Quinta-feira, 20 de novembro de 2008.

 

     
 
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ARTIGO
 

Responsabilidade Social, sim. Mas, não devia ser óbvio?

Eduardo George Cupaiolo

Se alguém for visto rasgando dinheiro, afirmando ser Napoleão ou parando todo mundo na rua para dizer: “eu sou gente”, será gentil, mas firmemente, encaminhado para tratamento de distúrbios emocionais.

Qual o destino espera, então, algumas organizações contemporâneas cujo comportamento é, no mínimo, estranho (repare eu disse, no mínimo e até coloquei em itálico). Aquelas que insistem em alardear suas iniciativas de responsabilidade social.

Aclarando as idéias. Se todas as organizações (exceto a Máfia, a Al Quaeda e outras poucas parecidas com elas) têm, ou deveriam ter, como objetivo o bem estar da sociedade e, portanto, zelar para que todas suas iniciativas sejam socialmente responsáveis, por que ultimamente tantas insistem em afirmar e propagar como se fosse exceção o que deveria ser a regra ?

Restam-nos poucas alternativas que expliquem tal comportamento, pois, ou as organizações estão apelando para a redundância ao insistir no óbvio, ou adentrando pelo caminho da falsidade ideológica: afirmarem fazer como se fossem, mas fazerem sem o ser.

Sugiro 4 hipóteses. As três primeiras seguem a mesma lógica: insistem no óbvio, apesar de socialmente responsáveis insistem em dizer que são.

Número 1: fazem por ignorância ou tolice. Não estão conscientes de serem socialmente responsáveis. E, por isto, correm o risco de colocarem em dúvida que são ao insistirem em reafirmar que são. Como um comerciante que colocasse na porta um cartaz avisando: “Vendemos produtos sem defeito” ou “Aqui não enganamos o cliente, nunca, pode experimentar”. Dão inutilmente um tiro arriscando-se que ele saia pela culatra. Fariam melhor se poupassem munição.

Número 2: fazem over-marketing (espero que a expressão exista). Botam o ovo e cacarejam. Menos mal, pelo menos botam o ovo. Mas sociedade satisfeita ainda é a melhor propaganda.

Número 3: optaram pela versão da surfista Maria-vai-com-as-outras. Querem estar na crista da onda. Se é in, se é chique, se é politicamente correto, se os outros este fazendo então, fazem também.

Número 4. Bem, aqui a coisa aperta. São socialmente irresponsáveis. Sim, produzem dor, desconforto, mal-estar, tristezas, doenças e até mortes. Na população interna e externa. Sim, ninguém escapa. Seu padrão de serviço é servirem apenas a si mesmas. Mesmo.

São como gafanhotos, devoram tudo o que vêem pela frente. Começando pela saúde de seus funcionários.

São como vampiros, se pudessem criariam um posto de coleta de sangue na portaria. Sugariam até a última gota e depois abandonariam os cadáveres nas filas de Programas de Demissão Voluntária.

São como vírus de computador, se disfarçam atrás de anúncios de “grande oportunidade de desenvolvimento profissional, salários acima da média do mercado, bônus e ambiente desafiador”. Desafiador uma pinóia, explorador. Entram na sua mente e se apoderam de seu corpo, de sua alma, de sua vontade.

Dê 3, 6, no máximo 9 meses, e o infectado dará à luz a um alienígena. Se não conseguiu associar o nome à pessoa, se ainda não conseguiu reconhecer seu Bebê de Rosemary, facilito: ele (ou ela) deve ter a cara de uma enxaqueca que te pega uma vez por semana, uma gripe, dores nas costas ou tendinites que não saram nunca, pressão alta, taquicardia, cansaço incansável, perda de memória, mau humor, depressão. Essas organizações, cujos fins são só lucrativos, muito lucrativos e só para elas, são também como animais predadores. Montam uma teia, uma armadilha a que chamam estratégia de marketing ou business case (acho que daí vem a expressão crime da mala). Dizem vender um serviço apenas para capturar a vítima e em vez de servirem a ela, servem-se dela.

São como colonizadores, chegam, desprezam o outro, roubam as riquezas e vão embora. Se bem que alguns não vão... bem, pelo menos enquanto houver riquezas. E em troca oferecem poluição. Muita. Todas: Mental. Ambiental. Sonora. Social.

Mas são, principalmente, estelionatários. Fingem-se de santinhos. Mas são do pau oco. Agem apenas para ficarem bonitos na foto: - Quem, eu, ‘magine... ‘tamu aqui para contribuir com o desenvolvimento da nação. Somos socialmente responsáveis. Temos um orfanato para 50,... ou seriam 48 crianças? Bem, não importa, órfão é tudo igual mesmo.

Seja lá qual for a hipótese em que se enquadre uma organização é necessário rever o termo, rever a prática, rever a estratégia de marketing. Muito mais importante do que a empresa diz para os outros que faz, é o que, de fato, faz para os outros, mesmo sem dizer.

Organização só merece participar do mercado se atende a uma exigência básica, óbvia, mas insistentemente ignorada:

“Oferecer com competência e responsabilidade a cada pessoa e à sociedade como um todo, produtos e serviços que atendam às suas necessidades reais.

Com a disposição de receber em troca, primeiro, e em moeda existencial, intangível, a satisfação de ver necessidades humanas atendidas.

E, só depois disto, e se desejar (já que algumas organizações abrem mão desta parte, pois seu foco é exclusivamente o bem-estar do outro) receber, na medida de sua competência em gerar bem-estar, a merecida retribuição material.

E, isto tudo, sem causar a nenhum indivíduo (interno ou externo), grupo social ou ao meio ambiente, qualquer dano”.

Enfim, que todos esforços da organização (e não apenas alguns) sejam investidos em benefício do outro. E não para se posar de bonito ou de bonzinho, nem para manipular a boa fé do consumidor, nem mesmo para aplacar consciências pesadas.

Que responsabilidade social seja por razão de ser. Ou ainda, como diz no contrato registrado na junta comercial, por razão social.

Artigo publicado no livro “Contrate Preguiçosos”, MC Editora, São Paulo, 2006

Eduardo Cupaiolo é consultor de empresas