continuariam a crescer.
Com a falta de investimentos, o PAC
experimentaria atrasos na maior parte dos projetos, em virtude de
contingenciamentos de recursos.
A única exceção
seriam os projetos de expansão da oferta de energia, mantidos
“a todo vapor”. Apesar de tudo, o país alcança
o grau de investimento até o fim do período.
O próximo governo, entre 2011
e 2014, pegará os Estados Unidos superando a crise, com forte
recuperação da confiança dos consumidores e
da liquidez no sistema financeiro internacional. China e Índia
desaceleram suavemente o seu crescimento por conta de pressões
inflacionárias e ambientais.
Mesmo assim, os preços do
petróleo e das commodities agrícolas e industriais
continuam em patamar elevado, embora menos instáveis.
A demanda mundial por produtos exportados
pelo Brasil mantém-se em alta, assim como a atratividade
do país para investimentos de risco. No Brasil, mantém-se
a essência da política macroeconômica, mas com
um certo afrouxamento fiscal. O endividamento público volta
a crescer como proporção do PIB, e as dificuldades
estimulam avanços pontuais na agenda de reformas estruturais
(Previdência, trabalhista) e microeconômicas, visando
a melhorar o ambiente de negócios. As exportações
voltam a acelerar no bojo da desvalorização cambial
e da forte demanda externa.
No cenário “Baleia Encalhada”,
o segundo mais provável, a economia mundial desacelera devido
ao aprofundamento da recessão americana, iniciando uma crise
de confiança no mercado financeiro internacional. O crescimento
chinês experimenta redução significativa, e
há um expressivo decréscimo da demanda mundial por
produtos exportados pelo Brasil.
O país reage à crise
mantendo a expansão do gasto público, especialmente
de custeio, e as metas de superávit primário são
abandonadas, ao mesmo tempo em que se mantém o esforço
de aumento da arrecadação de tributos. Apesar da intensificação
dos programas de transferência de renda e do aumento das despesas
de custeio do governo, o consumo perde força como propulsor
da economia e o emprego formal pára de crescer.
Deste modo, a taxa de investimentos
declina, e se acentuam os problemas de governabilidade — mantida
em bases fisiológicas —, com o predomínio de
baixos padrões de desempenho na gestão pública.
O Risco Brasil dispara e a economia do país está de
volta ao atoleiro.
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