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  Sexta-feira, 24 de maio de 2013.

 

   
 


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Diálogo Entre Sócrates e Freud - Parte X

Por Mario Guerreiro

_ Posso fazer uma descrição sucinta desse teste projetivo, meu caro Sig...

_ Por favor, faça. Estou muito interessado.

_ O psicólogo, que não é necessariamente um psiquiatra nem um psicanalista, põe diante de seu paciente umas pranchas com manchas e borrões coloridos. Pede ao mesmo que observe o que está vendo e diga o que ele vê.

_ Ora, por suposição, ele dirá que está vendo manchas e borrões coloridos...

_ Não, prezado Sig, o paciente costuma ver figuras de pessoas ou de coisas, porque sua mente possui determinadas representações mentais motivadas por impulsos e sentimentos sugerindo essas coisas.

_ E daí, caro Sócrates?

_ O paciente procede como aquela personagem de Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare...

_ Ah! Você mencionou um de meus autores preferidos, juntamente com Sófocles e Dostoiewsky, mas que passagem do Bardo de Avon você tinha em mente?

_ Tinha em mente uma interessante passagem do ato 5, cena I em que Theseus, Duque de Atenas, diz: “E assim como a imaginação corporifica / As formas das coisas desconhecidas/ A pena do poeta / As transforma em feições e dá ao nada etéreo/ Uma habitação local e um nome / Tais truques são de uma forte imaginação / De modo que se apenas é sentida uma alegria / é fantasiado o motivo da mesma/  Ou se, no meio da noite, sentindo algum medo / Como é fácil um arbusto ser tomado como um urso”.

_ Caro Sócrates, há muito que pensar nessa bela passagem, mas o que exatamente você tinha em mente?

_ Ora, Sig, um mecanismo psicológico bastante conhecido.

_ Pode me dizer qual, caro Sócrates.

_ Um mecanismo que você mesmo revelou saber em seus escritos: a projeção afetiva.

_ Ah! Era isto?!

_ Exatamente isto, meu prezado Sig. O sujeito tomado por uma forte emoção – como, no caso, um forte medo – é levado a olhar para um inofensivo arbusto, mas ver ali um temível urso.

_ Ora, Sócrates, não é necessário que um indivíduo seja tomado por nenhuma forte emoção - como o medo, a apreensão, a euforia, etc.- para que ele olhe para algo e veja outra coisa, de acordo com seu estado afetivo. É comum as pessoas verem figuras humanas e figuras de animais em certas rochas. O ser humano é, em maior ou menor grau, sugestionável. Está propenso a aceitar sugestões, desde que o objeto que chama sua atenção possua certa semelhança com o objeto da sua fantasia... Eu mesmo conheci a importância da sugestão bem antes de ter descoberto a psicanálise.

_ “Descoberto” não me parece a palavra certa, mas sim “inventado”...

_ Não vamos retomar aqui esse ponto controverso já discutido por nós, meu caro Sócrates.

_ De acordo, essa é mesmo uma vexata quaestio e não creio que seja algo essencial para nosso diálogo. Mas posso saber como você conheceu a importância da sugestão antes mesmo de se voltar para a psicanálise?

_ Já lhe disse, caro Sócrates. Na época em que fui trabalhar com o Dr. Charcot em Paris. Utilizei durante algum tempo a hipnose no tratamento psiquiátrico. A sugestão é o meio apropriado para fazer o paciente entrar num transe hipnótico. Mas como também já lhe disse, abandonei o método catártico quando tive um insight que me levou à terapia psicanalítica...

_ Gostaria de saber qual foi esse insight, meu caro Sig. Mas tenho uma outra questão que me parece mais oportuna neste momento.

_Qual?

_ Não lhe pareça haver uma semelhança entre as manchas e os borrões do teste Rohrschach e as telas de pintura não-representativa, particularmente as do estilo chamado abstracionismo expressionista?

_ Por acaso,você está fazendo uma alusão às telas de Kandinsky e outros?

_ Exatamente.

_ De fato, essas telas apresentam manchas, borrões e coisas parecidas. Mas nada que se possa chamar de uma figura humana, de uma coisa da natureza ou produzida pelo homem.

_ Apesar disso, caro Sig, elas funcionam como se fossem pranchas do Teste Rohrschach, principalmente para as pessoas carentes de um curso de apreciação estética, que estão sempre propensas a projetar figuras onde só há manchas e borrões.

_ É verdade. Só não sei se é o caso de uma propensão da natureza humana à sugestão ou se isto se deve há séculos de pintura figurativa influenciando a apreciação da pintura não-figurativa.

_ Meu caro Sig, isso jamais ocorreria se o apreciador da pintura – com ou sem um curso de apreciação estética – estivesse diante de uma tela realista em que são retratas coisas tais quais se mostram para um olhar objetivo.

_ De fato, Sócrates. Mas não consigo imaginar onde você quer chegar...

_ Suponhamos que estivéssemos diante de uma tela de Leonardo da Vinci...Qualquer que seja a tela em questão, acho muito difícil projetar quaisquer coisas nela.

_ É mesmo muito difícil, talvez mesmo impossível, uma vez que as figuras estão nitidamente representando indivíduos humanos e coisas e não há quaisquer borrões ou manchas como no estilo abstracionista expressionista.

_ Consideremos uma de suas mais famosas telas: Leda e O Cisne. Trata-se de um tópico da mitologia grega. Nessa tela, podemos ver uma bela jovem de frente, tendo a seu lado um cisne. Ela toca levemente o pescoço dessa ave... Como é que, em seu estudo sobre a personalidade de Leonardo, você conseguiu ver um pênis onde está o pescoço de um cisne?

_ Ora, Sócrates, minha experiência clínica me mostrou que algumas coisas, tais como o pescoço de um cisne, são símbolos fálicos – sugerindo o órgão sexual masculino. Geralmente são objetos de forma cilíndrica...

_ Mas basta um objeto ter essa forma para que ele possa ser visto como um símbolo fálico? Neste caso, este charuto que você está sempre fumando é por acaso um símbolo fálico?