Ser ou não ser: nova liderança para uma sociedade sustentável
A conferência que, no dia 12 último, teve lugar no Castelo Kornborg – o castelo de Hamlet – a cerca de 30 minutos de Copenhague, foi organizada pelo Copenhagen Climate Council e pelo Global Compact das Nações Unidas e ganhou o título sugestivo de “Ser ou não ser: nova liderança para uma sociedade sustentável”
No Castelo de Kornborg, a quase totalidade do público presente à conferência organizada pelo Copenhagen Climate Council e pelo Global Compact das Nações Unidas era de empresários(as). Cerca de 500 pessoas, acompanhadas pelos ouvidos atentos da princesa da Dinamarca, ouviram, de forma muito atenta, a mais de 20 breves apresentações feitas por empresários (as) ou executivos (as) de empresas - em número quase igual de mulheres e homens -, todos europeus, americanos e chineses, com exceção de uma pessoa vinda do Egito, um país em desenvolvimento.
A enorme sala, de pé direito de uns dez metros, com cerca de 100 metros de comprimento, tinha no seu teto - de mais de 400 anos - troncos aparados de árvores imensas, atravessando os possivelmente mais de 40 metros de largura, lembrando da destruição das florestas européias durante os últimos séculos.
Na entrada do evento, um banner expressava o que se queria dos empresários: “use a sua influência para levar as mudanças climáticas à atenção dos responsáveis pelas políticas públicas, mobilize seus empregados, sócios, parceiros, clientes e consumidores para que tomem posição e demandem ações na área das mudanças climáticas de seus governos”. A impressão inicial imediata era de que os empresários iriam jogar a bola para o governo. Mas, não foi o que aconteceu.
Na sua introdução ao evento, Erik Rasmussen, fundador do Copenhagen Climate Council, ressaltou o significado do título do evento como sendo o de ser ou não ser uma sociedade sustentável e apontou a responsabilidade das empresas nesse processo.
O primeiro fato marcante, comparado a dois ou três anos atrás, foi que ninguém, ali, expressou sequer uma única dúvida sobre a existência do aquecimento global e suas conseqüências, aceitos integralmente como de total responsabilidade da atividade humana no planeta.
Por outro lado, com notáveis exceções, as falas se centraram fortemente na liderança para a tecnologia energética de baixa emissão de carbono, ressaltando o fato de a China ter tomado a dianteira em painéis solares, energia eólica (embora a maior empresa do mundo esteja na Dinamarca e um terço das pás sejam fabricadas em Sorocaba, no Brasil) e em turbinas de alta eficiência e em energia nuclear, revelando uma sociedade decidida a não ser acusada de não ter feito a mudança necessária para novos tempos de baixo carbono.
Embora as falas insistissem que a grande caminhada apenas começou, todos os palestrantes mostraram que havia soluções tecnológicas prontas e acabadas, tecnicamente factíveis e economicamente viáveis para enfrentar o desafio de emitir menos carbono, ao menos na geração de energia.
Ainda que a Dra. Gro Bruntdland, que cunhou o termo “desenvolvimento sustentável”, tivesse chamado a atenção para a importância dos empresários pressionarem seus governos a agirem imediatamente e de forma significativa na busca de uma boa negociação, sua fala não foi acompanhada por nenhum dos apresentadores em nenhum dos painéis ou na fala dos “key-note speakers”.
A impressão, a partir das diversas falas do encontro, é de que tudo será resolvido pelas empresas por via da tecnologia e por via do mercado de carbono, desde que haja, de um lado, uma sinalização adequada, qualquer que seja, por parte dos governos, e, de outro lado, a existência de linhas de financiamento consistentes com os objetivos buscados. Os empresários apontaram a importância de:
(a) políticas governamentais claras e de longo prazo, de modo a orientar os investimentos;
(b) financiamentos a taxas mais favoráveis para as tecnologias limpas; e
(c) incentivos fiscais para os produtos decorrentes.
Mas não clamaram por uma boa negociação nesta COP-15.
Um ponto importante foi a certeza com que se falou da incorporação no custo dos produtos e serviços das emissões de carbono, o que certamente seria um grande incentivo à menor emissão em toda a cadeia produtiva. Pensando nos mecanismos de mercado, a incorporação do custo da emissão de carbono pode, sem dúvida, alterar significativamente os mercados e a preferência do consumidor. No entanto, tal incorporação certamente dependerá das negociações finais nesta Conferência.
Assim, apesar de denominada “ser ou não ser” uma sociedade sustentável, e ser voltada a ouvir os empresários demandando posições de seus governos para que negociem acordos mais ousados de uma menor emissão de carbono em todo o mundo, os empresários falaram daquilo que mais fazem em seus negócios, isto é, do desenvolvimento tecnológico e de produtos.
Sem a representação de países em desenvolvimento ou de ONGs com algum espaço significativo para se manifestar, os empresários de países ricos, tanto homens como mulheres, pediram que se definissem metas, sem precisá-las, e se estabelecesse políticas, sem qualificá-las, que possam servir como orientação de longo prazo. O resto, “deixem conosco e faremos”. Com capital e tecnologia, tudo estará resolvido.
