5 vezes favela, agora por nós mesmos
Produção de Cacá Diegues e Renata Magalhães
O filme, composto de cinco episódios dirigidos por jovens cineastas moradores de comunidades faveladas do Rio de Janeiro, é uma generosa alusão dos produtores ao filme homônimo de quase cinqüenta anos atrás.
“Uma câmara na mão e uma idéia na cabeça” esta era a legenda do Cinema Novo gritada por Glauber Rocha e que surgia no início dos anos 60 com o primeiro prêmio do Festival de Cannes a um filme produzido no Brasil: O pagador de promessas, de Anselmo Duarte. Além de Glauber, com Barravento e Deus e o Diabo na terra do sol, ainda temos Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis e Os cafajestes, de Ruy Guerra.
Em 62, chega Cinco Vezes favela, outro grande pilar do Cinema Novo, composto também de cinco episódios introduzindo o cenário urbano brasileiro como temática cinematográfica, com cinco jovens diretores também, só que estudantes universitários de classe média preocupados com a estética do CPC da UNE em trazer o verdadeiro Brasil para as artes e as telas de cinema: além do próprio Cacá Diegues, Marcos Farias, Leon Hirszman, Miguel Borges e Joaquim Pedro de Andrade. A chamada do trailer da nova versão já diz tudo:
“- Você já viu a favela dos bandidos. Você já viu a favela dos policiais. Agora você vai ver a favela dos moradores”. Sem dúvida alguma, um projeto de generosidade e de revisão crítica do próprio cineasta diante do argumento de retratar a vida nua e crua das favelas antes de quaisquer tentativas de doutrinação ideológica. Cacá Diegues, para além de produzir a nova versão de 5 vezes favela, se dedica a todo um projeto de integração social do morro com o asfalto, superando a cidade partida que é mais um imaginário social de preconceito e discriminação de classe social do que qualquer outra coisa. Além de cursos e oficinas de produção cinematográfica, promove oportunidades para a revelação de jovens talentos, afirma a auto-estima, distribui renda (foram recrutadas mais de 80 pessoas das próprias comunidades, para além dos diretores, atores e técnicos), e até mesmo foi produzido um livro sobre o filme.
Os cinco episódios e seus realizadores:
1. Fonte de renda: narra a história de um jovem que realiza seu sonho de ser bem sucedido no vestibular e entrar para uma Faculdade de Direito, mas passa a encontrar dificuldades para dar conta dos gastos com livros, alimentação e transporte. Ele então se sente atraído a vender drogas para amigos da faculdade, lucrando com isso o suficiente para custear seus estudos. Com direção de Manaira Carneiro & Wavá Novais, argumento de Vilson Almeida de Oliveira e roteiro da Oficina Cidadela/Cinemaneiro (Linha Amarela). Manaíra Carneiro tem 21 anos e é a mais jovem do grupo, moradora de Higienópolis, teve sua primeira experiência com cinema em curso do Cinemaneiro, realizado em sua comunidade, em 2002. Terminou a Escola Técnica de Audiovisual e dirigiu o curta-metragem “Café Sem Chantilly”, com o grupo Cinemaneiro. Cursa a faculdade de Estudos Culturais e Mídia na Universidade Federal Fluminense. É integrante da OSCIP Cidadela – Arte, cultura e Cidadania. Wavá Novais tem 25 anos e é morador da Taquara, estuda Cinema na Universidade Estácio de Sá. Já dirigiu três curtas em vídeo. Participou também de algumas produções em sua Universidade e no grupo Cinemaneiro, em diversas áreas, da assistência de direção à produção, sendo a última em parceria com Manaíra Carneiro.
2. Arroz com feijão: para conseguir construir um quarto para o filho único, os pais de Wesley, de 12 anos, são obrigados a reduzir o cardápio de casa a arroz com feijão. No dia do aniversário do pai, o menino se junta ao amigo Orelha e sai, sem muito sucesso, em busca de recursos para comprar um frango de presente para ele. Direção de Rodrigo Felha & Cacau Amaral. Argumento – José Antônio Silva. Roteiro – Oficina CUFA (Cidade de Deus). Cacau Amaral – 36 anos, morador de Caxias e ligado à CUFA (Central Única de Favelas), participou de curta metragens e videoclipes realizados por ela. É um dos realizadores do documentário “Um ano e um dia”, sobre ocupação de terra. Esse filme ganhou prêmios em diferentes festivais, inclusive no de Jovens Realizadores do Mercosul e na Mostra do Filme Livre, em 2005. Além de seu trabalho com cinema, é também escritor e rapper. Rodrigo Felha - 30 anos, mora na Cidade de Deus e foi um dos coordenadores do Curso de Audiovisual da CUFA, participando também de suas produções. Foi câmera e trabalhou na produção do documentário “Falcão, meninos do tráfico”. Trabalha com Cacau Amaral desde 2003, quando realizaram juntos o clipe “Ataque Verbal”, da banda Baixada Brothers, liderada por aquele seu parceiro.
3. Concerto para violino: ainda crianças, Márcia, Jota e Ademir fazem um juramento de amizade eterna. Agora adultos, com cerca de 20 anos de idade, Jota foi para o tráfico de drogas e Ademir entrou para a polícia. O enfrentamento entre os dois pode impedir que Márcia, agora violinista, realize seu sonho de uma bolsa de estudos musicais na Europa. Argumento – Rodrigo Cardozo. Roteiro – Oficina Afroreggae (Parada de Lucas). Direção – Luciano Vidigal – 29 anos, há dezenove anos faz cinema e teatro no grupo Nós do Morro, no Vidigal, onde nasceu e mora, e lá se destacou como escritor, diretor e ator. Dirigiu o curta-metragem “Neguinho e Kika”, que ganhou vários prêmios, inclusive o de melhor filme nesta categoria, no Festival de Marselha (França).
4. Deixa voar: Flavio, 17 anos, é morador de uma favela carioca. Ele deixa a pipa de um amigo “voar” e agora tem que ir buscá-la na favela de uma facção rival à que ele mora, onde a pipa caiu. Mesmo com medo da aventura, ele vai buscar a pipa, descobrindo que as pessoas da favela rival em nada diferem das de onde ele mora. Argumento – Cadu Barcellos. Roteiro – Observatório de Favelas (Complexo da Maré). Direção – Cadu Barcellos – 22 anos, integrante do grupo Observatório de Favelas, do Complexo da Maré, onde também mora, participa há tempos das atividades dessa organização e acaba de começar o curso de audiovisual na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Dirigiu um curta para o Canal Futura exibido em maio de 2007.
5. Acende a luz: É véspera de Natal e o morro está sem luz há três dias. Os técnicos enviados pela companhia de luz não conseguem resolver o problema, os moradores seqüestram um funcionário dela e o fazem de refém, até que a luz volte. O funcionário se integra à comunidade e acaba se tornando o herói dela na noite de Natal. Argumento – Luciana Bezerra. Roteiro – Oficina Nós do Morro (Vidigal). Direção - Luciana Bezerra – 34 anos, mora no Vidigal e é uma das coordenadoras do grupo Nós do Morro. Já atuou em diversas áreas do cinema, tais como produção, figurino e direção de arte. Como diretora, realizou alguns curta-metragens, entre os quais “Mina de Fé”, filme premiado com uma Menção Honrosa no Festival do Rio e como melhor curta no Festival de Brasília, ambos em 2004.
Cinco curtas reveladores não apenas da mais pura e nova linguagem cinematográfica brasileira, mas cinco temas universais que revelam uma busca por integração e identificação cultural planetária entre uma juventude cada vez mais conectada e uma cultura cada vez mais socializada. Se Fonte de renda é uma arte edificante, denuncia o quanto é exploradora a cultura pop de violência sem limites do cinemão realizado pelas grandes produtoras centrais. Arroz com feijão, para além de moralmente edificante, trata com a mais pura singeleza a transmissão de valores entre pais e filhos. Concerto para violino enfrenta com galhardia também outro grande tema da cultura universal, a amizade. Deixa voar tematiza a integração social pela força do amor, como numa alusão a Romeu e Julieta. E Acende a luz trata da convivência comunitária, um dos desafios da cidadania brasileira.
Vale muito a pena ver esta jóia da arte cinematográfica brasileira:
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