Uma grande exceção foi a fala mobilizadora de Muhtar Kent, Chaiman e CEO da Coca-Cola Company, que apontou, inicialmente, a necessidade não apenas de mitigação das emissões de carbono mas, também, de adaptação nas sociedades, dada a irreversibilidade da concentração e emissões de carbono no curto prazo. Adaptar é fundamental para enfrentar os impactos que não podem ser evitados. De outro lado, apontou que, à medida que os bens de consumo tocam a todos os cidadãos e todos os ecossistemas, várias vezes por dia, é fundamental a interação com os consumidores, “que estão julgando não apenas os produtos, mas, também, o caráter das empresas”.
Kent ressaltou que os consumidores estão dispostos a um maior gasto em produtos que sejam sustentáveis e, de outro lado, que os varejistas também estão ativamente engajados em sustentabilidade, demandando de seus fornecedores ações que atinjam metas desafiadoras nesse tema. Para isso, aponta a necessidade de liderar com os fornecedores, insistindo em inovações que ocorram na intersecção dos processos produtivos com a sustentabilidade. Ele apontou, também, a necessidade de liderar com os colaboradores na direção de uma cultura de sustentabilidade, que “começa em casa e precisa se refletir em um novo modo de viver sustentavelmente”. Apontou que, a empresa deve não apenas sensibilizar e mobilizar os seus colaboradores para o tema, mas também estabelecer metas e métricas que tangibilizem o desafio.
Além da intervenção de Kent, a inclusão da preocupação com o consumidor só apareceu no painel sobre a comunicação com os diversos públicos, envolvendo funcionários, governo e consumidores em uma economia de baixo carbono. Nesse painel apontou-se para a importância de três fatores:
(a) o uso das redes digitais;
(b) o uso de uma comunicação rápida e lúdica;
(c) dar maior tangibilidade à mudança climática; e
(d) dar maior atenção ao publico jovem e sua forma de se comunicar.
O mesmo painel ressaltou que os consumidores estão levando as companhias a mudar de atitude frente à sustentabilidade e que as empresas estão respondendo a esta demanda.
Uma observação específica, mas importante, ressaltou que é preciso ir muito além da pegada ecológica dos produtos, sendo importante inspirar, comunicar e educar o consumidor para que contribua no combate ao aquecimento global.
A meu ver, a pouca importância dada ao modelo de consumo e às demandas do consumidor nas diversas falas do encontro, não se deve apenas ao fato de terem sido selecionados empresários que, em geral, não estão na ponta do consumo. Na verdade, representa uma visão míope do que é a maior crise civilizatória que se tem história, e que está mostrando os limites naturais e sociais da forma de produção e de consumo. A solução terá que vir de um esforço em todas as áreas, imperando o “e” e não o “ou” e envolvendo não apenas a indústria de consumo, mas toda a cadeia produtiva. Tecnologia, capital, inovações incentivos, financiamentos deverão dar as mãos a uma forte mudança de comportamento do consumo individual e do consumo valorizado pela sociedade como um todo.
Ainda que alguns chamassem a atenção para os 1,6 bilhões de pessoas sem energia elétrica, como fez o Dr. Rajendra Pachauri, Chairman da Comissão Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), pouco se falou sobre os novos consumidores e sua necessidade de energia, que tende a se apresentar em uma demanda exponencial especialmente na China, mas também na Índia e no Brasil.
Mas, certamente é ingênuo de minha parte esperar que os empresários que participaram desta conferência agissem diferente. Avaliados em seus negócios pelos agressivos mercados financeiros em termos de resultados de curto prazo, os empresários preferem lidar com uma coisa de cada vez, considerando já terem dificuldades suficientes com as novas tecnologias para, ao mesmo tempo, lidarem com mudanças mais significativas na estrutura do consumo global.
Com poucas exceções, todos são avestruzes enterrando a cabeça no solo, sem ver ou ouvir o desastre anunciado face à manutenção do atual modelo de consumo.
Independente do resultado de Copenhagen, as empresas seguirão produzindo e inovando na direção de baixo carbono, mas, talvez, equivocadamente, deixando de olhar para a realidade gritante de que o modelo de consumo é insustentável não apenas pelas emissões de carbono, mas também pela demanda de recursos naturais finitos frente ao crescimento populacional e ao crescimento do consumo das populações recém-agregadas ao mercado de consumo.
Que falta fizeram nessa Conferência alguns dos líderes empresariais brasileiros mais progressistas falando de suas estratégias sustentáveis de negócio e incluindo o consumo consciente como parte delas. Aliás, é importante dizer que o consumidor vai mudar de qualquer maneira, fora do controle das empresas, influenciado pelas redes sociais digitais e pela busca de uma vida com mais significado. Senhores e senhoras empresários (as): apertem o cinto, pois a mudança é grande e já começou há um bom tempo!!
* Helio Mattar é diretor do Instituto Akatu
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